20/06/2021 às 19h02min - Atualizada em 20/06/2021 às 17h20min

Os loucos somos nós

Os avanços no tratamento de doenças mentais no Brasil e a mancha de tortura, morte e preconceito com quem era julgado como “doido”

Evellyn Torres - Brenda Freire
Lobotomia, psicocirurgia que retirava parte do cérebro (Foto: Getty Images/Reprodução)

Lobotomia, eletrochoque, afogamentos, camisa de força, coma induzido, exclusão social e desumanização. Estes eram alguns dos tratamentos de doenças mentais realizados nos pacientes. A psiquiatria e a medicina evoluíram ao longo das décadas e as práticas caíram em desuso, mas a memória e registro do que foi feito continua.  

 

Até o século XVIII, as noções de mente, inconsciente e doenças mentais não possuíam muitos estudos. Ainda se baseavam no preconceito e em uma visão religiosa. Associando-as à "loucura", pacto com o demônio, falta de fé ou alguma lesão grave, causas de transtornos mentais como a esquizofrenia, ansiedade e o transtorno bipolar eram alvos de desconhecimento.

 

O médico francês, Philippe Pinel (1745-1826), considerado o pai da psiquiatria, revolucionou os tratamentos. Buscou uma abordagem mais humanizada, com uma sistematização de rotina, medicamentos e atividades. Como precursor do alienismo - a análise científica e médica das doenças -  identificou as causas como resultados de problemas físicos, morais ou hereditários. Porém, mesmo com os avanços, os séculos seguintes foram marcados com procedimentos desumanos em manicômios. 

 

Candido Fontan, psiquiatra graduado em medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com residência psiquiátrica de adultos, crianças e adolescentes pela USP de Ribeirão Preto e psicoterapeuta da abordagem de Winnicott, explica sobre essa transição.

Ele conta "que as doenças mentais tinham um fundo que podia ser explicado pela medicina, tem esse período higienista da saúde mental. O doente tem que ser excluído, o corpo passa a ser cuidado pela ciência, pela medicina, mas não existe autonomia do sujeito.”, afirma.
 

E completa que “a figura de poder deixa de ser a igreja, a justiça ou as prisões, mas passam a ser os médicos, os hospitais. Toma essa autoridade, de vigiar, cuidar e punir, dos casos desviantes.”, explica.

No Brasil, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais (conhecido como Colônia), foi um dos maiores exemplos da desumanização na saúde mental. Fundado em 1903, tinha capacidade máxima de 200 pessoas, mas em 1961 contava com mais de cinco mil internos.
 

“Trem de doido”, como era chamado o transporte - semelhante aos vagões destinados aos campos de concentração nazistas na Segunda Guerra - levavam, diariamente, centenas de homens, mulheres e crianças para os pavilhões do hospício. Entre os anos de 1930 e 1980, principalmente durante o período da Ditadura Militar, foram contabilizadas 60 mil mortes no manicômio.
 

A escritora e jornalista brasileira Daniela Arbex, lançou em 2013, o livro “Holocausto Brasileiro”, uma reportagem completa com relatos de ex-pacientes, funcionários, parentes e as vítimas do hospital Colônia. Ganhando o 2º lugar em melhor livro-reportagem pelo prêmio Jabuti em 2014, a obra foi adaptada em documentário para a HBO em 2016 e série pela Globo Play este ano.

 

“Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias os eletrochoques eram tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia e ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, mais de 1.800 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos passaram a ser decompostos em ácido, no pátio da Colônia, na frente dos pacientes ainda vivos, para que as ossadas pudessem ser comercializadas”, afirma a jornalista.

Mais de 70% dos pacientes não sofriam com nenhuma doença. Eram excluídos da sociedade por vários motivos, como: serem homossexuais, prostitutas, mães solteiras, mendigos e alcoólatras. 

Em 1961, o fotógrafo Luis Alfredo, pela revista O Cruzeiro, publicou a reportagem “A sucursal do inferno”, após visitar junto com o jornalista da equipe, José Franco. Foram os primeiros a divulgar o genocídio de Barbacena, com um acervo de mais de duzentas fotos. Nos anos seguintes, outros denunciaram, como o cineasta Helvécio Ratton, com o documentário “Em nome da razão” e o jornal A Tribuna de Minas com a matéria “Os porões da loucura”, ambos em 1979.

A Reforma Psiquiátrica Brasileira ganhou força na década de 70 em diante, influenciada pelo psiquiatra francês Franco Basaglia, que em 1979 esteve no país e visitou o hospital Colônia. Em uma conferência afirmou “Estive hoje num campo de concentração nazista”. Com o objetivo de fechar os manicômios, humanizar os tratamentos e oferecer serviços de ressocialização dos pacientes, as idéias de Basaglia, junto com médicos, estudantes e trabalhadores, colocaram em prática uma nova psiquiatria. 

O Colônia, após os avanços, passou a, gradativamente, ser reformulado, a partir da década de 80. Atualmente se chama Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) e comporta o “Museu da Loucura”, em homenagem à memória das vítimas, fundado em 1996. Ao redor foram criadas residências terapêuticas e conta com novas áreas de convivência, ambulatório e oficinas.

