29/05/2021 às 14h55min - Atualizada em 29/05/2021 às 14h44min

Exploração sexual Infantil e a literatura como artificio para o combate ao abuso

Cerca de 52% dos casos de abuso sexual infantil acontecem dentro do próprio seio familiar. Duas profissionais da educação e uma escritora falam da utilização da literatura para combater e alertar famílias

Jennifer Valverde - Editado por Brenda Freire
Caleb Woods via unsplash.com

A campanha Maio Laranja foi iniciada para incentivar a denúncia e o combate à exploração sexual infantil em território nacional. Essa abordagem traz uma série de questionamentos sobre quando e como se deve falar sobre proteção sexual infantil tanto aos pais quanto às crianças, utilizando por exemplo, a literatura. Para a neuropsicopedagoga Josemary Palmeira, moradora da cidade de Santa Luzia (PB) da clínica FisioCenter, toda a literatura tem um papel fundamental na formação da criança por promover debates e reflexões sobre a vida. Assim, a utilização de literaturas que tratam sobre esse assunto, podem ser uma ferramenta importante na educação e na prevenção daquela criança, entretanto existe um tabu nas famílias que faz com que esse tema muitas vezes seja silenciado.
 

“O que acontece é que muitas famílias têm tabus… tabus de falar sobre a sexualidade, sobre a exploração sexual. E infelizmente quando existem esses tabus, as crianças se desenvolvem sem saber os perigos que as cercam.”, conta. Ela também afirma que esse tipo de literatura pode ser trabalhado tanto por professores quanto por terapeutas. 

 A profissional afirma que esse tipo de literatura pode ser trabalhado tanto por professores quanto por terapeutas

A profissional afirma que esse tipo de literatura pode ser trabalhado tanto por professores quanto por terapeutas

Imagem da neuropsicopedagoga Josemary Palmeira, de Santa Luzia (PB)

 

Segundo dados do Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos cerca de 52% dos casos de exploração, violência ou abuso sexual infantil ocorrem dentro do  próprio seio familiar da criança e, apenas um a cada 10 casos é notificado às autoridades. Isso se dá por inúmeros motivos, seja a falta de conhecimento da família em entender que aquele ato é errado, a até possíveis ameaças feitas pelo agressor à vítima. Dentro dessa perspectiva, a ideia de que apesar dos pais serem sim, os reais responsáveis para tratar desse tipo de assunto com seus filhos, muitas vezes são negligentes por falta de conhecimento e até de tempo destinado ao cuidado das crianças. Para Josemary, os professores têm que estar preparados para aplicar esse tipo de literatura com as crianças. “Sim, os pais têm que aplicar, mas se eles não estão prontos para aplicar, os professores devem estar totalmente preparados para saber quando devem aplicar essas literaturas. Já que não é de qualquer jeito, principalmente para as crianças, elas tem que ser apresentadas de uma forma mais lúdica.”, afirma.

 

Livros versus aplicação

 

Existem alguns livros que tratam desse assunto e ajudam a criança a entender que seu corpo não deve ser tocado. Como o livro “Pico e Fifi – Ensinando Proteção Contra a Violência Sexual na Infância” que é bastante trabalhado na literatura infantil com os infantos na faixa de 4 anos, ensinando eles a diferenciar um toque normal de um toque abusivo. A neuropsicopedagoga ressalta ainda que esse tipo de literatura deve ser trabalhado da forma adequada, sendo não limitado aos professores mas também a terapeutas que irão promover esse olhar investigativo a fim de entender se aquela criança possivelmente passou ou não por algo do tipo. 

 

Para a professora e estudante de psicopedagogia, Maiara Maria Marques da Silva, 25 anos, moradora de Vitória (PE) existem alguns livros e cartilhas que deveriam ser distribuídos nas escolas que auxiliariam no entendimento da criança, citando por exemplo, os da coleção “Amo Meu Corpo, Amo Minha Vida – Vamos aprender juntos a prevenir o abuso sexual”,  da Sociedade Biblíca do Brasil, que na visão da profissional, além de tratar de forma lúdica sobre o assunto pode ser trabalhado tanto em escolas quanto em instituições religiosas.  “Ele aborda as diversas formas que a criança pode ser assediada ou pode ser induzida a fazer algo que ela não quer… e dá os meios para a criança escapar. Só que a criança por si só não vai compreender sozinha, então é necessário ter uma orientação junto com o livro.”, explica. E ainda completa que a reeducação familiar é um fator importante para a proteção infantil. 

