21/10/2021 às 22h27min - Atualizada em 21/10/2021 às 22h15min

No comum também reside o extraordinário

Rebeca Spínola - Editado por Larissa Bispo

Era início de 2021 e no mural de atividades da disciplina de Comunicação e Filosofia haviam várias demandas com atividades para serem feitas e um livro para se ler, “Meus desacontecimentos”. Antes de chegar às aulas em que a professora nos explicaria o porquê de lermos aquele livro, já estava curiosa com seu título; “desacontecimentos”,  o que havia de ser?

No fim do semestre, finalmente pude - tive tempo, essa é a verdade - de me dedicar a leitura do tal livro com título chamativo. Me realizei. Eliane Brum, autora da obra, conseguiu com maestria me prender do início ao fim. Contendo vinte capítulos, a obra é uma autobiografia na qual a jornalista conta de forma profunda e poética a importância das palavras para a sua história. Focando na sua infância, Brum rememora fatos que a fizeram ter os primeiros contatos com a leitura e a escrita, que lhe ajudaram e passaram a fazer parte da sua essência, bem como a contribuição desses fatores em sua trajetória. Por meio dos fatos relatados pela autora, a gente consegue perceber como a literatura a arrebatou, não somente moldando o seu ser, como também dando, definitivamente, rumo à sua vida

Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras além de inspirar, também faz refletir como muitas histórias estão à sombra. Quantas pessoas à margem da narrativa necessitam de um olhar sensível e uma oportunidade de serem ouvidas. Como dar voz e ter alteridade para com o outro pode salvar muitas vidas, como a da autora que, mesmo muitas vezes também desassistida, de algum modo encontrou na escrita e nas suas reportagens uma forma sensível de ver os desacontecimentos de pessoas comuns.


Ao terminar o livro, me peguei refletindo sobre a forma que Eliane foi sensível ao escrever todas aquelas histórias e me vi inspirada para um dia realizar o mesmo e, principalmente, para analisar como muitas vezes inúmeras histórias continuam desassistidas. Pude perceber, também, mesmo que ainda no início da minha jornada no curso de jornalismo, como nós, comunicadores, fazemos esse processo de seleção de notícias - do que escrever, de quem falar. Aprendemos muito sobre os critérios de noticiabilidade compostos por um conjunto de requisitos necessários para tornar a informação relevante para ser transformada em notícia. Uma relevância que muitas vezes não enxerga histórias fascinantes de pessoas comuns, muitas vezes invisíveis para a mídia e para a sociedade.


Me vejo aqui, cheia de reflexões acerca de conseguir, ao longo dessa minha caminhada no jornalismo, ser capaz de ter a sensibilidade de enxergar e ter responsabilidade com o próximo, de conseguir narrar pessoas marginalizadas pelo interesse público e midiático. Que assim como vemos uma Eliane contadora de histórias dos outros em que ela é muitas vezes personagem coadjuvante para contar sua própria história, sejamos capazes de ver que no comum, também reside histórias extraordinárias. 

 

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