17/04/2021 às 22h12min - Atualizada em 17/04/2021 às 21h38min

Um submundo sem justiça?

Mundos tão distintos e tão próximos ao mesmo tempo...

Jennifer Valverde - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Lucas Marim | Reprodução: Unsplash.com
Sofia se debruça sobre a janela. Ela sente o vento bater em seus cabelos acastanhados, fazendo com que os fios venham à frente e assim bailem freneticamente. A jovem respira de forma abrupta e com os olhos fechados consegue ver tudo: o céu azul com poucas nuvens, o cheiro das árvores esteticamente podadas, o perfume do croissant da padaria ao lado e a calmaria de uma rua sem movimentos. 
 
Mas Sofia começa a se sufocar. Em um instante, sente como se todo o seu ar estivesse sendo arrancado; sua cabeça pesa e seu peito se fecha, apertando-se como se uma mão interna amassasse seu coração.

— Sofia? — a voz é conhecida, mansa, e tem som de infância, dos dias ensolarados e alegres. A voz tinha nome e tom: Marta. 
 
— Oi, Martinha, daqui a pouco desço! — a jovem fala tentando disfarçar a angústia da ansiedade.
 
— Minha pequena, sua mãe não vai gostar nada disso, viu?! — Marta diz preocupada e logo em seguida se escora na parede, abafando uma tosse seca que havia tomado conta de si. 
 
Sofia olha em seus olhos, perplexa. Sentia o medo se esvaindo de Martinha… afinal não fazia nem um mês que ela havia perdido "seu veio", como ela costumava chamar seu marido, Zé Pedro, que era doceiro, para a covid-19. Mas a vida continua, né? O pão de cada dia deve ser conquistado, nem que isso arranque até o sabor da boca.

Martinha sempre foi sua "guia", a mulher que a criou enquanto seus pais, juristas ocupados, trabalhavam e viajavam ao redor do mundo. Martinha penteava seu cabelo e às vezes passava até o fim de semana em sua casa, para que ela não se sentisse sozinha; sua única filha, em consequência, não podia sentir o abraço de sua mãe e nem ouvir seu boa noite por dias. Mas às vezes Sofia e Eloá brincavam juntas, tinham a mesma idade e eram amigas, mesmo que a contragosto de Gisele, mãe de Sofia, que achava a menina "favelada demais, sem modos e sem perspectiva de futuro". 
 
O tempo foi passando e Eloá virou lembrança. A garota, enquanto voltava do seu trabalho noturno em uma lanchonete, foi abordada por um criminoso que se equivocou e atirou. Eloá, que sonhava em ser advogada “igual a dona Gisele”, como costumava falar, viu seus sonhos evaporarem assim como a sua própria vida. Sofia acredita que naquele dia Martinha morreu um pouquinho. Os poucos dias de licença do trabalho doméstico não foram suficientes para acalentar um coração de uma mãe órfã de filha. Para dona Gisele, foi “uma fatalidade já prescrita pelo destino”, e ela, mesmo vendo o sofrimento de sua filha, acentua que já a havia  avisado e que “ainda bem que eu não deixava você muito perto desse povo da periferia nesse submundo, sem justiça”. 
 
Mas para Sofia isso era um disparate, sem nexo algum, já que sua amiga era tão dedicada e inteligente quanto ela, mesmo sem as viagens para o exterior ou a escola renomada, e até a calmaria de uma vizinhança tranquila e prudente. A garota tinha a certeza de que um dia daria a sua mãe uma vida calma, com uma casinha pequena talvez, mas própria. E todo um sonho se foi. Hoje, Martinha só tem a família Medeiros como base, até morando no quarto dos fundos ela está, Gisele acredita que “é bom para ela, ficar por aqui mesmo. Ficar sozinha em uma casa alugada não vai dar em nada… Marta é da família".
 
— Martinha, você está bem? — a garota pergunta com a voz trêmula, esperando uma resposta, que não vem. 
 
Afinal, o que faria? Marta nem tem plano de saúde e os hospitais públicos de São Paulo estão sufocados, sem leitos, sem remédios, sem esperanças. Sofia e sua família por pura influência já haviam recebido a vacina, mesmo que a contragosto da jovem que achava ridículo se vacinar, enquanto pessoas mais necessitadas esperavam aos montes, entre "a cruz e a espada" do dia a dia. 
 
— Irei ficar bem, querida… — a mulher fala com a voz densa, o medo de morrer de fome se equiparava com o medo da covid. 
 
Afinal, se Dona Gisele soubesse que ela estava com tosse, a demitiria. Não iria colocar sua família em risco por uma simples empregada. E o que ela poderia fazer? A maioria de suas amigas estavam desempregadas e em condições decadentes, já que a pandemia havia agravado a falta de emprego e a própria economia do país. Então, de qualquer forma, Marta estava em um beco sem saída. Que se agravava a cada dia. Começou com uma tosse, que agora se alongou e se transformou em uma falta de ar. Não tinha o que fazer além de pedir dispensa e ir ao posto de saúde, tentar a sorte em uma longa fila, quase que interminável de pessoas doentes. 
 
Sofia viu a sua mãe de coração se afastar vagarosamente. 
 
Um tempo se passou desde que Marta fez o teste rápido no hospital. Seu coração acelerava, a boca ficava cada vez mais seca, os olhos coçavam em sintonia e suas mãos suavam. Até que um pedaço de papel decidiu o seu destino. Martinha se viu comprometida com a realidade.

Ao telefone Sofia conversa com Martinha, e um calor no peito emerge dentro dela, trazendo a crise de ansiedade novamente. Enfim, uma pergunta paira em sua mente:
 
“O que seria dela daqui para frente?”
 

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