17/02/2021 às 13h05min - Atualizada em 17/02/2021 às 12h51min

Como é começar uma faculdade em meio à pandemia?

Maria Mendes - Editado por Camilla Soares/ Maria Paula Ramos
Fonte: Daniel Bosse / Reprodução: Unsplash

Comemorações com abraços calorosos, o trote após a matrícula, a construção de amizades e a imersão em muitas e muitas páginas para estudar. Esses são alguns dos acontecimentos que acabam caracterizando o ingressar no ensino superior como um momento de conquista e que costuma ser marcado por mudanças na vida do novo estudante universitário. Mas e quando essa nova etapa começa em uma pandemia? “Houve uma quebra de expectativa desse rito de passagem muito importante e eu acho que isso trouxe uma frustração muito grande para a galera do primeiro período”, assim a professora universitária Ana Goulart de Andrade descreve o que acontece com os calouros nesse período.

 

Maria Clara Medeiros é uma das estudantes que começaram o ensino superior em meio à pandemia, além disso, ela atravessou o Atlântico para iniciar o curso. A jovem de 19 anos iniciou a faculdade em setembro de 2020 e cursa Engenharia Geomática e Topográfica na Universidade de Jaén, na Espanha. No começo, suas aulas estavam acontecendo presencialmente e com distanciamento social, mas em novembro, com o aumento de casos de Covid-19, começaram a tirar a presencialidade de quase todos os cursos. Nos cursos de engenharia, optaram por deixar apenas as aulas práticas presenciais. 

 

“A princípio, foi inovador porque eu nunca me coloquei nessa situação, como muitas pessoas. Você não tem o contato direto com o professor, com os seus colegas”, dessa forma Sandra Regina começa a contar de sua segunda experiência como universitária, agora aos 48 anos. Sandra concluiu o bacharel em Direito no final de 2018 e, atualmente, cursa o segundo semestre de Psicologia que começou as aulas em regime remoto por conta das medidas de prevenção ao vírus. “Para mim foi um desafio porque eu não participava desse mundo digital assim”, disse a estudante que contou ter dificuldades em como iria utilizar a plataforma para tirar dúvidas e, também, ter problemas para realizar as chamadas de vídeo.

 

Maria Paula Gomes tem 18 anos e iniciou o curso de Engenharia Agrícola e Ambiental pela UFF há poucas semanas, tudo está acontecendo remotamente. As aulas acontecem por meio de duas plataformas e os professores podem optar por aulas síncronas ou assíncronas, ou seja, aulas online feitas por chamada de vídeo ou aulas gravadas. Para ela, a experiência está sendo “muito mais complicada do que se fosse presencial, porque, querendo ou não, tem um bloqueio que é a tela, não é como estar em uma sala”.


Ana tem quase 15 anos de docência superior. Ela descreve o transmitir conhecimento no modelo entretelas em um contexto de medo e pavor do vírus como uma das experiências mais desafiadoras de sua carreira. 

 

“Acho que ninguém se sentia capaz, talvez, nem de ensinar, nem de aprender”, disse.

 

A professora percebeu, em um primeiro momento, um grande desânimo e uma falta de crença na possibilidade de aprender a distância, também destacou a importância de se considerar um outro tipo de tempo para as aulas online, pois precisam ter uma duração menor ao serem comparadas com presenciais. Então, se no modelo de aula presencial eram aproximadamente duas horas, em telas o máximo tolerado é de 1h40. “Exige muito mais. Muito mais concentração, expressão facial, nos olhos. Você fala o máximo com as mãos, você tem que ter atenção no chat, você tem que ter uma outra possibilidade cognitiva para poder dar conta de tantas coisas. Então, não existe uma liberdade do próprio corpo de agir”, disse. 

 

Além disso, Ana falou de como a nova realidade exigiu formas mais criativas para prender e reter a atenção durante as aulas. A professora chamou atenção para o que os alunos acostumaram chamar de  “aula podcast”, em que é apenas necessário colocar o fone de ouvido e permanecer em off, sem interatividade. As três estudantes deram ênfase também para a dificuldade de concentração, o que é ilustrado por relatos como:

 

“Por mais que você queira se disciplinar porque você está tendo uma aula, o mundo exterior acaba te atrapalhando. Como alguém que te chama no portão, teu celular toca, filho pergunta alguma coisa, marido pergunta alguma coisa. O lado exterior influi sim, por mais que você fique trancado no seu quarto”, disse Sandra.

 

“Se eu estou com sono, é só deitar e dormir. O celular tocou, eu posso atender tranquilamente. Qualquer barulho externo chama a minha atenção. É muito complicado prestar atenção em uma tela só falando e falando”, disse Maria Paula.

 

“Eu fico assistindo a aula meio que viajando, olhando para a tela e para o cursor do mouse que o professor está mexendo. Não tem muita interação”, disse Maria Clara.

 

De todo modo, a entrada para um curso superior continuou permeado por mudanças e novos desafios, mesmo que de maneira diferente. 

 

“O novo é diferente, mas não é impossível”, disse Sandra.

 

"Para mim, foi um desafio e também me tirou um pouco da solidão, me tirou da ociosidade. Mesmo eu estudando para outra área, essa nova etapa, essa nova graduação me fez ter mais uma responsabilidade”, disse Sandra sobre o que representa em sua vida o iniciar seu segundo curso superior.

 

Para Maria Clara, tem sido uma experiência muito radical. Antes ela morava com a mãe e com 19 anos passou a morar sozinha em outro continente em plena pandemia, começou uma faculdade que não tem certeza se é o que quer para toda a vida, mas que no momento é com o que quer trabalhar. “Eu estou aprendendo a ser mais sozinha. É tudo sozinha. E ter mais organização com dinheiro, a ter mais responsabilidade”, contou a estudante.

 

“Aprendi que em todos os aspectos o contato é muito importante, seja para o processo de ensino-aprendizagem, ou para interação”, disse Maria Paula. Para ela nessas semanas, as interações e os obstáculos para criar relacionamentos com os colegas são pontos que se revelaram muito por meio das tentativas online de remediar isso, tais como grupos em redes sociais e vídeo-chamadas. A aluna descreve como uma experiência complicada, devido a timidez ao tentar se relacionar com pessoas desconhecidas apenas pela internet. Ela enxerga como uma questão de bloqueios entre os alunos e o professor. 

 

“Eu me esforço demais para dar a melhor aula, porque eu sei que eu estou do outro lado da tela que tem alguém ali esperando para ouvir e ver alguma coisa que vai para além do conteúdo da aula”, disse Ana.

 

Ana Goulart também destacou que a pandemia revelou a desigualdade brasileira. Relembrou o caso de um aluno que assistia a aula no banheiro e o quanto essa situação a tocou. Assim como, o quanto é preciso muitas vezes animar a turma, dar um fôlego, dizer para aguentar mais um pouco. “Aliás, estou precisando até agora. Está prolongado, essa pandemia prolongada é também danosa nesse sentido”, finalizou.

 

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