08/03/2021 às 17h33min - Atualizada em 08/03/2021 às 16h47min

O Bem-Amado: a história que é a "cara" do Brasil

Sucesso da década de 70 chega na Globoplay e retrata um Brasil atemporal

davidcardoso2015.dc@gmail.com - Revisado por Mário Cypriano
Odorico Paraguaçu - Foto: Divulgação/Globo
Quase 50 anos após a exibição original de Bem-Amado, a primeira telenovela em cores estreou na Globoplay. Mais atual do que nunca, a história, que também foi a primeira a ser exportada para outros países, apresenta situações semelhantes às vivenciadas pelos brasileiros nos dias de hoje. Escrita pelo saudoso Dias Gomes, teve como argumento uma peça original do mesmo autor, "Odorico, o Bem-Amado" ou "Os Mistérios do Amor e da Morte", de 1962.

A trama apresenta a história de um prefeito corrupto e demagogo, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), que realiza a campanha eleitoral embasado no slogan “Vote em um homem sério e ganhe um cemitério”. Ele vence as eleições municipais, mas o tempo passa e ninguém morre na cidade, tornando impossível a inauguração da obra que o governante utilizou como símbolo durante o pleito eleitoral.

Eis que surge na cidade o pistoleiro, Zeca Diabo (Lima Duarte). Sua chegada desperta uma esperança para o político, que acredita ser possível finalmente ocorrer a morte tão desejada de um cidadão. O que Odorico não imaginava é que o homem voltou a cidade para limpar a sua imagem do passado. Junto com o trio de irmãs solteironas conhecidas como ‘Cajazeiras’, o político enfrenta várias peripécias para mostrar que é um homem “honesto”.

Na telenovela, Dias Gomes conseguiu ironizar o período ditatorial da época, vivenciado pelos brasileiros. E mesmo com as críticas disfarçadas, o desenvolvimento da história, e principalmente, da figura principal era visto com inquietação por parte dos censores. Por esse motivo, a história teve 37 capítulos cortados e palavras como “Coronel” e “Capitão” foram proibidas de serem citadas na trama, pois as personagens em questão possuíam um caráter duvidoso.

Já se passaram quase 50 anos desde a estreia original e a história apresenta uma realidade bem semelhante a atual situação do país, onde a própria campanha de divulgação já informa que qualquer semelhança é mera coincidência.

CHAMADA O BEM-AMADO / GLOBOPLAY:

“Acredito que a trama ainda vai se manter bastante atual, pois, os políticos eles não mudaram e continuam demagogos. A mesma coisa sempre e para sempre”, relata a estudante de Geografia, Viviane Falcão, que acompanhou a novela na década de 70 e recorda com nostalgia a maneira como a história conseguia ser perspicaz em satirizar o regime militar e os governos ditatoriais.
 

“Isto deve ser obra da esquerda comunista, marronzista e badernenta”. Odorico Paraguaçu


O baiano Dias Gomes estreou como autor de telenovelas em 1969 com "A Ponte dos Suspiros", e se consolidou como um dos maiores romancistas do país, justamente pela linguagem em suas tramas, que remetiam às questões do cotidiano e do social, além do realismo mágico que firmou em "Roque Santeiro" e "Saramandaia".

AO REDOR DO MUNDO

O Bem-Amado ganhou uma série que continuava a história da telenovela 7 anos após o final “feliz” de Odorico, mantendo o elenco principal original, além do mesmo sucesso e impacto social causados pela trama anterior. As situações criadas para o desenrolar da história baseavam-se em fatos reais, especialmente em matérias de jornal, o que se tornou um recurso eficaz para cativar o público.

Em 1996, um remake de bastante sucesso no Chile foi produzido pelo Canal Televisión Nacional de Chile, que conseguiu adaptar o enredo original à atualidade chilena. Uma curiosidade sobre a versão é que a canção de abertura intitulada ‘Te Quiero Enamorar’ é interpretada pelo grupo musical afro-brasileiro Timbalada, fundado por Carlinhos Brown.

No ano de 2010, a história foi adaptada para um filme brasileiro dirigido por Guel Arraes, sendo protagonizado por Marco Nanini como o personagem homônimo, José Wilker como Zé Diabo e Maria Flor, Drica Moraes e Andréa Beltrão como as irmãs Cajazeiras. Em 2017, ganha uma nova adaptação, produzida por Nicandro Díaz González para a Televisa no México, onde o prefeito Odorico desta vez é defendido pelo ator Jesús Ochoa, referência no país em personagens cômicos. 

 

EXIBIÇÃO

Seja nas críticas políticas, na comédia requintada com um humor ácido, na fé, no romance ou nos diálogos que continuam atuais, O Bem-Amado consegue demonstrar uma história de força e de grande impacto social, fatores que favoreceram a escolha da revista Veja no ano de 2016 como a quinta "Melhor Telenovela Brasileira" de todos os tempos.

A trama inesquecível chega com força ao streaming mostrando semelhanças entre o Brasil de 1973 e o atual. Seu retorno faz parte do projeto em que a Globoplay promete resgatar duas tramas antigas de sucesso a cada duas semanas.


Um dos momentos mais curiosos da trama aborda uma epidemia de tifo, onde o “querido” prefeito passa a fazer vista grossa com o agravamento da saúde, tentando impedir por diversas maneiras a vacinação no local, imaginando poder assim inaugurar o cemitério. 

 


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