15/06/2021 às 20h23min - Atualizada em 15/06/2021 às 16h33min

Malcom & Marie (Netflix, 2021) | Crítica

Drama de Sam Levinson é carregado por boas atuações, mas se perde em diálogos vazios

Lucas Kelly - revisado por Jonathan Rosa
Malcom & Marie usou o minimalismo para a gravação diante das mudanças da pandemia.(Foto: Reprodução/ Netflix)

O que pode acontecer em uma madrugada? O que é possível ser dito em apenas uma noite? Certa vez, disseram que após às 2:00h da manhã, apenas vão dormir. Não discuta. Não tome decisões ou tente consertar as coisas. Às vezes é preferível deixar para outro dia. Esperar o sol raiar outra vez. Mas essa não foi a escolha de Malcom e Marie.

A obra acompanha um cineasta (David Washington) na noite em que ocorre a estreia de seu filme Imani. Ao chegar a casa, ele aguarda as avaliações dos críticos, com sua namorada (Zendaya). Mas no momento em que aguardavam, uma discussão começa entre ocasal, que desencadeia um longo conflito noite adentro.

O diretor do longa Sam Levinson, (série “Euphoria” da HBO), apostou no minimalismo. Dois personagens, uma locação e todo enredo contado em uma única noite. Além disso, enfrentou o desafio de gravar toda a produção durante a pandemia da Covid-19, o que levou as cenas a serem filmadas em duas semanas.

Malcom & Marie é um filme que se vende mais pelas interpretações do que por sua premissa. O elenco foi responsável por fazer o público gerar expectativas pelo lançamento na Netflix. David Washington e Zendaya já provaram ser atores acima da média e vê-los juntos faz qualquer um esperar por uma história incrível.

Em sua performance, David Washington é eficiente ao mostrar um homem egocêntrico e insatisfeito com as situações ao seu redor, como a indústria cinematográfica e sua relação com Marie. Além de saber adotar um tom cômico nos momentos certos. Porém, em algumas sequências, sua atuação se perde em uma teatralidade exagerada.

Nos momentos em que seu temperamento se torna explosivo, o uso descontrolado do corpo com gesticulações intensas, faz o personagem parecer muito brutal durante suas falas. Isso enfraquece o realismo necessário para a trama de um casal em conflito. É como se você tivesse a certeza de que ninguém age daquele jeito em uma briga.

Além disso, em determinadas cenas, o personagem usa um olhar ameaçador que faz você acreditar que ele tomará atitudes drásticas. Porém, nada disso acontece. Dessa forma, a interpretação de Washington poderia ter seguido por um outro caminho. No entanto, o mérito não é perdido, visto que ele, junto a Zendaya, realiza uma tarefa difícil de segurar 1h e 46 min sem qualquer elenco de apoio.

Com uma possível chance de ser indicada ao Oscar, Zendaya interpreta com muita autenticidade, uma mulher frustrada por seu passado e pelo comportamento do parceiro. Os pequenos gestos e o olhar dela marcam presença, principalmente nas cenas em que há silêncio após as discussões. As reações dela diante das falas do companheiro são marcantes e mostra mais uma vez o desenvolvimento que tem acompanhado Zendaya.

A singularidade dos dois é bem trabalhada. É possível compreender os conflitos internos, angústias e medos que cada um possui, e como isso afetou o estado presente do relacionamento. Há também a utilização do preto e branco para enfatizar o dualismo do casal presente na história.

A oscilação entre os momentos de discussão e reconciliação acontece com uma ótima suavidade, causando mudanças bem trabalhadas no tom do filme. As brigas não acontecem de repente. Uma frase altera tudo o que está acontecendo e a direção utiliza os momentos de silêncio entre os personagens para a evolução da narrativa.

Com enquadramentos criativos, um senso de intimidade é gerado e o espectador tem uma aproximação com a realidade do casal dentro da casa. A movimentação de câmera promove uma dinamicidade necessária para que o filme não se torne maçante. O frequente uso do close-up explora bem as reações dos personagens, levando o público aos dois lados do conflito.

Os diálogos são responsáveis por sustentar o longa durante os minutos em tela. Contudo, as discussões variam entre críticas à indústria cinematográfica e monólogos repetitivos. Várias vezes um tema retorna e ao mesmo ponto, engessando a narrativa. As discussões se tornam um bate-volta enfadonho. E, por vezes, parece que você está assistindo às confissões de Sam Levinson sobre sua visão do cinema, e isso soa como um desabafo vazio.

No entanto, Malcom & Marie seria uma obra totalmente diferente se fosse orquestrado por outro diretor. Talvez a sensibilidade de Noah Baumbach em Marriage Story (2019), ou o lirismo de Spike Jonze em Her (2015), traria um novo aspecto. Assim, o passado dos dois seria explorado com mais precisão, o que geraria mais apego pelos personagens e pelo casal que formam. É possível que você termine de assistir desejando que eles não fiquem juntos, algo que se contrapõe totalmente a ideia do longa.

Uma noite foi suficiente para que segredos fossem revelados e feridas fossem abertas. Malcom & Marie apresenta como existe complexidade em qualquer relação diante da subjetividade que cada um de nós carrega. Temos nossas próprias confusões e demônios interiores. Diante disso, a autenticidade é sempre necessária. Esconder nossas dores do outro, nem sempre é a melhor opção. Sendo assim, quando conflitos ocorrem diante das singularidades que somos, o melhor a se fazer, às vezes, é esperar o sol nascer outra vez.

Trailer Oficial de 'Malcom & Marie'. (Reprodução: Netflix Brasil - YouTube)



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