 

 

A professora acredita que a reeducação familiar é um fator importante para a proteção infantil

A professora acredita que a reeducação familiar é um fator importante para a proteção infantil

Imagem da professora e estudante de psicopedagogia Maiara Maria Marques da Silva, de Vitória (PE)

A escritora Julyanna de Souza Barbosa Germano, 36 anos, moradora de Campina Grande (PB) acredita que a literatura por si só é um veículo importantíssimo para se trabalhar com as crianças, mesmo em temas mais delicados como esse. Entretanto, como mãe, ela ao orientar sua filha, revela que preferiu ir direto ao assunto, ela já havia lido um livro que tratava sobre a temática e aproveitou a oportunidade para ir mais além e explicar o que não pode fazer e como as pessoas devem se aproximar dela. “Falei, literalmente, que existem determinadas partes do nosso corpo que as pessoas não podem tocar e que se, porventura, o fizerem, ela deve nos contar imediatamente.”, relata. A escritora  também aconselha  que os pais não devem temer tratar de certos assuntos com seus filhos. 
 


Os sinais e a linha familiar
 

 Segundo a neuropsicopedagoga Josemary, os professores mesmo com mais dificuldade em tempo de pandemia, podem perceber certos comportamentos (possíveis códigos) que a criança muitas vezes passa involuntariamente, sendo esses a mudança brusca de humor, como por exemplo uma criança que era mais extrovertida começa a ficar exageradamente retraída; outro ponto é a regressão do comportamento, onde aqueles que apresentavam mais maturidade, começam a regredir. Mas, um dos pontos mais importantes de identificação é o ato de pedir à criança que desenhe, e isso só pode ser feito dentro de sala de aula. 
“As crianças se revelam através dos desenhos, porque existem as chamadas técnicas projetivas que nós psicopedagogos aplicamos, onde a criança projeta o que ela sente e o que ela vive através dos desenhos, podendo ser meros rabiscos, mas estes, para a criança têm significado. Então, nós temos que ficar atentos a esses desenhos”, adverte a profissional.
 
Para as duas profissionais da área da educação é importante a reeducação familiar para tratar desses assuntos. Mas, para isso é necessário um maior investimento dos órgãos governamentais em campanhas e educação familiar à sociedade. Josemary, ressalta que viemos de um sistema de educação familiar que foi se desfragmentando ao decorrer do tempo  e aqueles que foram criados de forma inadequada acabam, às vezes por pura falta de informação criando seus filhos dessa mesma forma em um ciclo perigoso.
Vivemos isso hoje, um sistema muitas vezes errado e mal preparado. Então de forma inconsciente, nós conduzimos cargas hereditárias, comportamentais dos nossos familiares. Josemary aconselha ainda que os professores não devem temer represálias mas assumir o papel de protetor daquela vítima até as autoridades entrarem no caso.
 
“Um conselho para o professor é não calar! Não ter medo, não temer a nada, porque a vida dessa criança está em jogo. Então o professor que realmente é profissional, ele não se cala diante das piores situações. O professor tem que lutar pelo melhor de seu aluno, como uma mãe que luta pelo melhor do seu filho.”, explica.
  
Já Julyanna deixa um recado para os pais, para que eles possam ser mais presentes na educação de seus filhos e não temerem falar de assuntos inconvenientes, mas conversar, da forma adequada, com eles sobre tudo.
 
“Não devemos ter vergonha de falar sobre certos assuntos com os filhos, porque o mundo certamente não terá, sem contar que ele será ensinado lá fora pelas pessoas erradas e de uma maneira mais equivocada ainda.”, afirma

 


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