22/04/2021 às 18h08min - Atualizada em 22/04/2021 às 17h59min

O mar de sentimentos de Charles Baudelaire

O lado "B" do poeta francês Charles-Pierre Baudelaire e como a sua escrita reflete a luta interior consigo mesmo

Sheyla Ferraz - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Google
Quem foi o poeta Charles Baudelaire e o que havia no avesso dos seus sentimentos? Como se construiu sua estrutura como pessoa e de que maneira isso refletiu na sua vida como poeta? São questionamentos que despertam curiosidade ao conhecermos sua biografia.

Nasceu em Paris, no dia 9 de abril de 1821. Aos seis anos de idade, ficou órfão de pai e teve conflitos com o novo padrasto. Na escola, a princípio, Charles tinha o comportamento introvertido, segundo registros dessa época. É possível imaginar ele como um menino introspectivo, de olhar vago e sempre sozinho na hora do recreio. Ele era dedicado, e até cultivou uma amizade com o tempo, mas infelizmente os dois se desentenderam.  

Até que, por razões de exaustão da própria vida, em 1833, o grito silencioso de Charles eclodiu e, portanto, ele passa de aluno solitário e quieto para o aluno rebelde, sendo assim expulso da escola militar.

Em 1841, o poeta estava no auge de uma vida boêmia e os pais, na tentativa de frear o descontrole do filho, o enviam para a Índia, mas ele não segue viagem e retorna para Paris com o comportamento rebelde, sem o menor interesse em se comprometer com a submissão e uma vida mais tranquila. Andar nos trilhos definitivamente não estava nos planos de Baudelaire.

Quando se tornou maior de idade, usou da herança do pai e se afogou ainda mais no universo que ele mesmo havia escolhido: noitadas, bebedeiras e drogas! Conheceu Jeanne Duval, uma jovem atriz mulata, que se tornou sua companheira de aventuras e com quem o poeta manteve um romance por alguns anos. O tempo ia passando e a rede de amigos de Charles foi crescendo. No seu caminho, cruzaram-se muitos artistas, entre eles: Theóphile Gautier e Apolonie Sabatier, além de Fernand Boissard, entre tantos outros.


A relação com sua mãe e padrasto ficou estremecida e os conflitos começaram a surgir, pois Charles tinha um consumo financeiro exacerbado, gastava muito! Então, em 1844, sua mãe acionou o advogado Narcisse Désiré Ancelle, que ficou responsável em administrar a quantia restante da fortuna do pai do poeta. Isso gerou indignação em Baudelaire que, cada vez mais, afastava-se do convívio familiar.

Esmerou sua vida dedicando-se à literatura e nisso obteve êxito. Sua carreira foi se expandindo... Em seu currículo há a tradução do livro "Histórias extraordinárias", de Edgar Allan Poe – a quem muito admirava. Em 1857, faz a publicação do seu livro mais conhecido, intitulado "As flores do mal".  A obra foi censurada por ser considerada imoral e Baudelaire foi processado.

Embora tenha sofrido muitos bombardeios críticos, o livro teve repercussão positiva e o mal veio para o bem. Críticos como Gustave Flaubert e Victor Hugo, escritores de renome da época, elogiaram a obra.

Em 1861, ele escreve uma linda carta para sua mãe e a relação de ambos começa a tomar um rumo diferente com a esperança de restauração dos laços afetivos. Após tanta guerra para publicar suas obras, Baudelaire decide se mudar para Bélgica, mas chegando lá, logo se decepciona e isso fica claro nos escritos que fez ao país.

Sua saúde começou a se arruinar muito no ano de 1865. Seu padrasto já havia falecido. Sua mãe o acompanhou nesta fase crítica de sua vida e, aos 46 anos, em 31 de agosto de 1867, em Paris, o poeta faleceu nos braços da mãe.

Toda a sua vivência pessoal, agruras e o universo de sentimentos que ele carregava dentro de si eram expressos em poemas... Reflexo de uma estrutura familiar, só não se sabe se frágil demais ou se, na verdade, Baudelaire era apenas dramático, sem razões para tanto. Seus relacionamentos amorosos foram intensos, porém, não duradouros.


 Ele conflitava com o divino e o maligno. Ele tinha uma forma muito profunda e totalmente fora dos padrões todas as vezes em que aliava a poesia à suas dores e guerra interior. Foi uma vida cheia de altos e baixos, e pode-se pensar até que mais baixos do que altos. De alguns labirintos o poeta não saia, mas sua válvula de escape era a arte.

Sua vida boemia era uma fuga da sua própria realidade, e é interessante ver que, no meio de uma vida turbulenta, o poeta conseguiu fazer história e ser reconhecido pelo seu talento de transformar um imenso vazio e excessos em riqueza literária, tornando-se precursor do simbolismo e fundador da poesia moderna. Neste ano, celebram-se os 200 anos do poeta francês.
 
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