05/12/2021 às 17h40min - Atualizada em 05/12/2021 às 15h16min

“Eu sou o grito do oprimido que ecoa no seu ouvido enquanto você está dormindo”

Milelab abrilhantou o 20 de novembro da São Paulo Fashion Week com um desfile que mostrou não só roupas, mas o clamor do povo preto perante a negligência da sociedade

Virginia Oliveira - editado por Larissa Nunes
Desfile da marca Mile Lab no SPFW no Dia da Consciência Negra (Crédito: Amanda Rodrigues / Reprodução: Periferia em Movimento)
Entre os dias 16 e 21 de novembro aconteceu a 52° edição do São Paulo Fashion Week (SPFW), maior evento de moda no Brasil. Especificamente em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, o Pavilhão das Culturas, no Parque Ibirapuera, abriu espaço para marcas e estilistas negros. Entre os quais estava a marca Mile Lab, originada do Grajaú, bairro do extremo sul da capital de São Paulo. 

O desfile começa com luzes apagadas quando o silêncio é quebrado pela voz de Breno Luan, poeta e um dos membros do time de criação dentro da Mile Lab. Com o microfone na mão, começa a declarar: 

“Abro os meus braços para voar, assim como pipa que não se fecha nem para subir. Olho pro céu, que fica mais perto do que parece, e dedico meu sonho para cada moleque que tentou sonhar, mas não está aqui. Somos pipa voada e temos muito pra contar e destravar nesse mundo afora. Realizando sonho e sonhadores, então deixe que nós contemos a nossa história (...)”.


Vídeo com o desfile Mile Lab na íntegra (Reprodução/ Youtube - Canal oficial da SPFW)

O artista segue declamando, e como desabafo levanta questões sobre a saúde mental da população negra no Brasil, a luta diária por falta de oportunidades igualitárias e a hipocrisia que existe no sistema que ao mesmo tempo diz ser a favor da diversidade, mas não proporciona soluções para o combate ao racismo. Então, ele finaliza, repetindo diversas vezes enquanto a platéia o ovaciona: “Eu sou o grito do oprimido que ecoa no seu ouvido enquanto você está dormindo”.

Só essa abertura serviu para demonstrar que aquele não seria um desfile convencional. Em seguida, uma modelo entra exibindo seu traje enquanto dança o que é conhecido como “passinho” ao som de uma batida de funk, gênero musical que carrega em sua essência o viver da periferia e favelas brasileiras. Assim foram adentrando à passarela um por um, todos com os pés descalços, com suas singularidades no andar, no formato de seus corpos e em seus cabelos.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Post com fotos de cada modelo no dia do desfile (Reprodução/Instagram @mile.lab)
As roupas, por sua vez, fazem parte da coleção batizada de Fluxo Milenar e trouxeram peças leves e confortáveis, como bermudas, tomara que caia, capuz, com uma proposta que valoriza e revela mais o corpo. “(...) É uma coleção fundamentada no afrofuturismo, criada para falar sobre a celebração da existência dos corpos pretos e marginalizados em um futuro onde a periferia tem suas raízes culturais valorizadas e respeitadas”, declarou a marca em seu Instagram oficial.

Inclusive foi possível ver modelos com pipas grudadas em suas roupas, algumas delas com ilustrações de um artista da região do Grajaú, Cauã Bertoldo, e algumas outras traziam mensagem com dizeres como “Sobrevivi no inferno”. Até mesmo a confecção das pipas foi pensada para se interligar com todo resto, já que foram feitas por Hamilton Souza, mais conhecido como Miltão Pipas, artesão, empreendedor e morador da Vila Narcisa, também no Grajaú. Em um vídeo postado pela marca, ele diz que as pipas significam liberdade e são um dos principais tipos de entretenimento dos jovens na quebrada. “O tempo em que o moleque tá soltando pipa, ele não tá se envolvendo com coisa errada”.


O conceito “mandrake” (gíria usada para se referir a alguém que é estiloso) também foi explorado, tendo como principal acessório os óculos espelhados chamados de Juliet, e que são comuns na estética do funk.

Sem contar que alguns desfilaram com o rosto coberto e sobre isso, a idealizadora e diretora criativa da Mile Lab, Milena Nascimento, explicou e um discurso de encerramento que “hoje, camisetas amarradas no rosto, é um escudo para se proteger do que eles mais querem: usurpar de quem somos. Porque para eles, só servimos de referência, tudo o que eles querem é usurpar a nossa essência. Hoje, camisetas amarradas no rosto, representam a perspectiva da branquitude perante o nosso povo: suspeito - é como eles nos enxergam em seu imaginário”. 

Tudo foi carregado de simbolismo, identidade e representatividade, e mais do que celebrar a cultura de rua e da quebrada como se fosse um baile funk, o evento  também proporcionou de forma disruptiva mais visibilidade à uma realidade que muitos brasileiros, moradores de periferias, marginalizados pelo sistema, vivem hoje. “Como que a gente chega num espaço como São Paulo Fashion Week para falar de celebração, de curtição, de coisas boas e imaginar esse futuro próspero para gente, quando o processo dele é absurdamente doloroso”, revela Milena em postagem recente no instagram da marca. 


Chegar até lá não foi nada fácil e é importante ressaltar que, além de toda dedicação interna da equipe MileLab e da comunidade, a participação da marca no SPFW foi facilitada pelo projeto Sankofa, dedicado a racializar a moda brasileira e que foi
criado pelo coletivo Pretos na Moda juntamente com a startup de inovação social inter-racial, a VAMO. Por meio dele, mais outras sete marcas também conseguiram mostrar seus designs na passarela mais cobiçada da indústria.

"Pensei em desistir milhares de vezes (...), porém eu contei com uma rede de apoio muito potente, muito forte, de segurarem na minha mão e fazer isso acontecer. Não faria sentido chegar lá para trazer um glamour que não existe. Me senti na responsabilidade de levar a verdade, de falar o que precisava ser falado em nome de muitos", completa Milena.


 

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