10/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 10/10/2021 às 00h01min

Você sabe como acontece o assédio moral no home office?

Até mesmo não fazer nada pode ser uma forma de assédio: não interagir, não responder e-mails, não convocar para reuniões e não atender ligações são exemplos comuns de exclusão

Bruna Villela - Editado por Júlio Sousa
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Nos últimos anos, o modelo de trabalho conhecido como Home Office foi ganhando notoriedade e, com os recentes decretos de isolamento e distanciamento social, avançou como uma modalidade definitiva. O escritório em casa — em tradução livre — ao mesmo tempo que permitiu que muitos continuassem trabalhando, mesmo à distância, também trouxe impactos negativos. 

A categoria foi praticamente imposta, modificando as rotinas e, para além disso, a forma que situações bastante desagradáveis no ambiente de trabalho acontecem. Longe de tom de voz elevado e movimentos agressivos, o assédio no home office tem sido de forma passiva e silenciosa. A sutileza pode acontecer em razão do receio de gravações comprometedoras e de exposição nos meios digitais. 



 

Muitos pensam que o conforto de estar dentro de casa seria favorável ao melhor desempenho laboral, mas, na verdade, dividir o mesmo espaço entre local de trabalho e ambiente de descanso acaba não sendo tão fácil na prática. As tarefas domésticas também se multiplicaram em razão do maior tempo dentro das residências, acumulando mais trabalho; para quem tem filhos a ideia é a mesma: é difícil deixá-los concentrados em suas atividades no horário do expediente. 

Com a ideia ilusória de que o modelo estaria ligado à maior produtividade, é perceptível a maior exigência por parte dos chefes e superiores. A questão é que a alta cobrança pode ser considerada abusiva, porém muitos não sabem dessa informação. Além disso, o assédio velado acontece nos diferentes fluxos de relacionamento, não apenas no sentido hierarquizado: uma equipe pode boicotar, ignorar e sonegar informações ao líder, por exemplo, o que fica ainda mais difícil de identificar. 
 

Entenda o termo

De acordo com a definição do Tribunal Superior do Trabalho, assédio moral se caracteriza pela “exposição de pessoas a situações humilhantes e constrangedoras no ambiente de trabalho, de forma repetitiva e prolongada, no exercício de suas atividades”, sendo esta “uma conduta que traz danos à dignidade e à integridade do indivíduo, colocando a saúde em risco e prejudicando o ambiente de trabalho” seja presencial ou online. 

Horas extras excessivas, falta de pausas para descanso e alimentação, exigência de tarefas não previstas ao cargo e metas intangíveis são mais fáceis de classificar como abusivas, podendo ser as mais prejudiciais à saúde. As altas cobranças podem resultar em esgotamento físico e mental do funcionário, gerando pânico e outros transtornos psicológicos que podem levar ao desenvolvimento de estafa ou burnout

Ana Raquel Barreto é estudante de jornalismo e estagiária em comunicação e conta que sofria com crises de ansiedade ao acumular demandas dos dias anteriores que não conseguia concluir. Diferente da maioria dos casos, a entrevistada teve apoio interno, principalmente de sua chefe com quem tem um bom contato direto: “Ela é solícita, sempre se coloca à disposição para me ouvir quando tenho dúvidas ou alguma dificuldade”. 



Ana diz que sua chefe a permite tirar um tempo para descanso e cuidado com a saúde mental, pois também lida com crises de ansiedade, o que a faz ser mais compreensiva.
 

“Fui não só ouvida, como recebi várias dicas de melhorar minha gestão de tempo, organização e trabalho". A estudante também coordena uma equipe de pessoas e declara que tenta levar essa compreensão adiante.

 

Nem todos têm a mesma “sorte”

O Anderson* é jornalista e vivenciou um caso de assédio moral no trabalho quando coordenava um curso de jornalismo em um centro universitário particular logo no início da pandemia de Covid-19. Ele relata que a mudança do presencial para o remoto na faculdade “foi de domingo para segunda” e, às pressas, teve de organizar várias planilhas com levantamento de todos os alunos — aqueles com dificuldade de conexão à internet ou aparelhos eletrônicos, por exemplo — pois tinham de fazer de tudo para não haver desistência de matrícula na instituição por conta do novo regime letivo. 

    Em sua função, tinha de acompanhar de perto cada professor em cada aula, conferindo os alunos que faltassem, sugerindo aos docentes demandas extras para estudantes ainda não integrados, além de promover eventos online como congressos e simpósios para atrair novos alunos. Ele conta que inclusive fez contatos internacionais em alguns eventos: "a gente tinha que criar coisas mirabolantes, inventar e fazer acontecer. Acompanhar, monitorar e dar resultado”. 

    Imerso em tanta obrigação e afazeres, Anderson* não conseguia mais manter a rotina assim.
 

“Isso tudo chegou a um limite e tive uma crise de burnout, simplesmente travei na frente do computador, as pessoas me chamavam e não respondia. Comecei a chorar e resolvi tomar banho, quando saí liguei para minha psicóloga e procurei ajuda”, conta.


Porém, o jornalista diz que sua gestora na época acolheu o atestado psiquiátrico de afastamento por 10 dias e permitiu que ele se recolhesse quanto fosse necessário. 

*nome fictício para preservação da identidade da fonte 
 

Além do óbvio

A situação de assédio moral pode acontecer através de mensagens de texto, áudio, ou ainda, de chamadas telefônicas em momentos pré ou pós-expediente. A maioria desconhece que a exigência de habilitação da câmera em videoconferência, comentários pejorativos acerca da aparência do colaborador ou do ambiente que se encontra, além do isolamento que pode partir de colegas e/ou gestores são práticas de assédio moral. Ou seja, tanto a superexposição ou a total falta de atenção durante as reuniões de forma contínua e repetitiva. 

André Costa  — entrevistador forense e advogado especializado em assédio moral  — fala que após a pandemia é requisitado com maior frequência para investigar casos de assédio moral.
 

“Tenho gerenciado muitas crises relacionadas a esse comportamento nas empresas. O desprezo e a desconsideração também são assédio. E ele está acontecendo de forma mais sutil, mas é bastante forte e eficaz de fazer alguém ceder e sair de uma corporação”, afirma. 

Ademais, o profissional ressalta que “O assédio moral fica caracterizado pela repetição, é uma perseguição contra um alvo específico. É preciso ser um comportamento frequente contra uma pessoa específica”.


 

Para a detecção e posterior prevenção de casos assim, os colaboradores podem contar com um Canal de Denúncias — desenvolvido pela própria organização — que com segurança e anonimato promove uma política de não retaliação das vítimas. A ampla divulgação aliada ao código de conduta bem estruturado permitiria a efetividade da denúncia e da resolução dos casos.

    O próprio cronograma organizacional pode impedir que algumas dessas situações aconteçam, horários de disponibilidade e prazos para as entregas de demandas estabelecidos de forma prévia. O funcionário tanto pode como deve acionar a empresa, relatando o ocorrido e fornecendo o máximo de informações possíveis, e pode levar a denúncia adiante na justiça caso não seja resolvido — aponta Daniel.

 

 
 

 

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