10/06/2021 às 22h23min - Atualizada em 10/06/2021 às 22h03min

A história do que conto me fez enxergar o presente

Existem histórias que nos marcam de forma que nunca vamos nos esquecer, com certeza o conto “Advinha quem não voltou pra casa?” de Pedro Poeira é uma delas

Raphaela Vitor - Editado por Talyta Brito
Arquivo Pessoal
Em uma madrugada típica de insônia e nervos à flor da pele, decidi que precisava de uma distração para a minha mente inquieta foi quando, navegando pelo site de compras do meu Kindle, me deparei com o conto do Pedro Poeira.

O nome de cara já me chamou atenção “Adivinha quem não voltou para casa?”, sem hesitar e ao menos perceber, meu dedo já tinha acionado o botão de compra. A premissa era simples, uma mãe não volta para casa e seus dois filhos partem na manhã seguinte em busca de seu paradeiro.
Criando mil e umas teorias, antes mesmo de ler a primeira frase do conto, esperava um enredo de suspense, apreensão e que eu pudesse colocar em pratica as minhas habilidades de detetive amadora e fã de Agatha Christie, felizmente estava errada, e não poderia estar mais grata por esse fato, ao invés disso, recebi uma história que me fez olhar para a minha própria realidade e eis que me deparo com a verdade nua e crua: meu presente não é eterno e meu futuro é um grande mar de incertezas.

Hoje, tenho uma rotina de acordar com o bom dia do meu pai e aos fins de semana ter uma sessão de cinema com a minha mãe, ou até mesmo maratonar Gilmore Girls até uma cair no sono, e definitivamente posso contar com a animação da minha cachorra Phiona todas as vezes que me vê, esse é o meu presente, mas tenho as minhas dúvidas de que será o meu futuro. O que me fez divagar sobre esse assunto por diversas vezes antes de pegar no sono após terminar a leitura, foi o seguinte pensamento do autor em sua nota de agradecimento:

"Estamos vivendo nossas vidas juntos hoje, mas não sabemos até quando continuaremos assim — o ponto de ruptura vem se apresentando a nós como o canto de uma sereia, baixinho, sedutor, atraindo cada um de nós para seu respectivo destino. Nós somos como as ondas, que colidem e se esparramam pela praia, e depois se juntam às marés e percorrem o oceano, talvez até o mundo — e ninguém sabe exatamente aonde vai parar." 

Antes de ler as palavras de Pedro, nunca havia passado pela minha cabeça que crescer significava romper um pouco o laço com os meus pais, afinal, durante esses meus 22 anos sempre me mantive preocupada em saber qual seria o próximo passo e sem me importar onde estava pisando naquele exato momento.
Não creio que essa situação se encaixe inteiramente na teoria de Modernidade Liquída de Zygmunt Bauman, que diz que relacionamentos podem ser substituídos por conexões frágeis e prontas para serem desfeitas a qualquer momento, tenho certeza de que não posso substituir meus pais, o máximo que posso fazer é achar relações que ocupem o espaço em meu dia um “tapa buraco”, talvez, isso nos faça uma versão mais leve da teoria de Bauman.

 
"Os filhos nunca são nossos por muito tempo, eles pertencem ao mundo. Chega uma que a gente precisa deixar eles irem."

Do mesmo jeito que a personagem Monica citou em certa parte do conto, vejo o outro lado da situação, nossos pais também não são nossos por muito tempo, uma hora precisamos deixá-los também, a gente só esquece desse fato porque estamos ocupados demais crescendo e com as responsabilidades da tão sonhada vida adulta, e tudo bem, nem tudo é feito para durar, nem mesmo aquilo que julgamos eterno.

Foi lendo a história de Pedro que tomei consciência disso, um dia já fui uma adolescente como a Melissa que pouco se preocupava com tais questões, e que atualmente sou um Murilo em busca do futuro que sempre sonhei e talvez venha a ser uma Dona Monica e me esqueça por alguns anos que a vida é feita para ser vivida e não somente assistida.

É provável que daqui á alguns anos, os meus dias não sejam contemplados pelos bons dias do meu pai ou sessão de televisão com a minha mãe, não dividiremos mais o mesmo teto ou nos vejamos com certa frequência quanto agora, mas, não é algo com que deve me preocupar ou temer, faz parte desse ciclo que chamamos de vida. Enquanto não chego nesse futuro próximo, continuarei vivendo o meu presente, um dia de cada vez, e ao mesmo tempo colecionado essas ternas memórias que irão construir o meu passado, que um dia, quem sabe, posso compartilhar com o mundo afora que me espera.

 
 

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