02/11/2021 às 19h29min - Atualizada em 02/11/2021 às 15h59min

“Hoje é o Dia de Finados com o maior número de pessoas enlutadas no país”, lembra o Memorial Inumeráveis

Quase 2 anos, quase 610 mil mortes, quase 22 milhões de casos registrados. Quase a mãe de um amigo nosso. Num cenário onde os números e os quase denunciam o descaso no enfrentamento à pandemia, a luta para não deixar que histórias de vida virem número é certeira e tem ganhado adeptos

Irion Martins - Editado por Ynara Mattos
Reprodução / @inumeraveismemorial

Há quase vinte anos, o Congresso Nacional instituía o Dia de Finados como feriado no Brasil. Fora dos processos legislativos, a prática de dedicar um dia em memória dos que já morreram datam de muito mais tempo atrás. Ao século XI, a Igreja Católica já recomendava um dia de intercessão pela salvação das almas, promovendo uma cultura de homenagens, orações e manifestações artísticas que acontece até hoje. Aos dias 2 de novembro, esse movimento é mais intenso. Nas maiores cidades do país, ambulantes madrugam em frente aos cemitérios para garantir boas vendas no dia seguinte. Mas, como se diz por aí, nem tudo são flores.

No último dia 28 de outubro, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) já alertava para uma estimativa de quase 3 milhões de veículos circulando em direção ao interior e ao litoral paulistas do dia 29 ao dia 2. A Operação Finados, da Polícia Rodoviária Federal (PRF), visou fiscalizar os acidentes e práticas ilícitas no trânsito durante todo o feriadão, com ações preventivas focadas em pronto atendimento. Dirigir pelo acostamento, sob influência de álcool ou em velocidade incompatível são os exemplos de más condutas listados. Um ano e oito meses depois do início da pandemia no Brasil, quando o número de enlutados é o maior dos últimos tempos, os protocolos de segurança contra a covid não estão mais na lista de preocupações de alguns órgãos e cidadãos brasileiros.

"NÓS NÃO VAMOS ESQUECER"

Quase 2 anos, quase 610 mil mortes, quase 22 milhões de casos registrados. Quase a mãe de um amigo nosso. Num cenário onde os números e os quase denunciam o descaso no enfrentamento à pandemia, a luta para não deixar que histórias de vida virem número é certeira e tem ganhado adeptos. O Memorial Inumeráveis, virtual e em breve físico, é um dos pioneiros esforços em registrar a história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil.

Idealizado pelo artista Edson Pavoni, o projeto conta com as contribuições voluntárias de escritores, jornalistas, editores e gestores de todo o país. Larissa Reis, 32 anos, já fez parte de quase todos os times. A voluntária, que é jornalista com pós-graduação em Comunicação Digital e Mídias Sociais, usou o senso investigativo da profissão para entender mais sobre o projeto que viu rolar pelo feed de uma rede social em maio do ano passado.  Era o anúncio de vagas do Inumeráveis, que lhe inspirava também a uma autoinvestigação.
 

“Eu entrei para o projeto pensando no desejo de fazer algo para lidar um pouco com o sentimento de impotência que essa pandemia causa”, explica. “Não sou da área da saúde, não sou linha de frente, não sabia outra forma de poder ajudar. E eu tinha muito essa angústia de não poder fazer nada além da minha parte (de ficar em casa, respeitar o isolamento social, se tiver que sair usar máscara e tudo mais). Essa situação toda me afetou muito desde o início. Dar vazão a isso e transformar essa angústia em algo positivo e produtivo, na medida do possível, foi uma oportunidade muito interessante para mim”, completa. 

 

Larissa conta que hoje, muito além de uma experiência pessoal, enxerga o Inumeráveis como um “instrumento de memória”. A mineira lembra que, depois da pandemia, quando a realização de velórios ficou inviável, as pessoas ficaram “carentes de algum ritual para se despedir de seus entes queridos”, e que o memorial é, portanto, uma “alternativa para lidar com essa ausência”.

 

“Nós não queremos que a pandemia seja esquecida, porque nós aprendemos com o Carlos Reiss, do Museu do Holocausto, que a memória é construída continuamente. Nós também aprendemos com o Sidarta Ribeiro, neurocientista, que algumas coisas merecem ser esquecidas, sim,  porque a ideia não é ficar cutucando a ferida de quem perdeu alguém ou se sensibilizou com essa situação , mas é preciso construir essa memória para nós sabermos qual caminho seguir, para buscar um futuro melhor, enquanto sociedade.”

 LUTO E DIVERSIDADE

Considerando a missão de construir narrativas para um país tão diverso como o Brasil, o Memorial Inumeráveis preza pela representatividade nas histórias, com um olhar atento para os usos corretos do tratamento e para o respeito aos mais diversos lugares de fala. “Nós temos Conselheiros de Diversidade e uma atenção direcionada à pluralidade que permite contar melhor histórias de outras comunidades, como a indígena, quilombola, periférica, negra, LGBTQIA+ e PcD, para que essas pessoas que costumam ser invisibilizadas na sociedade também tenham sua história contada e também façam parte dessa memória”, ressalta a voluntária Larissa.
 
No vídeo abaixo, Rodrigo Lombardi narra a primeira história indígena do Memorial, do líder Wirimi Tsamia Tsamia.


 

#NÃOÉUMNÚMERO

Além de um compromisso com a História, que se faz ao passo em que ela acontece, o projeto também criou uma rede de apoio. Com o registro contínuo de textos-tributos, o Inumeráveis reuniu espontaneamente, em suas redes sociais, amigos e familiares de vítimas que conhecem e fortalecem uns aos outros, através de uma série de lives sobre a vivência do luto, leitura de histórias e partilha de experiências. São os voluntários que conduzem a maioria das lives. Larissa disse, em entrevista, que além de ter mediado algumas videoconferências ao vivo também pôde experienciar os resultados desse fortalecimento mútuo internamente. Ela recordou o caso da voluntária Cristina Marcondes, que perdeu Paulo, esposo e médico, para o coronavírus.

 

“Quando isso aconteceu, a Cris se afastou do projeto  o que é completamente compreensível . Ela precisou tomar um tempo e alguns meses depois ela se sentiu preparada para retornar e está com a gente até hoje. Eu acredito que isso mostra, de uma forma muito bonita, que para você estar no Memorial é preciso ter empatia e compaixão, que é o que a trouxe desde o início. Essa generosidade também inspira as pessoas. Ela, mesmo sofrendo com a própria perda, quis voltar e dar para as pessoas um pouco do acolhimento que ela sabe, por experiência, que o Memorial é consegue dar a quem perdeu alguém para a covid.”

O Memorial Inumeráveis continua recebendo histórias de brasileiros vítimas da covid através de seu site, onde também é possível se inscrever para ser um voluntário.

 

 


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