27/02/2021 às 21h48min - Atualizada em 27/02/2021 às 21h22min

Pesquisas apontam transtornos psíquicos desenvolvidos por conta da pandemia

Brasil lidera números de caso de depressão e ansiedade, além disso, outros dois transtornos principais: estresse pós-traumático e "covid-insônia"

Marceli Maria - Editado por Ana Paula Cardoso
Hospital Santa Monica/Divulgação

Durante a pandemia do novo coronavírus, as pessoas tiveram suas vidas e rotinas transformadas. Por causa dessa mudança, a maioria das pessoas, principalmente no Brasil, vêm sofrendo com vários tipos de transtornos psíquicos, sendo os principais: depressão, ansiedade, insônia e estresse pós-traumático. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), o país lidera os casos de depressão e ansiedade, sendo o país com mais casos de ansiedade (63%) e depressão (59%).

As restrições durante a pandemia e o isolamento social, que tanto ajudam a conter o avanço da Covid-19, podem prejudicar a saúde mental. Entre os países, em segundo lugar está a Irlanda com 61% das pessoas com ansiedade e 57% com depressão, e os Estados Unidos, com 60% e 55%, respectivamente. 

“Nós concluímos que a pandemia de Covid-19 tem se mostrado um evento traumático para muitas pessoas, levando aumento exponencial de sentimento de medo e estresse”, disse Ricardo Uvinha professor da USP, em entrevista à CNN.

Ele ainda afirmou, que, a pesquisa reforça que os brasileiros têm sofrido drasticamente com o período de quarentena, em especial pela privação de atividades fora do ambiente doméstico. Além disso, pessoas com algum histórico de desordem mental e aqueles que ficaram desempregados foram os que mais relataram os sintomas de ansiedade e depressão diante do confinamento.

“Existem pontos importantes que devemos levar em conta em relação ao Brasil: as questões culturais e socioeconômicas – principalmente no que se refere a um país de grandes desigualdades sociais (a desigualdade social é considerada um fator de risco no desenvolver de transtorno mentais) - a questão política – onde lidamos com um cenário totalmente instável”, afirmou a psicóloga Letícia Reis da PUC Minas.

O estudo da Universidade Flinders, publicado na revista científica PLOS ONE, mostrou que as angustias causadas pelo contexto da pandemia, - isolamento social, bombardeamento de informações e números de mortes por dia – tem levado pessoas a sofrerem sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).Estresse pós-traumático


As pesquisadoras entrevistaram, de forma online, 1040 participantes de cinco países, e descobriram que 13,2% deles apresentavam sintomas relacionados ao estresse pós-traumático, em níveis suficientes para qualificar um diagnóstico clínico. O TEPT é um distúrbio comum em indivíduos que foram expostos a episódios violentos e de risco à vida, como em guerras. Ele desencadeia lembranças frequentes do evento, por meio de pesadelos e flashbacks. A pessoa com estresse pós-traumático também demonstra ansiedade intensa e reações exageradas a estímulos.

À primeira vista, o transtorno não inclui uma pandemia, mas os novos estudos indicam que as preocupações com o futuro e a exposição indireta a situações traumáticas podem levar aos sintomas de TEPT. Na pesquisa, os participantes relataram os acontecimentos relacionados à pandemia ao qual foram expostos diretamente e os eventos que imaginavam que poderiam acontecer no futuro. Eles também falaram sobre a relação com a mídia durante esse período e responderam um questionário de diagnóstico para estresse pós-traumático.

“Com o advento inesperado de uma pandemia, nasce uma necessidade maior do aumento com a saúde mental - e muitas pessoas não são saudáveis do ponto de vista psicológico e inseridos em um ambiente de isolamento, de incertezas e medo, a tendência são os casos agravarem e não somente surgirem", explicou Letícia.

As pesquisadoras concluíram que os sintomas de estresse traumático eram relacionados a eventos que ainda não se concretizaram, como a preocupação de que o indivíduo ou algum familiar contraísse o vírus, e o anseio pela normalidade. O contato indireto com o vírus, como a cobertura de notícias e o lockdown — contextos que não colocam a vida em risco — também era um fator de grande impacto.
 
Covid-insônia




A pandemia do coronavírus teve um efeito profundo no sono das pessoas, fazendo com que especialistas criassem um termo em inglês: coronasomnia, que em português significa: "corona-insônia" ou "covid-insônia". Este é um fenômeno que tem atingindo pessoas no mundo todo: insônia associada ao aumento do estresse por causa da pandemia de Covid-19.

Segundo dados do estudo da Universidade de Southampton, em agosto de-ins 2020, no Reino Unido, o número de pessoas com insônia aumentou de uma em seis para uma em quatro, com mais problemas em alguns grupos, incluindo mães e trabalhadores essenciais. A insuficiência de sono — que muitas autoridades de saúde classificam como menos de sete horas por noite — também afeta o trabalho e podem levar a impactos na saúde no longo prazo, incluindo obesidade, ansiedade, depressão, doenças cardiovasculares e diabetes.

Diversos fatores foram responsáveis por essa queda na qualidade do sono. Normalmente, as pessoas seguem uma rotina de horários para acordar, se locomover de um lugar para o outro, realizar intervalos no trabalho e dormir. Somado a isso, está o fato de que as pessoas estão sentindo falta de seus hobbies e seus amigos, que são essenciais para relaxar e desestressar. Muitos enfrentam problemas de saúde mental que podem contribuir para problemas de sono ou o contrário. A sensação geral de incerteza e falta de controle também pode contribuir para problemas de sono, e principalmente, o longo tempo e imprevisibilidade da duração da pandemia. 

A psicóloga enfatizou que ao longo do seu contato clínico nos atendimentos online, ouviu muitos relatos de sintomas que se dialogavam entre si, como: procrastinação, baixa energia, sintomas depressivos, hiperatividade, insônia, sentimentos de solidão, angústia, medo, dificuldade nos relacionamentos e compulsões.


“O isolamento leva a uma reflexão, por que muitas pessoas não tem contato com seu “eu” interno, as pessoas não estão acostumadas a tirar um tempo para elas. O mundo favoreceu essa falta – tudo muito imediatista e tecnológico – , então veio a pandemia e tivemos que silenciar, pausar, estar em contato maior com nossos pensamentos e isso tem gerado angústia. O que mostra a necessidade das pessoas em terem um cuidado contínuo com sua saúde mental”, completou.


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