16/11/2021 às 00h00min - Atualizada em 16/11/2021 às 00h01min

Por que está tudo tão caro?

O que fez a inflação crescer tanto no Brasil?

Nicole Duarte - Editado por Júlio Sousa
Seu Dinheiro

Antes de mais nada, é importante compreender que inflação é o aumento geral dos preços de produtos e serviços. Quando os economistas falam que a inflação aumentou, significa que o poder de compra das pessoas diminuiu. Ou seja, para poder continuar consumindo a mesma quantidade de coisas, você precisa de mais dinheiro do que precisava antes.

O real desvalorizado encarece insumos importados e promove um aumento generalizado de preços, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra dos salários. Nos 12 meses até julho, o IGP-M, índice de inflação que leva em consideração os preços pagos por consumidores e produtores, acumula alta impressionante de 33,83%.

Mas a pergunta que não quer calar é: Por que está tudo tão caro?

Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação para os consumidores brasileiros, chegou a 9,68% no final de agosto. O valor diz respeito aos últimos 12 meses. Trata-se do maior índice em 21 anos. 

 O ano de 2021 tem sido um período de subida geral da inflação, tanto em economias emergentes como desenvolvidas (EUA cerca de 5%), mas a inflação do Brasil é particularmente alta. A inflação alimentar anual está a 13,9% em agosto, e tem sido superior a 10% por um ano consecutivo (a níveis semelhantes ao pico de 2015/16). Este aumento é parcialmente justificado pelo aumento de preços mundiais dos alimentos devido a secas e elevada demanda na China. Contudo, muitos países emergentes têm taxas de inflação alimentar muito inferiores às do Brasil (Rússia 7%, Índia 3%, Peru 6.1%, etc.) apesar da alta nos mercados internacionais. 

No caso do componente da habitação, a subida não é causada pelo aluguel como o nome sugere (inflação de 4,2%, muito inferior à média) mas devido aos grupos “combustíveis domésticos” e “energia elétrica residencial”, com taxas de inflação anual de 30% e 20%, respetivamente. No transporte, a inflação é consequência da subida de preços da gasolina e outros combustíveis (combustíveis para veículos com taxa anual de inflação de 40%). 

Apesar da taxa muito menor do que em outros momentos da história brasileira, a inflação acabou aparecendo mais em setores que cresceram com a pandemia. O grupo de alimentação no domicílio foi o grande vilão da vez, com alta de 18% em 2020 — chegando a 103% de aumento médio no preço do óleo de cozinha ou 76% no arroz, as duas maiores altas do ano entre todos os grupos do IPCA. O valor é reflexo das mudanças no consumo e puxado em parte pelo auxílio emergencial, que despejou mais de 280 bilhões de reais na economia e atingiu mais de 60 milhões de famílias.

Fatores externos, como a alta de 29,33% do dólar no ano ante o real e o aumento da demanda por produtos agrícolas no cenário internacional, também puxaram os preços para cima. “Houve no ano passado alguns ‘culpados’ para a inflação subir mesmo na crise”, diz Arthur Mota, da 
EXAME Invest Pro. “Mas é preciso separar o que foi uma questão de conjuntura, como o auxílio ou o preço das commodities, e o que realmente é um risco real de descontrole na inflação.” Entender onde realmente está o risco, e como remediá-lo, é decisivo para uma recuperação econômica sustentável no Brasil e no mundo.

Sobre a gasolina: 


Fonte: Metrópoles

Mesmo com a decisão do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) de congelar o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) por 90 dias, ainda existe a possibilidade de a gasolina aumentar de preço na bomba. Isso porque o ICMS é apenas uma parte da composição e, mesmo congelado, se houver aumento do dólar ou do preço do barril de petróleo, seu valor será maior.

Para Gabriel Quintanilha, advogado especialista em Direito Tributário e Econômico e Professor de Direito Tributário da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a medida do congelamento pode funcionar a curto prazo. Ele explica que o ICMS incide sobre o Preço Médio Ponderado ao Consumidor Final (PMPF) que, com o congelamento, não deverá sofrer oscilação. “Com isso, de imediato, é possível uma estabilização do preço, mas no médio e longo prazos não deverá ter efeito tão efetivo assim. Além do ICMS, o custo do combustível também está sendo impactado pela oscilação do mercado pós pandemia”, afirma o advogado.

Quintanilha lembra que o preço dos combustíveis no Brasil sofre diversas influências. Ele cita o exemplo do biodiesel e do álcool, que são misturados no diesel e gasolina, respectivamente, e que também precisam ter redução na tributação porque fazem parte do preço. “Além disso, nosso combustível é atrelado ao dólar e, apesar da produção nacional ser significativa, ele sofre com a desvalorização do real. E ainda temos a questão da reforma tributária, que poderia equacionar melhor a relação entre produção e consumo”.

O advogado entende que numa economia instável como a brasileira, o preço do combustível não deveria ser atrelado ao dólar. “Se o País estivesse com a economia equilibrada, atraindo capital estrangeiro e o câmbio sob controle, até faria algum sentido vincular o preço da gasolina à moeda americana para que não sofrêssemos pressões internacionais. Mas, quando não se tem absolutamente nada disso, esse vínculo contribui para o alto valor que estamos vendo”, conclui Gabriel Quintanilha - advogado especialista em Direito Tributário e Econômico - Professor de Direito Tributário da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

 

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