18/02/2021 às 15h47min - Atualizada em 18/02/2021 às 15h21min

Formas de incentivo à leitura na internet

Um ambiente em que é possível estimular e trocar experiências literárias

Suyany Nogueira - Editado por Andrieli Torres

A era digital, caracterizada principalmente pelas tecnologias advindas da 3ª Revolução Industrial, proporciona até hoje, diversas possibilidades para a sociedade. A internet ao mesmo tempo que trouxe as redes sociais facilitando o processo de comunicação, tornou-se também um instrumento utilizado para incentivar a leitura. Para isso, existem os chamados produtores de conteúdos literários, pessoas responsáveis por influenciar e estimular essa prática na internet.

Conhecidos também como ‘Booktubers’, ‘Bookstagrammers’ ou ‘Booktwitters’, dependendo de qual plataforma digital há um maior destaque dos conteúdos, os influenciadores literários possuem como objetivo disseminar a literatura na rede digital.

Entre os seus principais conteúdos, estão as resenhas de livros, dicas relacionadas ao mundo literário, criação de leituras coletivas (pessoas que se reúnem para lerem um livro escolhido com antecedência), aplicação de sprints de leitura (período de tempo determinado em que o leitor foca totalmente na leitura), maratonas literárias (um autodesafio de ler o maior número de livros em 24 horas ou mais), entre outros. Alguns exemplos de booktubers de destaque entre o público jovem são:
Bel Rodrigues, Ju Cirqueira, Pam Gonçalves e Bárbara Sá.

Jennifer Lisboa, estudante de psicologia e idealizadora do perfil @cidadeliteraria no Instagram, comenta sobre a importância de existir pessoas que falem sobre livros nas plataformas digitais. “O contato com outras pessoas que leem pode estimular o leitor não só a continuar lendo, como também a sair de sua zona de conforto literária. O mundo dos livros na internet o ajuda a descobrir novas obras, autores, gêneros literários... O que enriquece ainda mais sua experiência como leitor”, disse.

Ela ainda destaca o significado de haver leituras coletivas e sprints de leitura. “Humaniza ainda mais algo que, às vezes, pode ser solitário, principalmente em uma época de pandemia como a que estamos agora”. Jennifer também revelou que está estudando a possibilidade de fazer sprints de leitura através de lives na plataforma Twitch

De acordo com a 5° Edição de Retratos da Leitura no Brasil, lançada em 2020 e realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) em parceria com o Itaú Cultural, algumas motivações que despertam o interesse das pessoas na literatura é a partir dos influenciadores literários e através da participação em grupos, oficinas ou clubes de leitura.

Para o leitor e estudante de ciências da computação, Webster Victor, o desempenho dele com a leitura aumentou após começar a consumir conteúdos literários na internet. “Antes eu pegava um livro, me arriscava e, muitas vezes, acabava parando no meio da leitura por não curtir. Agora não, eu geralmente já sei sobre o que o livro fala e saber um pouco do que eu vou encontrar no livro me deixa mais ansioso para terminar a leitura”. Ele conta que consulta perfis literários quando busca alguma dica de livro. “Sempre que tenho dinheiro disponível, vou atrás de ver vídeos ou conteúdos nos bookstagrams para decidir qual a melhor opção de livro para mim”, detalha Webster.


Os desafios que permeiam o mundo da leitura

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), a taxa de analfabetismo entre pessoas com idade de 15 anos ou mais em 2019 no Brasil, foi estimada em 6,6% (11 milhões de analfabetos). Entre as regiões que apresentaram a maior taxa de analfabetismo, a que mais se destaca é a região Nordeste, com 13,9%, seguido do Norte, 7,6%, Centro-Oeste, 4,9% Sul, 3,3% e Sudeste com o mesmo percentual, 3,3%. 

Karoline Holanda, professora de educação básica da rede estadual de ensino do Ceará há dez anos, ressalta que a quantidade de brasileiros analfabetos funcionais, ou seja, pessoas que não desenvolveram habilidades de compreender textos simples e interpretá-los, é resultado da falta de incentivo à leitura. Ela reconhece a importância desse processo acontecer também no ambiente digital, enfatizando que ler é um caminho para o crescimento intelectual e um dos meios que garante a perpetuação da cultura.

"Várias habilidades vão sendo desenvolvidas nesse percurso; a capacidade de reflexão, de análise, a criatividade pode ser estimulada nesse processo, um olhar mais apurado e comparativo sobre o que está ao seu redor. Todas essas habilidades nos ajudam a viver em sociedade, seja no ambiente familiar, seja em contextos de educação formal (escola, universidade)", pontua Karoline.

Juntamente com o elevado índice de analfabetismo, a falta de acesso à internet também é um fator que dificulta o processo de obter informação, conhecimento e na relação das pessoas com a leitura, uma vez que o ambiente virtual se tornou também uma estratégia de estímulo e influência para uma série de leitores no país. De acordo com os dados da pesquisa TIC Domicílios divulgados em 2020, cerca de 20 milhões dos domicílios brasileiros ainda não possuem acesso à internet.

O ontem e o hoje

Durante a Idade Média, os principais desafios envolvendo a leitura eram relacionados à restrição dos livros apenas aos intelectuais e monges da igreja. Em outros momentos, por exemplo, na Alemanha Nazista, os livros chegaram a ser queimados em razão do seu alto poder de influência nas ideias e comportamentos da sociedade da época. Hoje, os desafios são outros e tão problemáticos como os de outrora; entre eles, há o analfabetismo e todas as mazelas que compõem essa realidade e a falta de acesso à internet.

Diante disso, é importante que as formas de incentivo à leitura, sejam elas presenciais ou no formato digital, existam e resistam. Com estímulos, oportunidades e um livro na mão, é possível transformar o amanhã em um dia melhor e com mais esperança.

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