10/04/2021 às 17h45min - Atualizada em 10/04/2021 às 17h18min

Dia do Jornalista - Ataques a jornalistas têm aumentado e Sindicato de Minas Gerais sofre ataque na semana anterior a data que celebra a profissão

Nos últimos anos profissionais da comunicação têm sofrido com diversos ataques, inclusive do próprio presidente da República, segundo Fenaj

Dara Russo - Editado por Maria Paula Ramos
Fenaj / Reprodução

Em 7 de abril é comemorado o Dia do Jornalista, mas neste ano, a data foi marcada por um tom de denúncia e indignação. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) produz, anualmente, um relatório sobre violência contra jornalistas. Os dados, divulgados em janeiro, apontam um crescimento de 105,7% da violência contra profissionais do jornalismo no último ano em relação a 2019. As duas regiões brasileiras mais afetadas são a Centro-Oeste (134 casos) e a Sudeste (78 casos).
Segundo Alessandra Mello, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), foram recebidas três denúncias só no mês de março. “Não tem um mês que, aqui no sindicato dos jornalistas, a gente não receba pelo menos uma denúncia de violência”, afirma. Ela ainda ressalta que, além dos números expressivos, o que chama atenção no relatório da Fenaj é o fato de que a violência tem deixado de ser uma violência apenas virtual, pelas redes sociais, e tem passado para as vias de fato. “Os jornalistas estão sendo agredidos fisicamente na rua durante a cobertura, isso é muito assustador”, lamenta.

Ataque de hackers ao SJPMG

No dia 23 de março, uma assembleia virtual que reunia trabalhadores e representantes dos sindicatos dos Jornalistas, dos Gráficos e dos Trabalhadores da Administração em Jornais e Revistas de Minas Gerais, para a campanha salarial das categorias sofreu um ataque por parte de hackers. "Eles invadiram a nossa assembleia com ameaças contra jornalistas, contra comunistas, queimaram a bandeira LGBT, colocaram um áudio contra as mulheres, que só de lembrar fico arrepiada de tão agressivo e misógino”, relembra Alessandra.
Um dia após o ocorrido, a presidente do sindicato pediu uma investigação no setor de crimes digitais do Ministério Público de Minas Gerais, mas ainda não obteve resposta.“Na verdade, eu até já comecei a investigar quem é essa milícia digital e descobri bastante coisa”, conta Alessandra. “Descobri que ela atua muito contra jornalistas, ela assina as invasões e atua sempre contra uma população específica: jornalistas, gays, e mulheres”, completa. Essa não foi a primeira vez que o grupo ataca profissionais da notícia. No início do mês de março uma assembleia de radialistas da Rede Globo foi atacada e, na semana do dia 29 do mesmo mês, uma assembleia de jornalistas do Distrito Federal também foi invadida por hackers e não pode ser levada adiante.
Além da denúncia, foi divulgada pelo SJPMG uma nota de repúdio assinada por diversas entidades e movimentos sociais. No documento os signatários “repudiam os sucessivos ataques a jornalistas e todos os trabalhadores da notícia, ao direito à informação, à liberdade de expressão e ao direito de organização sindical”. Enquanto aguardam ações dos órgãos de justiça, Alessandra conta que a solução encontrada pelo sindicato foi realizar cadastramentos prévios para a realização de novas assembleias. “Já é difícil conseguir a adesão dos jornalistas nas assembleias,  com isso, ficou mais difícil”, explica.

O Estado como agressor

O relatório da Fenaj também aponta outro dado importante: muitos dos ataques verbais do estímulo à violência partem do próprio presidente da República. De acordo com outro levantamento, desta vez da ONG Repórteres sem Fronteiras, em 2020 foram registrados 580 ataques feitos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra jornalistas. Com isso, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) entrou, no último dia 7, Dia do Jornalista, com uma ação civil pública contra Bolsonaro, com um pedido coletivo de danos morais. O argumento defendido é de que o presidente é hoje o maior estimulador da violência contra os jornalistas no Brasil. 
No mesmo dia, representantes de oito organizações ligadas às liberdades de imprensa e de expressão e de defesa dos jornalistas participaram de uma reunião virtual com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). No encontro foi entregue uma carta aberta, na qual as entidades pedem o compromisso dos líderes do Congresso Nacional com a liberdade de imprensa e a segurança de jornalistas e profissionais da comunicação no país.

Atentado contra a democracia

Em seu relatório sobre o ano de 2020, a Anistia Internacional também manifestou preocupação com a violência que comunicadores e defensores dos direitos humanos têm sofrido no Brasil. “O jornalista é um defensor dos direitos humanos, é um defensor das minorias, que combate a injustiça. É função nossa, é um papel nosso, está lá no nosso código de ética”, afirma Alessandra. Segundo ela, o que vem acontecendo no Brasil é uma ação orquestrada para poder impedir o exercício da profissão de jornalista.

A violência contra jornalistas não afeta somente a categoria profissional, mas também representa uma ameaça ao interesse público ao dificultar o exercício da profissão. Para Alessandra, trata-se de um “atentado contra a liberdade de expressão, o direito do cidadão de ser informado, que está garantido na constituição federal, e um atentado à democracia”. Durante uma pandemia, em que o combate à desinformação torna-se ainda mais imprescindível, a presidente o SJPMG afirma: “chega a ser surreal que a gente esteja vivendo isso (...) nessa pandemia, que está matando milhares de pessoas no Brasil, a gente ter também que enfrentar isso”.

 

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