18/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 18/10/2021 às 00h01min

Afegãos vivem sob a mira do medo e da censura Talibã

Os dois meses do grupo extremista no governo foram marcados pelo retorno de punições e execuções

Ludmilla Dias - Editado por Júlio Sousa
Com o Afeganistão sob domínio do Talibã, cidadãos tentam deixar o país. Foto: AFP
 
No dia 15 de agosto, o Talibã entrou na cidade de Cabul, capital do país, depois de horas de um cerco que resultou na fuga do então presidente, Ashraf Ghani. “O Talibã é extremamente bem organizado e é um grupo que tem uma capacidade de combate bastante grande. Foi enfraquecido no início da campanha militar dos Estados Unidos, mas vinha se fortalecendo há tempos”, diz o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Juliano Cortinhas. Com discurso conciliador, o grupo retornou ao poder do país prometendo moderação e respeito aos direitos das mulheres, como o acesso à educação e ao trabalho. Apesar disso, durante os mais de 60 dias de governo, atos de violência e extremismo voltaram a ser registrados.


Quatro dias após casos de perseguição de jornalistas começaram a ser registrados. No mesmo dia, cidadãos aproveitaram a celebração da independência do país dos britânicos para protestar contra os talibãs e, segundo o jornal The New York Times, membros do grupo atiraram em manifestantes que carregavam a bandeira nacional e várias pessoas morreram na cidade de Asadabad. Desde então, as duras punições passaram a ser intensificadas e restrições foram anunciadas. A música folclórica, que é um dos principais estilos no país, foi proibida e o cantor Fawad Andarabi assassinado

 

Nos últimos meses, as mulheres sofreram grandes perdas de direitos, como a determinação de novas regras para que possam assistir aulas nas universidades, entre elas estão:  o uso do abaya (vestido longo usado pelas muçulmanas) e um véu , o niqab, que cobre o rosto todo e deixa apenas os olhos à mostra. Além disso, as estudantes devem sair da sala de aula cinco minutos antes dos homens e aguardar em uma sala de espera até que todos eles tenham ido embora, essa decisão foi publicada em decreto pelo Ministério de Educação Superior. Também estão proibidas as turmas mistas. A prática de esporte em que as mulheres fiquem expostas também está impedida, de acordo com afirmação de um dos líderes culturais do Talibã, Ahmadullah Wasiq, em uma entrevista à SBS, um das redes de TV da Austrália

De acordo com Cortinhas, o grupo conhece de política internacional, inclusive, alguns membros são formados com mestrado em outros países, e percebeu que o discurso moderador seria bem-vindo.

 

“Claro que são terroristas, não são pessoas pacíficas, mas são bem preparadas para atuar politicamente e perceberam que esse discurso daria tempo para assumirem o poder e também para apaziguar as forças que seriam contrárias. Fazem esse período de transição e depois já começam a impor as decisões baseadas nas crenças e que são muito degradantes para mulheres, crianças e quaisquer cidadãos que tenham algum tipo de contraponto ”, explica.        

 

No último dia 11, preocupado com a situação, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, cobrou as promessas "não cumpridas" e fez um pedido para que o grupo cumpra os deveres em virtude dos direitos internacionais e humanitários.  

 

 
 

Saída das tropas americanas 

Em 2001, o grupo recusou ajuda aos Estados Unidos para derrubar o Estado Islâmico, responsável pelos ataques terroritas do 11 de setembro e que provocou a morte de três mil pessoas, por isso, por meio da Organização do Tratato do Atlântico Norte (OTAN)  o grupo foi derrubado, expulso pelas tropas americanas e um regime democrático foi implementado. Após 20 anos de muitas negociações, o presidente Joe Biden assinou um acordo para a retirada do exército, que foi marcada por cenas de cidadãos que tentavam imigrar para outros países. As cenas registradas no aeroporto de Cabul eram de desespero e aglomerações, como a do bebê entregue a um soldado.
 

"Infelizmente a população afegã vai sofrer muito nos próximos anos de regime talibã. Sabendo disso, uma parcela importante da população fugiu do país e aquelas cenas deprimentes que vimos no aeroporto de Cabul refletem esse medo", diz Cortinhas.  


 

O futuro do Afeganistão

 O Talibã é um grupo islâmico que defende aplicação radical da Sharia, lei islâmica que reúne orientações aos mulçumanos com base no Corão (bíblia sagrada) e nas ações do profeta Maomé. Rigorosos e extremistas, as ações tomadas pelo regime autoritário e teocrático,que se submete às normas de uma religião específica, preocupam a comunidade internacional, pois ferem os direitos humanos e impactam de forma negativa na economia. A ONU já fez um alerta sobre uma possível "catástrofe humanitária", já que o governo não está atendendo às necessidades básicas dos cidadãos.

 
 
 

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