Em 2001, foi aprovada a reforma pela Lei Federal 10.216, visando a proteção e direitos de pessoas com doenças mentais e a mudança no modelo de assistência. No dia 18 de maio é comemorado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, por conta da primeira Conferência Nacional de Saúde Mental em 1987. Em 17 de maio de 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS), retirou a homossexualidade da classificação de doenças mentais.

Enquanto os trâmites da reforma eram organizados, em 1986, surgia o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), localizado em Itapeva, São Paulo, em funcionamento até hoje. Com atendimento gratuito, conta com uma equipe multidisciplinar de psicólogos, psiquiatras e médicos para atender a população e dar suporte. 














 

Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados em 2020, existem 2.657 CAPs no país, 691 Serviços Residências Terapêuticos (SRT), 42 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 13.877 Leitos em Hospitais Psiquiátricos. Em 2006, havia mais de 40 mil leitos, desde a Reforma o número vem diminuindo.

Nise da Silveira foi uma das vozes da luta antimanicomial no período. A médica psiquiatra e escritora brasileira nasceu em 1905, em Maceió. Sendo a única mulher da turma de estudantes, aluna de Carl Jung, introduziu a terapia ocupacional e a humanização dos pacientes, contrária aos manicômios, eletrochoque e procedimentos vigentes. Com a arteterapia, as artes plásticas e o convívio de gatos e  cachorros foi pioneira no tratamento. 


Foi presa e anistiada durante a ditadura Vargas (1936-1944). Após trabalhar no Centro Psiquiátrico Pedro II no Rio de Janeiro, com a Seção de Terapêutica Ocupacional que criou, fundou o Museu da Imagem e do Inconsciente, em 1952, para pesquisa e expor as obras dos pacientes. Além disso, também fundou em 1956, a “Casa da Palmeira”, primeira clínica no país oposta ao internato. Morreu em 1999, com um legado de luta. Em 2015, foi lançado o filme “Nise – O Coração da Loucura”, em homenagem ao trabalho revolucionário.

Com base nos dados Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo, com 18,6 milhões de casos. O psiquiatra Candido Fontan, analisa a importância da área e diz que “a psiquiatria e a saúde mental como um todo, tem sido importante nessa compreensão da angústia, do sofrimento e do indivíduo nas relações.”, conta.

No contexto atual de pandemia ele afirma que além das perdas, luto e a saúde, há a questão da convivência confinada As pessoas não esperavam que em algum momento da história, teriam que ficar convivendo entre paredes. Nas famílias, nos casais, com os jovens, pessoas de todas as idades.”, explica.

O atendimento online, embora possibilite o acesso a  terapia e a telemedicina de quem possui acesso a internet, lida com os excluídos digitais, ele conta que essas pessoas “ficam à margem da sociedade (...) estão em casa, desempregados, impotentes e não podem nem procurar um profissional pelo computador.” Ele também afirma que quando possuem algum convênio, assistência pública, precisam lidar com a precarização das estruturas de saúde e a sobrecarga no Sistema Único de Saúde (SUS).

Diante da situação atual, muitos preferem o negacionismo. Segundo Candido, “se expondo aleatoriamente. Já que eu não suporto mais tristeza, eu prefiro sair gastando online, indo pra festas clandestinas, sem usar máscara.” Para ele, essas pessoas também estão doentes e suas relações e atitudes geram problemas na sociedade.

“Eu quero sair sem máscara, sem me proteger, sem valorizar a vacina. Então, essas pessoas que também tem, às vezes, alguns rompantes de agressividade na fila do supermercado, ou na entrada de um ambiente público, quando elas são cobradas.”, diz.

Embora o tratamento das doenças mentais tenha evoluído no país e no mundo, passando a ser humanizado e priorizando o convívio em sociedade, o estigma ainda permanece. Com isso, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), criou uma campanha contra a psicofobia, o preconceito contra as pessoas com transtornos mentais, que pode ser conferida no site piscofobia.com.br e no Canal da Psiquatria no Youtube.


 

Para Candido Fontan, procedimentos como a lobotomia - abolida do Brasil em 1955 - não retornam a acontecer, mas a eletroconvulsoterapia (ECT), o eletrochoque, utilizado apenas em casos extremamente graves e em hospitais preparados, podem voltar a ser difundidos, ele fala que “desde a gestão do ex-ministro Mandetta, volta esse discurso de ser usado no SUS, ele não ficaria tão restrito àqueles hospitais especializados, hospitais universitários. Então existe essa tentativa.”, explica.

Além disso, Fontan também enxerga a volta do discurso de internações compulsórias, que caso voltem, devem ser pensadas dentro dos direitos humanos para que não haja a exclusão e punição dos indivíduos. “Para que a gente mantenha os princípios da psiquiatria democrática, humanizada, e inclusiva (...) sempre respeitando as características da singularidade da pessoa. Sem ter uma estratégia de punição e de exclusão daqueles que já são mais fracos e invisíveis nos valores da sociedade”, afirma.


A história ainda é manchada com os inúmeros mortos dos procedimentos, mas há memória de luta e organização para melhores tratamentos. A utilização de remédios com prescrição médica, o apoio de psicólogos, psiquiatras, a atuação do CAPs, a psicoterapia e outros procedimentos são utilizados. 



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