15/10/2021 às 10h04min - Atualizada em 15/10/2021 às 09h49min

“O Patinho Feio”: um conto que fez parte da nossa infância

Contos de fadas como ferramenta para nos sensibilizar e nos fazer refletir

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Talyta Brito
Fonte/Reprodução: Google
Os contos de fadas fazem parte da infância de cada um de nós. O que eles têm a nos oferecer? São marcas deixadas em nós por cada história que nos seguem em toda nossa trajetória. Eles carregam uma carga afetiva, são capazes de nos sensibilizar e nos remetem à infância. Essas histórias são transmitidas de geração a geração em várias partes do mundo. São narrativas que compõem um tesouro da humanidade que tem sido preservado há muito tempo. Conhecer os contos faz parte do processo de conhecermos a nós mesmos.  Apesar do nome recebido a presença de fadas não é uma característica desse tipo de conto, elas podem aparecer em alguns e em outros não.
 
A professora de literatura Cláudia Parreira explica que “os contos de fadas, normalmente, são representações da oralidade, de histórias locais que, com o acesso ao registro da língua, foram escritos”. Sobre a importância deles na literatura ela destaca:
 
“Vejo sua importância para a literatura como um antecessor das chamadas grandes obras e como um bravo guerreiro que resiste apesar da literatura canônica.”
Os contos de fadas fazem parte da cultura oral e foram transmitidos de geração a geração nos mais diversos países. Sobre a relação dos contos de fadas com a oralidade Cláudia Parreira analisa:
 
 “A oralidade é a forma mais tradicional de transmissão de cultura e de conhecimento. Na oralidade também não temos uma versão única, pois a história sempre é narrada na perspectiva de quem narra. Dessa maneira, há múltiplas possibilidades em um conto. Há um prazer na especulação por versões originais, na busca de seu sentido primário etc. Sem a oralidade, contudo, não haveria a possibilidade desse jogo, uma vez que já teriam nascido na tradição escrita.”
 
Um conto presente em nossa infância e de grande importância em nossa formação é “O Patinho Feio”. O Patinho Feio passou por várias circunstâncias difíceis durante um longo inverno. Por ser rejeitado por sua própria família ele fugiu, e então, passou por muitas humilhações em cada lugar que chegava devido a sua aparência tão feia. No final da história, bem conhecido por todos, ele descobre seus semelhantes, ele não era um pato, mas sim, um cisne. Então, no lago junto aos cisnes passa a ser admirado por sua beleza, e assim, sua história muda completamente de um ser desprezado para um alguém admirado.
 
O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen é o autor do conto “O Patinho Feio”. O autor era filho de um sapateiro e uma lavadeira. Foi no quarto de fiar do asilo onde a avó dele trabalhada que teve o primeiro contato com os contos populares da Dinamarca.  Também são da autoria de Andersen “A roupa nova do imperador”, “A pequena vendedora de fósforos”, “A pequena sereia” e “A princesa e a ervilha”. Além dessas histórias possui mais de 150 outras.
 
Em relação ao conto “O Patinho Feio” a professora Cláudia dá destaque a alguns aspectos literários. Ela enfatiza a importância do narrador e explica:
 
 “O primeiro aspecto, certamente seria o narrador, que nos conduz a um sentimento de dor junto ao patinho, que nos leva a senso de justiça ao condenar a atitude de seus irmãos. Sem esse narrador conduzindo nosso olhar conforme os valores de nossa cultura, certamente nosso envolvimento afetivo com a obra seria menor.”

Cláudia acrescenta ainda a construção da personagem principal como um aspecto relevante do conto:
 
 “A construção da personagem principal também é um ponto importante, pois não entendemos a beleza do patinho feio, existe um mistério que, em minha leitura, é desvendado apenas no momento em que ele se identifica com os cisnes. Nesse ponto, seria fundamental conectar essa questão à nossa realidade, à nossa socialização que se dá por meio de identificação e de comparação, o que, muitas vezes, não leva ao encontro da família como no conto, mas a um desencontro de si mesmo e a um sentimento de inadequação.”

Ela complementa a análise das características literárias do conto e pondera:
 

“Valeria ainda ressaltar que é uma história curta, sem grande complexidade na descrição dos espaços, sem um enredo muito elaborado, uma vez que isso é fundamental para a transmissão oral, além de, no texto em questão, o foco estar na reflexão que se apresenta.”

“O Patinho Feio” não é um conto apenas para crianças e tem sido explorado em apreciações da psicanálise.  No livro “Mulheres que correm com os lobos”, a autora Clarissa Pinkola Estés, dedica um capítulo na análise do conto “O Patinho Feio”. Em “A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção. O patinho feio: a descoberta daquilo a que pertencemos”, Clarissa tece relações entre a vida das mulheres, e as situações pelas quais passam, com a trajetória do patinho do conto. Ela aponta Andersen como um importante defensor da criança perdida e negligenciada, por meio do conto do “Patinho Feio”, por exemplo, incentivou gerações de “gente diferente” a ter força e suportar até encontrar a turma da qual seriam pertencentes. A autora analisa também a figura materna do patinho, essa mãe é tratada com desprezo por ter um filho diferente, e se abala psicologicamente, desiste, então, de cuidar do filhote estranho em meio às pressões.
 
No capítulo “A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção” a autora faz uma análise da “síndrome do patinho feio”:
“No entanto, ocorre às vezes uma espécie de patologia na síndrome do patinho feio. Continuamos batendo nas portas erradas mesmo depois de más experiências. É difícil imaginar como se poderia esperar que uma pessoa soubesse quais portas são as certas se ela, para começar, nunca chegou a saber o que é uma porta certa. No entanto, as portas erradas são aquelas que fazem com que voltemos a nos sentir proscritos.”

O Patinho Feio nos leva a refletir sobre o diferente. Quem é diferente deve ser excluído? Deve viver separado? Acredito que não. Conviver com todos amplia nossa percepção de mundo e nossa sensibilidade. O outro com suas diferenças acrescenta muito a minha vida. Excluir, separar, isolar, nada disso deveria fazer parte das nossas opções de ação.



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