06/04/2021 às 16h22min - Atualizada em 06/04/2021 às 16h22min

Rotina

"Vejo ao longe o trem chegando, respiro fundo e me preparo para o que está por vir. Essa é a pior parte"

Ana Paula Alves - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Reprodução/Flickr

Em frente à porta, eu confiro se estou levando tudo comigo. Mochila. Chave. Carteira. Guarda-chuva. Fones de ouvido. Máscara. Álcool em gel. Tudo certo para sair, então coloco a máscara e os fones para caminhar até a estação. 

O caminho a pé é fácil. Ao ar livre, mantenho uma distância segura de outras pessoas que passam pela rua. Mesmo que muitas não usem máscara, posso simplesmente me afastar ao máximo delas.

O problema começa quando eu passo pela catraca. Tomo o cuidado de empurrá-la usando apenas minha cintura, não com as mãos como fazia antigamente, e começo a procurar pelos cantos vazios da plataforma. Preciso andar até quase seu fim, mas acabo encontrando um lugar em que posso esperar o trem, longe o bastante da aglomeração que aguarda no meio da plataforma. Um esforço necessário, pois mesmo de longe eu podia ver que algumas pessoas ali estavam com as suas máscaras no queixo ou com o nariz de fora. E apesar de ter evitado tocar na catraca, pego minha pequena embalagem de álcool em gel e aplico em minhas mãos.

Vejo ao longe o trem chegando, respiro fundo e me preparo para o que está por vir. Essa é a pior parte.

O último vagão para e as portas se abrem, me convidando a me espremer junto a um número incontável de pessoas. Sem escolha, eu entro, esbarro em muitos braços e troncos, até encontrar um lugar em que posso colocar minha mochila no chão e segurar na barra de metal. Gostaria de procurar por um espaço vazio, assim como fiz antes, mas esse tipo de coisa não existe aqui dentro. Enquanto vejo as portas se fecharem, só posso torcer para que as pessoas ao meu redor estejam todas usando máscaras e que ninguém esteja contaminado.

Eu olho para o painel que mostra as estações e conto quantas faltam para chegar ao meu destino. São muitas. Já tenho uma ideia do quanto vou demorar para chegar e isso não me agrada, pois gostaria de passar o menor tempo possível no meio de toda essa gente. 

O que eu vejo em seguida não ajuda na minha ansiedade. Um homem se espreme no espaço ao meu lado, para se segurar também, ele está com a máscara no queixo, comendo uma barrinha de cereal. Fico encarando por mais tempo do que seria educado, pensando se o meu olhar de desgosto é o suficiente para ele se dar conta do que está fazendo, mas ele aparentemente não se importa com mais nada além de sua barrinha ultraprocessada.

Claramente ele não se importa com as pessoas ao seu redor ou com as famílias delas, matar sua fome, neste exato momento, é a prioridade, não a vida dos outros. Faço de tudo para não me contaminar e, consequentemente, não contaminar minha família, mas esse homem não se importa com isso, apenas continua comendo, enquanto pode ou não estar espalhando o vírus. Novamente, tudo o que posso fazer é torcer para que ele não esteja contaminado. 

Torcer é tudo que eu tenho feito, é exaustivo. As coisas só têm piorado, mas parece que as pessoas se esquecem desse fato, se acostumaram em ver o número de vítimas crescendo, não se afetam mais. Às vezes, penso nos primeiros meses de caos, com as pessoas desesperadas, havia mais cuidado, menos pessoas que deixaram de se importar. Mas com o passar dos meses, do ano, isso mudou. Não é a primeira e nem a última vez que me vejo em uma situação assim, em que mesmo com meus esforços para me proteger, para proteger minha família, me vejo totalmente vulnerável por conta da irresponsabilidade de terceiros.

É por causa dessas pessoas que eu tive medo de comemorar o natal com a família inteira. É por situações como essa, com um homem comendo ao meu lado, que senti pânico só de pensar na possibilidade de me encontrar com parentes mais velhos. Muitos questionaram: você fica em uma aglomeração todo dia no trem, por que não pode vir passar um tempo com a gente? Mas é exatamente por viver nesse lugar abarrotado de pessoas, que não posso ver quem amo. Não quero correr o risco de, na próxima vez que ver essas pessoas, elas estarem entubadas em algum leito de hospital, não posso conviver com essa culpa. É isso que continua alimentando minha saudade.

No meio de tantos pensamentos e preocupações, levanto a mão para aliviar a coceira que senti no olho, mas paro abruptamente no meio do caminho, percebendo o que estava prestes a fazer, e abaixo a mão novamente, decidido a prestar atenção e ter mais cuidado.

Por isso, pego minha embalagem de álcool e espalho na minha mão novamente, só para garantir.
 


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