30/04/2021 às 11h27min - Atualizada em 30/04/2021 às 11h09min

“Persuasão”: o romance de Jane Austen que trespassa não só a alma

Conheça as nuances do último romance completo escrito pela autora

Larissa Bispo - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Arquivo pessoal
O nome Jane Austen (1775-1817) é tão marcante que facilmente dispensa quaisquer apresentações – essa é, usando a épica expressão da própria, uma verdade universal. Seus romances são um legado de personagens femininas à frente do seu tempo e de narrativas que, mesmo dois séculos após sua morte, ainda prevalecem não apenas no âmbito da literatura, como também nas produções cinematográficas.
 
Fugindo um pouco do clichê, não vou falar de "Orgulho e preconceito" (1813), que Elizabeth Bennett e Fitzwilliam Darcy me perdoem. O protagonismo que quero trazer é para uma obra de Austen que merece o mesmo holofote, um romance que trespassa a alma e provoca em seus leitores metade agonia, metade esperança: "Persuasão".
 
Publicado postumamente em 1818, "Persuasão" é o último romance completo escrito por Jane Austen, que não viveu nem mesmo para intitulá-lo. Com um ar mais melancólico, embora ainda presente a acidez e ironia, características austeanas, o romance traz a história de Anne Elliot, o peso da persuasão e os efeitos do tempo.
 
Aos 19 anos, Anne Elliot se apaixonou por Frederick Wentworth, ambos se comprometendo a um noivado. No entanto, Frederick é um rapaz pobre e sem prestígios, o que, aos olhos de lady Russell, amiga da falecida mãe de Anne, seria considerada uma união inapropriada. Assim, a mulher aconselha, ou, com uma definição menos sutil, “persuade” Anne a terminar o noivado, alegando que o rapaz não teria o necessário a oferecer em um matrimônio.
 
A trama, porém, se inicia apenas oito anos depois, quando Frederick, agora Capitão Wentworth, regressa e acaba fazendo parte do círculo social de Anne. Ela, agora com 27 anos, é uma mulher reclusa, melancólica, convivendo com as consequências de sua escolha no passado; ele, um oficial da marinha com prestígio e dinheiro, deixando claro com a indiferença o seu ressentimento.
 

"Desgraçadamente, com todos esses raciocínios, ela descobriu que para os sentimentos tenazes oito anos pouco mais são do que nada."

Esse convício traz à tona inúmeras realidades, e a que mais se destaca é a ascensão social através do “trabalho”, especialmente pela Marinha Inglesa. Sir Walter Elliot, pai de Anne, um baronete narcisista com problemas financeiros em função do consumo em excesso, é o próprio retrato da nobreza rural que prezava pela riqueza de berço. Ele faz inúmeras críticas aos oficiais – em aparência e status – e considera ofensivo dividir os espaços sociais com essas pessoas.

Persuasão não é apenas o título desse livro. É a palavra presente em toda a obra, que coloca várias perspectivas e circunstâncias em atrito, levando o leitor a se questionar: até onde a influência de terceiros deve interferir na vida pessoal de alguém? A Persuasão é o ponto de partida deste romance, quando Anne decide seguir a palavra de alguém que considera parte de sua família, mas também caminha estreitamente por várias personagens; a todo momento alguém parece fazer um jogo em que um induz o outro, tanto em escolhas como em comportamento.

Sob o olhar da adorável Anne, Jane Austen, é claro, não abre mão de caricaturar as personagens e ironizar suas atitudes e comportamentos, a futilidade das irmãs Elliot e a vaidade do patriarca da família. Tudo isso é construído a partir do contexto social que a própria Austen viveu, ou seja, não poderia ser nos entregues retrato mais fiel das condutas daquela hipócrita sociedade.

"Persuasão", no entanto, não é apenas sobre esse jogo de induções: é uma obra que envolve, especialmente porque a narrativa permite esse mergulho nos sentimentos de Anne e nos deixa à espera do romance. Inclusive, eu diria que é um romance de espera, porque tanto Anne quanto Frederick, apesar de agora maduros, vão ao longo da história lidando com mágoas, incertezas, consequências do tempo e até mesmo orgulho.
 


Para os leitores de romances mais contemporâneos e com um pouco menos de paciência, talvez este não seja o romance ideal. Mas a verdade é que o percurso de Anne e Frederick não é contado em toques, abraços, quiçá beijos, mas na sutileza dos detalhes, dos olhares, das palavras ditas – como na épica carta do capitão – e das não ditas.

A última obra de Austen é um prato cheio de todas as qualidades de suas obras, mas com um pequeno gosto de despedida. A razão de "Persuasão" não ser tão citado quanto "Orgulho e preconceito" está fora do meu (leigo) entendimento, mas de forma alguma deveria ser desacreditado. É o ápice do que eu, de forma muito ousada, acredito ser o lado agridoce de Jane Austen.  

 


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