24/04/2021 às 20h47min - Atualizada em 24/04/2021 às 20h40min

As acusações não reveladas de crimes sexuais de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia

Em meio ao mês de conscientização contra o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, o caso de Klein trás a tona um importante debate sobre abuso

Rute Moraes - Editor: Ronerson Pinheiro
Esta matéria foi escrita com base na publicação de El País.
Foto: Samuel Klein - Fundador das Casas Bahia. Reprodução: Carta Capital/Divulgação

 
A Agência Pública, trouxe à tona em uma reportagem mais de 35 pessoas com relatos de crimes sexuais praticados por Samuel Klein, nome por trás da marca Casas Bahia. Foram consultados processos judiciais e inquéritos policiais, além de outros documentos, como fotos, áudios e vídeos de festas que embasam que o dono da rede de lojas teria mantido uma vida inteira de exploração sexual de meninas entre 9 e 17 anos. Os abusos teriam acontecido na sede das Casas Bahia e em propriedades de Klein na Baixada Santista e em Angra dos Reis.
 
Dentre as revelações que são abertas ao público sete anos após a sua morte, está até mesmo o recrutamento e transporte de meninas em helicópteros particulares, além de festas com orgias remuneradas pela venda de produtos domésticos do conglomerado que arrecada anualmente uma média de R$30 bilhões.
 
Quem são as vítimas?
 
Entre os relatos chocantes, está o de Renata*, ela contou que foi estuprada pelo empresário aos 16 anos. Ela revela que em outubro de 2008 foi à casa de praia de Klein, em Angra dos Reis. “Ele me pegou com força, rasgou minha roupa e me violentou. Não adiantava gritar”, falou em depoimento. À polícia, Klein confirmou que Renata e uma colega estavam na casa dela, mas que não eram menores de idade.
 
Nos apartamentos em São Paulo, o empresário realizava diversas festas, onde mulheres e meninas que sofriam os abusos em sua loja eram selecionadas para participar. As adolescentes eram aliciadas e quase sempre eram oriundas de bairros de baixa renda ou outros estados. Funcionários das lojas confirmaram pagamentos em dinheiro ou produtos para as “samuquetes”, como eram apelidadas. “As meninas tinham direito de escolher o que elas queriam na loja.”, afirmou uma ex-gerente das Casas Bahia.
 
A secretária pessoal de Klein, Lúcia Amélia Inácio, era quem organizava o esquema. Ela convidava as meninas escolhidas por Samuel para viagens, realizava pagamentos, doações de cestas básicas e até participava de festas promovidas pelo empresário. Além dela, Káthia Lemos também foi citada como uma aliciadora para o empresário. À Pública, ela negou o agenciamento de mulheres e meninas. Afirmou conhecer mais de 100 mulheres, de vários estados brasileiros, que frequentavam os encontros, mas negou que alguma delas fossem menores de idade. Nas entrevistas fica claro que Samuel se aproveitava da vulnerabilidade de famílias empobrecidas e trocava abusos por recompensas.
 
E a justiça?
 
Segundo o advogado criminalista Lincoln Rocha, os processos não avançaram na Justiça, porque rapidamente os advogados do empresário extinguiam acordos. “Os diversos processos só ocorreram quando o empresário já tinha mais de 70 anos e o prazo prescricional de 20 anos começava a correr a partir da maioridade da vítima. Na cabeça da vítima, ela ainda fica pensando que pode ser culpada. Ela leva um tempo achando que a agressão, e que o que ela passou é culpa dela.”, argumentou Lincoln.
 
Segundo o Boletim Epidemiológico de 2018 do Ministério da Saúde, entre 2011 e 2017 o Brasil possui mais de 141 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Desses, 58.037 mil são casos contra crianças, sendo 74,2% contra meninas e 25,8% contra meninos. O levantamento também traz que 83.068 mil são casos contra adolescentes sendo, 92,4% contra meninas e 7,6% contra meninos. Esses dados trazem à tona um debate muito presente nas redes, o “Maio Laranja”, que tem como objetivo a conscientização do abuso e exploração sexual infantil no Brasil. Um tema muito conhecido, mas pouco debatido. Nesse contexto surge essa campanha que possui o slogan de “Abuso não é brincadeira”.


Editora-chefe: Lavnia Carvalho. 

 


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