21/08/2021 às 18h27min - Atualizada em 21/08/2021 às 18h26min

Tarcísio, um homem feito de histórias

Para além dos palcos e das telas, conheça um pouco da trajetória do ator Tarcísio Meira

Carolina Dill - Editado por Andrieli Torres
Foto: Reprodução/TV Globo

Se o desejo de conhecer diversos países e representar o Brasil perante a imensidão mundial não foi realizado por meio da diplomacia, Tarcísio Meira pôde realizá-lo através da sua arte. Em 1957, o jovem almejava seguir na carreira de diplomata, entretanto após reprovar na prova de entrada para o Instituto Rio Branco, ele viu na dramaturgia um sonho que até então não sabia que tinha.   


Foi em São Paulo, no dia 5 de outubro de 1935, que nasceu Tarcísio Pereira Magalhães Sobrinho. O nome artístico veio do sobrenome da mãe, Maria Meira, escolha feita pela sonoridade formada a partir da junção entre os nomes e por uma superstição dos artistas da época, em que a soma de todas as letras deveria somar 13.

A estreia dele como ator se deu no teatro, em 1957, na peça “A Hora Marcada”. Outros trabalhos vieram em sequência, mas a grande marca ocorreu dois anos depois, em 1959, quando brilhou em “O Soldado Tanaka”, a convite de Sérgio Cardoso. Na televisão, a história começou na extinta TV Tupi, em 1959, nos programas de teleteatro. Foi na emissora, entre cenas e gravações da novela “Um Pires Camargo” que Tarcísio conheceu Glória Menezes. Os atores contracenaram juntos, tornaram-se grandes amigos e pouco tempo depois, apaixonaram-se. Os dois formaram um dos casais mais queridos entre os brasileiros. Em 1963, ambos trocaram a Tupi pela TV Excelsior, onde participou da primeira novela diária, “25499 Ocupado”. No mesmo ano, Meira fez o seu primeiro filme cinematográfico “Casinha Pequenina”, junto com o ator Mazzaropi. “Acho que nosso trabalho foi um elemento agregador da nacionalidade brasileira. Fizemos grandes personagens que ajudaram a criar uma identidade nacional”, já comentava o artista.

A sua estreia na TV Globo ocorreu em 1967, na novela “Sangue de Areia”. Alguns anos mais tarde, em 1970, na novela “Irmãos Coragem”, Tarcísio deu vida ao mocinho João Coragem, um dos maiores sucessos da fase preto e branco da TV. Já O Caso Especial “Meu Primeiro Baile”, foi o primeiro programa inteiramente gravado em cores a ser exibido. Na emissora, permaneceu por 52 anos.

É nitido que, a história de Tarcísio, permeia a da própria televisão no Brasil. Foram mais de 60 trabalhos na TV, dos quais também se destacou nas novelas “O Beijo do Vampiro”, “Roda de Fogo”, “Cavalo de aço”, “Torre de Babel”, “Hilda Furacão”, “Guerra dos Sexos” e “Orgulho e Paixão”. No cinema e no teatro somam-se mais de 22 filmes e 31 peças. Diante de tantas histórias representadas, o artista considerava o auge do sucesso quando o público confundia o seu nome com aquele interpretado. Dessa forma, Meira virou João, Capitão Rodrigo, Renato, Hermógenes, Dom Pedro I e tantos outros. “Eu convivi intimamente durante meses com muitos personagens diferentes de mim e que me enriqueceram como pessoa. Exercitaram a minha sensibilidade, a minha maneira de encarar as pessoas, o mundo, os acontecimentos”, afirmava Tarcísio.

Mas para além da figura de ator, ele era um marido, pai, padrasto e avô admirado por muitos. Da união com Glória, nasceu Tarcísio Filho, que além do nome e da herança de traços físicos do pai, carrega consigo a mesma profissão. João Paulo e Ana Amélia, filhos do primeiro casamento de Glória, eram seus filhos “do coração”. Foram quase 60 anos de casamento carregados por declarações de amor, cenas contracenadas em conjunto e uma família construída. Um verdadeiro amor de novela percorrendo as cenas da vida real. “Nós fomos mudando, crescendo e envelhecendo ao mesmo tempo, então isso foi nos tornando também, além de tudo, parceiros, muito amigos e confidentes. É um sentimento muito especial que temos um pelo outro e, talvez por isso, porque nós sempre nos apegamos muito um ao outro e dependemos muito um do outro”, contava Meira.  

Durante muitos anos, Tarcísio se viu reduzido pelo público à figura de “galã”, aquele ator que se destaca pela sua aparência física. No entanto, no decorrer de seus trabalhos, ele mostrou que para além do rosto bonito, seja na figura do mocinho ou do vilão, era um dos grandes talentos da arte de representar. “O trabalho do ator é bonito e útil. Diz respeito à sensibilidade. Eu procuro desempenhá-lo da melhor maneira possível, com a máxima eficácia. Tento convencer as pessoas das verdades daquele personagem. Essa carreira me gratifica muito”, afirmou o ator em entrevista para o Memórias Globo. 

Dono de um sorriso cativante e de uma simplicidade ímpar, outra grande paixão que mantinha ativa o seu amor pela vida, eram as suas fazendas. “O campo me dá o equilíbrio que eu preciso. A televisão é um trabalho muito estafante”, contava Meira. Foi no campo, nas suas terras na cidade de Porto Feliz, em que viveu parte de seus últimos dias de vida, ao lado da amada Glória. O casal foi infectado pelo vírus da Covid-19, ambos sofreram complicações e precisaram ser internados. Após seis dias no hospital, em 12 de agosto de 2021, a amada recebeu alta, mas o artista não resistiu, falecendo em decorrência da doença.

 

Talvez nem os maiores escritores da teledramaturgia pensassem no desenvolvimento de uma história tão rica quanto foi a trajetória de Tarcísio. Num tempo em que a televisão era a grande protagonista nos lares brasileiros, atores e personagens marcantes inspiram até hoje a vida real. Seja pelas telas do plim plim ou através dos palcos da vida. “Ao longo da minha vida inteira, eu colecionei muitos amigos e amigas. Porque fiz personagens que foram importantes para as pessoas, dos quais elas sentem saudade. Homens e mulheres têm saudade. Então, eu tenho muitos amigos. Eu me sinto muito feliz com isso”, já dizia o ator.

Tarcísio Meira deixou marcas permanentes e fortes inspirações. Sua história deixará eterna saudade, mas ainda irá repercutir ao longo dos anos, seja na vida daqueles que viveram pelo seu entorno, na vida dos noveleiros ou na vida de todos aqueles que tiveram a chance de compartilhar o mesmo mundo em que Tarcísio se fez presente.


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