08/06/2019 às 21h23min - Atualizada em 08/06/2019 às 21h23min

[Análise] Álbum Reconstrução de Tiago Iorc

Após um ano, Tiago Iorc volta de surpresa lançando seu novo álbum visual ‘Reconstrução’ com 13 músicas e clipes inéditos nos primeiros minutos do primeiro domingo de maio.

Cecile Mendonça - Cecile Mendonça
Imagem reprodução: Álbum Reconstrução Tiago Iorc

Depois de 10 anos intensos, Tiago Iorc escreveu “Até já já” para as redes sociais, e assim passou um ano afastado de sua carreira. O público, sem saber muitos detalhes sobre a vida dele nesse tempo, apenas tinha a informação de que o cantor e compositor estava repensando a carreira e descansando. E, como prometia um retorno breve, 1 ano e 4 meses depois, finalmente resolveu lançar seu novo álbum “Reconstrução” sem qualquer divulgação prévia, nem mesmo pela gravadora Universal. Mesmo assim, o álbum repercutiu de forma bastante positiva. As 13 faixas inéditas de seu álbum entraram no Top 50 do Spotify em apenas 24 horas, sendo um verdadeiro recorde dentre os cantores brasileiros.

 

Sobre a conceito do álbum, é possível perceber que “Reconstrução” apresenta uma ligação muito forte entre as músicas e o texto publicado em janeiro de 2018 pelo cantor. Ele fazia uma espécie de desabafo, falando sobre cansaço, a vontade de viver e adquirir novos medos, dizendo também que sentia-se velho.

 

Veja a seguir o texto publicado por Tiago Iorc em janeiro de 2018, já apagado das redes sociais:

 

"Conheci aquele guri ali, sentado, enquanto ele gravava seu primeiro videoclipe. Lembro dele todo cheio de medos, engolido por timidez, mas firme de certezas. Ele não fazia ideia de nada, mas sabia exatamente tudo o que queria. Olhando pra essa foto, vejo ele me reconhecendo. Ele sempre soube que me encontraria aqui. Enquanto digito, penso no quanto a audacidade daquele pirralho propulsionou minha vida. Dez anos que vivi. Dez anos que me viveram. Se foram: intensos como um piscar de olhos e efêmeros como a eternidade. Parece que foi ontem. Parece que foi tanto. Quanta alegria! Pelo caminho, vi ficarem os medos, as certezas também. Quanta saudade... Hoje me vi sem medo e senti saudade. Ou teria eu sentido medo de não sentir medo? Hoje me vi sem certezas e me senti velho. Somente o velho não consegue ter certeza do que é sonho. Concluí que um descanso vai me fazer bem. Me ausentar dessa nossa vida instagrâmica que nos consome e me permitir viver sem calcular tanto, me descobrir em novos medos, voltar a ter certeza do que é improvável. É só pra isso que sigo nessa vida. Sei que devo isso àquele Tiago ali, de 2007. E a vocês também. Todo meu amor. Até já já"

 

Depois de ler o texto e ouvir o álbum, é possível ver bem o tema "Reconstrução". Sua nova obra se mostra com um conteúdo mais denso do que o anterior, "Troco Likes", que inclusive é visto como mais "good vibes" do que o disco atual. É possível enxergar nas letras e melodias algo mais sentimental, reflexivo e maduro. O conteúdo desse novo álbum, como em Troco Likes, também critica a escravidão "voluntária" da sociedade nas redes sociais, mas dessa vez Tiago vai além. Ele aborda sobre depressão, ansiedade, falta de autoestima e desamores. Além disso, "Reconstrução" até brinca com a música clássica de Chico Buarque "Construção", já que o cantor opta por fazer suas composições com a mesma rigidez gramatical de Chico. Porém, enquanto Chico Buarque construía com versos encerrados por proparoxítonas, Tiago usa e abusa das oxítonas.

 

Já quanto a produção de "Reconstrução", ela se mostra bastante intensa, já que Tiago participou de cada detalhe de seu novo álbum visual. O cantor dirigiu cada um dos videoclipes, junto a Rafael Trindade, parceiro de outras produções audiovisuais. E, além disso, Tiago estrela em quase todos os seus vídeos, sempre acompanhado de Michele Alves.

 

E falando mais detalhadamente sobre as canções, ele apresenta músicas mais quentes, como "Faz", que inclusive no YouTube tem um aviso de conteúdo impróprio devido as cenas de amassos entre Tiago e Michele debaixo do chuveiro, "Fuzuê", que fala sobre aqueles amores intensos como a chama de um fósforo – acende, mas logo se apaga, e logo depois se acende outro – e "Tangerina", o qual possui um verso específico sobre "seiva" e tem gerado nos comentários do vídeo no YouTube, especulações de que se trata de uma metáforas sobre sexo oral.

 

Iorc também conta com elementos bastante românticos, explorando sobre o lugar bonito que é acordar e ver quem se ama a dormir, e ainda, a euforia de dividir uma vida, como em "Deitada Nessa Cama", "Tua Caramassa" e "Me Tira Pra Dançar".

 

"Como é gostoso te amar

E como tu me faz sentir

Teu rosto colado

E o beijo calado

Pronto para me despir a alma

Como é gostoso te amar

E como tu me faz sentir

Teu rosto colado

E o beijo calado

Pronto para me despir", trecho de "Tua Caramassa".

 

"Diálogo com a vida

Vida!

Eu e você

Num baile de gala

Me tira pra dançar

Vem aqui

Cola na minha alma

Dois pra lá e dois pra cá

Caio no teu samba

Passo a passo

Porque num piscar

Tudo pode mudar…", canta Tiago em "Me Tira Pra Dançar".

 

Assim, dentro do álbum, enxerga-se vários amores em suas diferentes fases. Então, aparentemente não se trata de um amor, mas de ciclos, tendo mais momentos tensos do que alegres neste álbum.

 

Portanto, Tiago soube realmente usar dos seus próprios traumas vividos ao longo de 10 anos intensos como artista para novamente produzir arte. E, com certeza, atingiu bem a qualidade nas letras, nos vídeos, na melodia e no conceito do álbum.


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