02/06/2019 às 17h58min - Atualizada em 02/06/2019 às 17h58min

[Resenha] Livro: Profissões para mulheres e outros artigos feministas- Autora: Virginia Woolf

Cecile Mendonça - Editado por Millena Brito
Cecile Mendonça
“Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir”.

Seja calma.
Seja gentil.
Seja elegante.

As suas opiniões devem buscar a neutralidade e, de preferência, ser agradável aos homens. O anjo do lar propõe tudo isso. A mulher escolhendo neutralizar-se para satisfazer o homem e deixá-lo na sua zona de conforto. Escolhendo calar-se, pois não é adequado falar sobre isso ou aquilo... pega mal para uma mulher.

E, assim, quando Virginia Woolf começou a escrever suas resenhas e artigos para publicações de revistas inglesas, ela foi de encontro com o seu próprio anjo do lar. Ela desejava expor a sua opinião. Sabia muito bem o que estava falando. Contudo, esse anjo a fazia escrever de um jeito muito mais doce, afável e calmo, para não bater de frente com os homens. 

O “fantasma” do anjo do lar a impedia de fazer o seu próprio trabalho. Precisar, o tempo inteiro, cativar os homens é uma rotina cansativa quando se é, não só escritora, mas quando se ocupa qualquer profissão. O anjo do lar não é algo exclusivo da mulher escritora. É algo presente na vida de qualquer mulher, seja qual for o seu grau de instrução, a sua profissão, a sua raça, e até mesmo o seu grau de consciência sobre esse anjo. Cada uma, dentro de sua realidade, irá se deparar em algum momento com esse “fantasma” que precisa ser eliminado. Todavia, essa não será uma tarefa fácil. Virginia Woolf diz que “é mais difícil matar um fantasma do que uma realidade”, e expõe as dificuldades da inserção feminina no mundo profissional e intelectual da época.

Numa fase em que a sociedade é dominada por homens, ao lutar pelos direitos das mulheres no século XX, construindo ideias, críticas e reflexões que ajudaram a pavimentar o caminho do movimento feminista, mostra que a autora estava muito à frente de seu tempo. Enquanto nós estamos congelados.

Lendo esse livro, é possível notar, a partir dos ensaios da autora, que a luta pela igualdade de gênero ainda não acabou. O anjo do lar ainda não foi morto. Ainda estamos rodeadas de críticas machistas e escolhemos muitas vezes abaixar a cabeça, contemplar as suas asas e dizer “amém”.

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