07/06/2021 às 17h53min - Atualizada em 06/06/2021 às 19h13min

100 anos de Zuzu Angel: A voz de uma mãe calada pela repressão da ditadura

A estilista mineira ficou conhecida mundialmente não só pelo seu trabalho, mas também pela procura do filho, assassinado pela ditadura.

Lorena Lemos - Revisado por Mário Cypriano
Perfil de Zuzu Angel - Foto: Ronaldo Câmara / Acervo Instituto Zuzu Angel
Nascida em 05 de junho de 1921, na cidade de Curvelo, interior de Minas Gerais, Zuleika de Souza Netto se mudou para Belo Horizonte ainda na infância para ajudar sua mãe nos trabalhos como costureira, auxiliando nas despesas da casa. Mesmo quando não estava ajudando sua mãe, Zuleika costumava brincar com os retalhos que sobravam dos tecidos, fazendo roupas para suas bonecas e para as suas primas.

Daquele dom, nascia uma paixão que a transformaria em um dos maiores nomes da moda brasileira. Em 1939, foi para o Rio de Janeiro, em busca de reconhecimento na sua profissão. No ano de 1940, conheceu o americano Norman Angel Jones, com quem se casou e teve três filhos: Stuart, Hildegard e Ana Cristina. Depois de casada, adotou o nome artístico de Zuzu Angel, e mesmo após o divórcio, continuou assinando como tal.


Filho mais velho de Zuzu, Stuart Edgar Angel Jones era estudante de economia quando passou a liderar uma das várias organizações de esquerda que combatiam a ditadura militar no Brasil, instaurada em 1964. Em 1968, Stuart se casa com Sônia, que conhecera na faculdade, engajados nas causas contra a ditadura, fazendo parte do mesmo grupo protestante. Mas, o clima de lua de mel no casamento durou pouco. Apenas dois meses após a união, foi declarado o AI-5, que proibia qualquer tipo de manifestação e protestos contra o governo. Sônia foi presa depois de ser pega distribuindo panfletos protestantes. Após sua soltura, ela se exilou no exterior, fugindo de novas repressões. Stuart entrou para a clandestinidade.


Longe dos olhos do governo, começou a treinar tiro e praticar assaltos, onde declarava que o dinheiro roubado iria para a luta contra a ditadura. Em um desses assaltos, chegou a ser baleado, mas foi operado clandestinamente no Hospital Silvestre, pelo neurocirurgião Dr. Feliciano Pinto, que acabou se tornando vítima da repressão, preso por meses para explicar sobre a realização da cirurgia. Após a recuperação, Stuart voltou a praticar os assaltos. Em maio de 1971 foi pego, e segundo testemunhas, levado para o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, na base aérea do Galeão. Os militares o pressionavam para saber onde estavam seus companheiros. Começava então, a luta de Zuzu Angel para saber o paradeiro do filho, até então, intitulado como desaparecido.

Em 1973, Zuzu teve notícias de que a nora havia retornado ao Brasil e estava em São Paulo. Mas, sete meses depois, recebeu a informação de que Sônia foi morta em combate. Amigos mais próximos afirmam que ela foi torturada.

Quatro anos após o desaparecimento do filho, Zuzu não acreditava que o pior tivesse acontecido. Foi quando, na véspera do dia das mães de 1975, recebeu uma carta de Alex Polari, poeta e companheiro de Stuart na luta armada, que testemunhou 
o que aconteceu com o amigo através da cela em que estava preso. A carta continha todos os detalhes da tortura até o último suspiro.


Agora, a luta era para encontrar o corpo do filho. Zuzu denunciou os militares como culpados pelo assassinato hediondo de Stuart, colocando assim a própria vida em risco, mesmo sem saber disso. Cada passo da estilista era vigiado, mas isso não a intimidava. Sempre que tinha oportunidade, discursava sobre o acontecido com o filho e os horrores obscuros praticados pelos militares. Em seus desfiles, expunha sua melancolia através de suas peças, bordadas com desenhos infantis de flores, soldados, pipas, anjos, entre outros. Nos encerramentos, Zuzu aparecia vestida de preto com um cinto repleto de cruzes, em sinal de seu luto.
 

Na madrugada do dia 14 de abril de 1976, Zuzu sofreu um acidente de carro na estrada da Gávea, saindo do túnel Dois Irmãos, que hoje leva o seu nome. Por muitos anos, a versão de sua morte foi sustentada como perda da direção decorrente de um mal súbito, embriaguez ou possível dormência ao volante, mas sua família e amigos sempre acreditaram que era obra da repressão ditatorial. Uma carta descoberta vinte anos depois, provou que ela se sentia ameaçada:
 
”Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho.”  

Somente quarenta e quatro anos após sua morte, em julho de 2020, depois de muita luta, principalmente da filha, a jornalista Hildegard Angel, a Justiça brasileira reconheceu que Zuzu Angel foi assassinada por agentes da ditadura militar. Com a ajuda de uma testemunha, o advogado Marcos Pires, foi constatado que naquela fatídica noite de 1976, o carro de Zuzu foi jogado para fora da pista por outro veículo após sair do túnel, causando o seu capotamento. Declarada a sentença, novas certidões de óbito foram emitidas para Zuzu e Stuart, constando na ‘causa mortis’ de mãe e filho: ‘‘morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro’’. Os restos mortais de Stuart ainda estão desaparecidos.

A luta de Zuzu pela justiça em nome do filho jamais será esquecida. Sua história foi eternizada em filme, livros e música. A canção Angélica, por exemplo, foi composta por Chico Buarque em homenagem à estilista, em 1977. Em 1993, foi criado o Instituto Zuzu Angel (IZA). A ideia partiu de sua filha Hildegard, e é considerada a primeira ONG de moda do país, reunindo um vasto acervo de peças, croquis e objetos pessoais dessa brava mulher brasileira.
 
Sugestão de livro: Em Carne Viva (1988) – Romance policial brasileiro escrito por José Loureiro, que retrata a ditadura militar após o AI-5.
Sugestão de filme: Zuzu Angel (2006) – Longa-metragem dirigido e roteirizado por Sérgio Rezende. A personagem-título foi interpretada por Patrícia Pillar e seu filho, por Daniel de Oliveira.

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