09/11/2021 às 23h19min - Atualizada em 13/10/2021 às 12h03min

A Onda Coreana é um fenômeno passageiro?

Entenda a forte influência do leste asiático na indústria da moda

Danielle Vaz - Editado por Larissa Barros
Foto com colagem de algumas personalidades da Hallyu, ao fundo o Palácio Gyeongbokgung. (Reprodução: colagem autoral)

Nas últimas semanas presenciamos aqui no Brasil, o sucesso da série sul-coreana Round 6. Ela se tornou a produção mais vista da plataforma de streaming Netflix, atingindo o primeiro lugar em 90 países, e acabou escancarando, mais uma vez, o quanto a Hallyu está cada vez mais presente na cultura pop global.

Hallyu Wave ou Han Style, no português “onda coreana”, foi cunhada na década de 90, mais precisamente em 1997, por jornalistas chineses, com objetivo de expressar a febre que estava atingindo o país com o k-drama “What is love”. Para além do entretenimento, a Hallyu expressa a cultura pop sul-coreana como produto de exportação mundial, sendo uma forma de poder político do país, o soft power. 

Desde 2010, o governo sul coreano, através do Ministério da Cultura, Esporte e Turismo, definiu seis aspectos que representam a Han Style: Hangul (idioma, escrita coreana), Hanji (a arte coreana), Hanguk-Eumak (instrumentos musicais tradicionais coreanos).

O país dispõe de um fundo voltado ao investimento da cultura popular. No início calculava-se US$1 bilhão, já em 2019, o investimento da Coreia do Sul foi multiplicado para US$ 6,4 bilhões. Sendo assim, percebemos que este é um mercado promissor e de sucesso, dentro e fora do ocidente. No ano passado, o país faturou cerca de R$7,5 bilhões, devido ao sucesso de Dynamite, hit do grupo sul-coreano BTS, gerando 8 mil novos empregos.

O mercado da moda já é algo grande no leste asiático há anos. Idols e grandes personalidades coreanas são fotografadas em suas roupas em aeroporto, sendo considerado um evento fashion para a mídia local. Cabelos coloridos, maquiagem, roupas, já são símbolos da cultura pop sul-coreana há muito tempo mas porquê ainda é tratado como algo exótico ao olhar ocidental?

A Hallyu e a indústria da moda

Sendo um fenômeno da cultura pop mundial, a Hallyu afeta também a moda e as tendências. Apenas com o figurino dos jogadores da série Squid Game, o tênis clássico branco da marca Vans já teve um aumento de quase 8 mil por cento em vendas.

 

 

A jornalista e escritora, Érica Imenes, especialista no fenômenos e racialidades no Brasil, contou que a onda coreana sempre esteve presente na indústria da moda. Compreendendo esse mercado como comportamento, ela afirma ainda que a K-Beauty é um dos aspectos mais populares e presentes nas tendências, sendo exaltada por muitos especialistas em cosméticos. 
 
“É importante que a gente faça essa distinção, não é só porque o ocidente tomou consciência do poder da onda sul-coreana em tempos mais recentes, que essas indústrias já não eram bem sucedidas na Coreia do Sul e em outros países do leste-asiático, que foram os primeiros a ser impactados pelo soft power da Coreia do Sul através da Hallyu”, destaca a jornalista. 
 
De acordo com dados da Vogue Business, o continente asiático é o maior consumidor do mercado de luxo do mundo, sendo que em 2019, era o responsável por 62% do consumo global de moda no mundo. Só com essa informação, podemos entender o porquê as marcas estão apostando na imagem de Idols e K-acts para formar seus times de embaixadores. 

A influência chegou às marcas de luxo, e neste ano, a Louis Vuitton, apresentou a coleção masculina outono-inverno em Seul, capital da Coreia do Sul, transmitindo o evento através do Youtube. O fashion film contou com os embaixadores da marca, o grupo sul-coreano BTS. Além disso, com o sucesso de Squid Game, a marca também assinou com a atriz e modelo Jung Ho-yeon.

A participação de outros idols em eventos da indústria da moda também foram importantes, como a presença de Rosé, integrante do grupo feminino BlackPink, no Met Gala deste ano, que foi representando a marca Yves Saint Laurent e a solista CL. Ambas são ícones de estilo da atualidade em nível mundial, e trazem a “nova” cara da moda. Mesmo com a Hallyu fazendo parte do comportamento há anos, ainda pode causar "estranhamento" para uma parte do público ocidental.

 

 

 


A xenofobia e o racismo anti-amarelo, são assuntos complexos e que estão presentes em todas as camadas sociais. Mesmo na moda, o fenômeno da onda coreana ainda é tratada como passageiro e de nicho. A jornalista, Érica Imenes, compartilhou sua opinião sobre esse assunto e afirma que, com o aprofundamento dessas questões sociais e raciais, a Hallyu poderá se beneficiar. 

 “O mercado está, mesmo que bem lentamente, se tornando mais diverso por conta das movimentações sociais acontecendo em paralelo ao redor do mundo. Com o aprofundamento dessas questões sociais e raciais, a Hallyu e suas vertentes podem e vão se beneficiar, com certeza, ocupando espaços que são de direito não só da Cultura Coreana, mas de qualquer cultura ou figura que sempre ficou à margem por ser considerado "minoria", explicou a jornalista.


Durante a apuração dessa pauta, foi pré-estabelecido mais fontes para contribuir ao assunto, mas não obtive retorno de nenhum dos contatos. Percebi então, como esse assunto ainda é visto como algo nichado, por parte do jornalismo de moda, e que merece mais atenção. Pois, como afirma Érica Imenes:

“A Hallyu não pode ser tratada como "o outro / o exótico / o passageiro", e, sim, como uma indústria tão poderosa quanto outras indústrias ocidentais”, finaliza a jornalista.


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