18/04/2021 às 02h53min - Atualizada em 18/04/2021 às 02h50min

Vidas indígenas importam

"O vírus é só mais uma luta que a gente vai ter que superar [...] mas a nossa vida é assim, ela se dá por lutas"

Brenda Freire - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Raphael Alves, Amazônia Real
1563 e 2020. Epidemia da Varíola e Pandemia da Covid-19. Duas épocas com estruturas sociais, econômicas e culturais distintas, com marcos históricos evidentes na vida dos povos indígenas. Tragédias que, apesar das proporções não serem as mesmas em números, igualam-se no desequilíbrio que causaram e causam para a população dos índios brasileiros.

Se antes era 'possível' dirimir tentativas de reação aos abusos, escravização e roubos de território por parte dos europeus no Brasil, ficou mais difícil de persistir quando pôde-se compreender que nem todos os problemas trazidos por eles eram visíveis, ou pelo menos não ainda. É daí que surgem as doenças como a Varíola, a qual tem alto poder de contágio e que em pouco tempo envolve todo o corpo com manchas.

Consequentemente, as epidemias são geradas e dizimam milhões de pessoas. Henry Dobyns chamaria isso de Cataclismo Biológico, ou melhor dizendo: epidemias causadas por europeus aos ameríndios, os quais carregavam consigo sua etnia, cultura e ancestralidade, mas tiveram suas vidas ceifadas por conflitos de interesses.

Perdemos muitos. Hoje, exatamente agora, estamos perdendo mais com a Covid-19. Esta que os alcançou também de forma brusca e acelerada. Mais uma vez, levada por uma versão atualizada dos colonizadores: garimpeiros, madeireiros, fazendeiros, posseiros etc., responsáveis pela invasão ilegal em demarcações indígenas.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Sônia Guajajara, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) relata que “é um período que exige de nós estar com esse olho na pandemia, para evitar ainda maior contaminação – a entrada nos territórios indígenas representa um novo genocídio de nossos povos – e temos que ficar com o outro olho nas outras situações que nunca tiveram respostas, que o Estado brasileiro nunca se comprometeu a atender, que são as invasões, os ataques, os assassinatos”, diz.

Essa problemática é maior do que se imagina, porque o desequilíbrio causado por invasores não é apenas sanitário, mas também ecológico e cultural. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa e Estática (Inpe), 29,3% das terras indígenas foram desmatadas em um mês de 2020, durante a pandemia. Para além disso, devemos pensar em como os afetados administram uma situação cíclica, já que um problema gera outros agravantes.

Quando acontecem epidemias, ocorrem também surtos de fome, pois os indígenas ficam doentes e não têm como conseguir alimento. Em contrapartida, o colapso não acontece apenas nas aldeias, mas nas grandes cidades também. No Amazonas, como houve colapso da saúde pública, o ideal foi permanecer com os indígenas contaminados nas aldeias, em isolamento, do que levá-los para as unidades, já que, nesse caso, há os riscos de agravamento da doença e da não identificação da pessoa e tribo para contabilizar os casos.

Apesar da existência de um subsistema de saúde indígena referente a Secretária Especial de Saúde Indígena (Sesai), os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei), não suprem necessidades graves. Supondo-se que os cuidados básicos com um indígena amazonense já não seja mais suficiente e ele precise ser encaminhado para um hospital, não haverá leitos, nem material, muito menos alternativa. Mais uma vida seria ceifada, mais um para uma estatística que talvez não seria relatada da forma correta, ou que nem existiria.

Ainda assim, de acordo com a Apib, Sesai e Secretaria de Saúde, cerca de 52.494 são os casos confirmados de contaminação por coronavírus. Além disso, é preciso levar em consideração a grande perda sociocultural evidenciada pelas mortes desses povos. O antropólogo- indigenista da Universidade Federal do Amazonas, Lino João, afirma com um exemplo que, em uma comunidade indígena formada por 200 pessoas, se morrerem 80, haverá uma desestruturação da sociedade. Diferentemente de uma cidade com milhões de habitantes, onde cerca de 1.000 pessoas falecerem, não haverá essa mesma queda social.

De fato, as populações indígenas são alvos de ataques constantes e esse desequilíbrio nos alicerces dos povos são extremamente prejudiciais. Com a Covid-19, batalhas estão sendo travadas com mais intensidade, pois desta vez o grupo de risco é fundamental para a 'pirâmide' deles: pajés e caciques são os idosos que estão sendo vítimas da pandemia. Sem eles, a essência de seus povos é comprometida.

A realidade é que esta crise sanitária tem comprometido até mesmo os rituais de despedida e estreitado a realização de ações típicas da tribo para o enterro dos seus. A exemplo disso, temos o povo Yanomami que realiza o processo por meio da cremação de ossos e ingestão das cinzas e são contra o sepultamento na cidade. A questão veio à tona por conta do óbito de um jovem Yanomami, que faleceu após ter sido internado no Hospital Geral de Roraima (HGR) e foi sepultado de modo comum nas grandes cidades.

De acordo com a Amazônia Real, como o vírus é transmitido também pelos fluídos, os órgãos de saúde estudam a possibilidade de permitir que possa ser realizado o procedimento, ainda assim, há um bloqueio de acesso dos índios que refutam o descumprimento da Constituição Federal, que determina o respeito às manifestações culturais e espirituais. Mas como diz a técnica de enfermagem e indígena Vanda Ortega Witoto: "O vírus é só mais uma luta que a gente vai ter que superar [...] mas a nossa vida é assim, ela se dá por lutas."

Dê sentido e valor ao 19 de abril, o Dia do Índio. Por isso, vamos ajudar nessa batalha, doando para campanhas e instituições como a “Respira Xingu”.
 

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