18/10/2021 às 15h18min - Atualizada em 18/10/2021 às 14h54min

A ganância do capitalismo escrachada em Round 6: ótica moral

A série espelha com veracidade o comportamento de uma sociedade capaz de ultrapassar seus limites morais e éticos em busca de um bem poderoso, o capital

Vitoria Fontes - Editado por Andrieli Torres
Foto.: Trabalhadores retirando os corpos baleados dos participantes eliminados na arena de jogos | Reprodução.: Netflix

Um grupo de pessoas, homens e mulheres de diferentes idades são selecionados para participarem de um jogo, e o que eles têm em comum? Todos se endividaram com quantias milionárias envolvendo bancos e agiotas, portanto, passaram a maior parte vida procurando formas de conseguir quitar essas pendências; considerados como invisíveis em seu ciclo social, tornaram-se protagonistas de um cotidiano vulnerável e desesperador.

A dinâmica da competição é simples, seis dias de jogos envolvendo recreações infantis, então, nada de provas complexas, a simplicidade e inocência presente dentro das brincadeiras são o ponto alto. Dentre os 456 participantes, apenas um sairá vencedor e o prêmio é uma quantia significativa equivalente a R$ 208.845.119,58 (Duzentos e oito milhões, oitocentos e quarente e cindo mil, cento e dezenove reais e cinquenta e oito centavos). O que os participantes não sabiam é que a derrota nos jogos seria representada pela morte de cada um e não apenas uma eliminação da dinâmica, após a realização do primeiro desafio e o conhecimento verdadeiro das consequências, acontece uma espécio de votação, onde cada um iria apresentar através do seu voto se queria o cancelamento ou não daquele jogo, afinal, para restar apenas um vencedor os outros deveriam morrer. O mais interessante é que naquele momento o jogo é cancelado, porém, após alguns dias, os participantes sabendo do risco por livre e espontânea vontade retornam para a arena de jogos.

O papel principal é interpretado por Lee Jung-Jae, dando à vida à Seong Gi-Hun, conhecido por ser um homem frustrado em todos os âmbitos e sua vida, mora junto com sua mãe e dificilmente consegue ajudá-la com as despesas, pelo contrário, o pouco dinheiro que ganha acaba perdendo em apostas de cavalos. Sua relação envolvendo sua filha é bastante conturbada, se sente humilhado vendo que sua ex-esposa conseguiu se reestruturar após o divórcio e que seu atual marido oferece boas condições à família – coisa que ele nunca conseguiu oferecer - assim, tendo que lidar com a possibilidade uma mudança para fora do país, acabando com toda e qualquer chance de construir uma boa relação com a sua filha.

“Sabe o que uma pessoa que não tem dinheiro nenhum e uma pessoa que tem muito dinheiro tem em comum uma com a outra? Para as duas, viver não tem nenhuma graça, quando a gente tem dinheiro demais não importa o que a gente compre, coma ou beba, tudo perde a graça no final.” – disse Oh Young-Soo, intérprete do personagem Oh II-nam.

 

O topo do ranking da plataforma de streaming

O roteiro da série foi muito bem pensado e desenvolvido entre os anos de 2008 e 2009, esse imenso intervalo até chegarmos em 2021 e contarmos com sua estreia se deu por conta de que naquela época o roteiro era visto como sensacionalista e violento pelo mundo da mídia.

Os símbolos (○ △ □) ilustrados no cartão entregue a cada participante possui diversos significados, sendo um deles a reprodução do título coreano “Ojingeo Geim” (OJM), referindo-se à círculo (O), triângulo (J) e quadrado (M).

Além disso, as figuras geométricas desempenham uma espécie de linguagem categórica, assim, diferenciando aqueles que contribuem com o andamento dos jogos, inspirados na estrutura do mundo animal, especificamente do formigueiro onde suas funções e atribuições são claramente delineadas. Mesmo que os uniformes sejam igualitários, as máscaras que correspondem ao círculo (O) caracterizam a classe dos trabalhadores, o triângulo (△) configuram os soldados e por fim, o quadrado (□) os gerentes.

As cores escolhidas para diferenciar os soldados dos participantes são opostas dentro do círculo cromático, logo, o resultado é uma oposição entre os grupos e uma ótima harmonização visual. Este detalhe somado ao anonimato e uso de números para a identificação, nos traz a ideia de uma perca de identidade que faz referência à forma como o sistema movimenta cada um de nós.

Cada um dos jogos estava desenhado nas paredes dos dormitórios onde os participantes dormiam, esse fato só pode ser visualizado no último episódio quando havia apenas três sobreviventes àquele desafio.

As escadas coloridas e desorientadas foram uma inspiração e fazem alusão à impressão litográfica “Relatividade” de M.C Escher.

Round 6 X Reality Shows

O drama Coreano traz semelhanças significativas se comparado aos reality shows que temos dentro da programação em nossa TV; com o principal objetivo de garantir o entretenimento do público através de conflitos, desafios e superação de limites, é ali naquele cenário repleto de câmeras que cada um dos participantes lidam com situações sem filtro algum, desta forma, conseguimos presenciar a reação de uma “celebridade” dentro de situações cotidianas e essa postura passa pelo julgamento de cada telespectador, afinal, o mesmo é um peso duplo na hora de decidir o grande vencedor.

Temos milhões de exemplos de programas neste formato, talvez os mais conhecidos deles, sejam: Big Brother Brasil (BBB) reproduzido pelo Grupo Globo e A Fazenda, transmitida pela Rede Record.

A dinâmica é a mesma, uma seleção criteriosa acontece para recrutar por livre e espontânea vontade àqueles que estão dispostos a superar seus limites em pró de um bem maior: a visibilidade e o mais importante deles, o dinheiro.

É ali, naquele pequeno intervalo de dias, que os indivíduos são tentados a fazer de tudo para alcançar o objetivo final, muitos deles acabam passando por cima da imagem construída através das mídias e ao invés de sucesso, saem do reality com sua reputação manchada, assim, precisando correr atrás de reverter a situação, entretanto, há aqueles que superam as expectativas e consegue cativar o público.

Descontrole, ambição e deslealdade

Quer ter certeza como Round 6 é o reflexo do nosso entretenimento e como nós, somos os VIPS da vida real? Apenas pare e pense se em algum momento assistindo a série você se pegou na torcida por alguém? Se a resposta for sim, prazer, você faz parte dos VIPS que usam do limite do outro para entretenimento de sua própria vida.


A situação financeira de cada um, a forma como se sentiam humilhados perante a sociedade, durante muito tempo serviu como razão explicativa para todas as estratégias e performance durante as provas.

Vale lembrar que alianças foram construídas, laços de extrema confiança conseguiram em alguns momentos sobressaírem a todo aquele enredo vulnerável e mortal que os cercava, entretanto, uma das finalidades do jogo era essa: saber até onde você é capaz de ir por dinheiro, pois é, e foi assim que um grande ato de deslealdade foi capaz de quebrar uma união a partir de um comportamento baseado na meritocracia.


Um passaporte para a riqueza

Mas, me diz você, até onde iria para mudar de vida? Quanto custa a vida do outro? Uma balança onde um dos lados estão os seus princípios e continuar uma vida de miséria, e do outro temas a transformação, o capital e a visibilidade do mundo, qual você escolheria? Você embarca nesse avião tendo a possibilidade de ganhar muito dinheiro e o preço a ser pago é a vida do outro ou simplesmente dá as costas e preserva aquilo que tem de mais poderoso, você.

 


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