31/05/2022 às 22h41min - Atualizada em 31/05/2022 às 22h28min

“No trânsito, o sentido é a vida”: saiba mais sobre o Maio Amarelo

Com o tema “Juntos salvamos vidas”, a campanha do maio amarelo tem como objetivo chamar a atenção da sociedade para o alto índice de acidentes no trânsito.

Thuany Menezes - Editado por Giovana Rodrigues
Fonte: Observatório Nacional de Segurança Viária

A cada ano, mais de 30 mil brasileiros perdem a vida em acidentes de trânsito. Estes números mostram que debater sobre a segurança no tráfego é urgente. Por isso, a campanha do “Maio Amarelo” surgiu com o objetivo de alertar sobre a conscientização e prudência no volante a fim de frear o crescimento dos números. 

 

MAIO AMARELO: entenda o que é

Com o intuito de alertar a sociedade sobre o crescimento do número de acidentes e mortes no trânsito, o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) criou o movimento maio amarelo, em 2014. A determinação do mês se deu devido ao decreto da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a Década de Ações para Segurança no Trânsito, em maio de 2011. Esta resolução tinha como objetivo a redução de mortes e lesões no período de 2011 a 2020. E o amarelo foi escolhido pois simboliza a atenção, além de representar uma sinalização de trânsito. 

 

“Não conseguimos alcançar a meta. Acumulamos uma redução entre 25% e 30% nas mortes, diminuímos a tendência ascendente nos níveis de letalidade no tráfego, e isso precisa ser observado. Mas é claro que não dá para descansar enquanto uma pessoa é morta no trânsito a cada 15 minutos no Brasil.” aponta Larissa Abdalla, a presidente da Associação Nacional dos Detrans (AND).

 

Como a meta estabelecida não foi atingida, em 2021, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou a Segunda Década de Ações para Segurança no Trânsito. Definindo, então, o período de 2021 a 2030 para que haja redução de, pelo menos, 50% de tais ocorrências. Neste ano, o tema da campanha do maio amarelo é “juntos salvamos vidas”. A ideia é mobilizar a sociedade envolvendo o poder público, empresas, associações e entidades. De forma que haja um verdadeiro engajamento nas ações e na propagação de conhecimento, além de uma forte discussão sobre o tema, visando alcançar as mais diferentes esferas presentes no trânsito. 

 

A PANDEMIA  EVIDENCIA A URGÊNCIA DA SEGURANÇA VIÁRIA

De acordo com a primeira Década de Ações para Segurança no Trânsito, 2020 seria o ano-chave para a segurança viária e o combate aos acidentes no trânsito. Porém, a pandemia do COVID-19 mudou o foco, que era o enfrentamento de acidentes viários e passou a ser o combate ao vírus. Segundo dados do WRI Brasil, são cerca de 33 mil mortes no trânsito por ano e, para cada morte, são cerca de 7 internações em UTIs no país. O Sistema Único de Saúde (SUS) acaba absorvendo essa demanda, o que gera um custo anual de cerca de R$52 bilhões, além de sobrecarregar ainda mais as UTIs que poderiam ser utilizadas no combate à pandemia.
 

As medidas de isolamento por conta do vírus foram um fator de redução de exposição das pessoas e, consequentemente, permitiu uma diminuição de lesões e mortes no trânsito. Apesar disso, com as ruas vazias, em algumas cidades, o comportamento dos motoristas piorou consideravelmente, principalmente com o excesso de velocidade e desrespeito às sinalizações. Exemplo disso está em dados divulgados por Porto Alegre e Goiânia, mostrando um aumento de 47% e 79%, respectivamente, no aumento de infrações por excesso de velocidade em relação ao mesmo período de 2019. Fora do país, houve um aumento de 35% em Toronto, e Nova York houve um dobro de multas por excesso de velocidade - que aumentou em 85% em alguns bairros da cidade.

 

IMPRUDÊNCIA NO TRÂNSITO 

Falta de atenção, uso de celular no volante, desrespeito às regras de trânsito, dirigir alcoolizado, excesso de velocidade, defeito no veículo ou na via, animais na pista, tudo isto são causas de acidentes no trânsito. Um estudo do ONSV aponta que 90% das ocorrências são por fatores humanos, o que traz o questionamento de: por que o ser humano é o grande culpado de um trânsito tão perigoso?

 

Eles querem chegar onde vai numa correria, numa pressa desnecessária (...) e agora com o preço do óleo diesel aumentando e o frete ficando a mesma coisa, aí mesmo que vão correr mais ainda pra não perderem o tempo e o dinheiro.” comenta o motorista Antônio Marcos.

 

“As pessoas não estão preparadas para o trânsito, para diminuir os acidentes seria bom que as pessoas estudassem mais as leis de trânsito para que saiam mais conscientes de casa para dirigir.” aponta o motorista Paulo Henrique.

 

“Tem muitas causas, pode ser que a pessoa não esteja 100% bem, esteja com problema em casa e desconta no volante, ou a buracada na rua (...) e outra coisa é que uma regra básica de trânsito é não cortar pela direita, e muita moto te corta pela direita, aí complica mesmo.” pontua o motorista André Luiz.

 

O que atrapalha nós motoristas é a pressa, a correria do dia a dia (...) eu enxergo muito isso, a falta de atenção, a pressa e o celular, pois de 10 motoristas que passam por você em um raio de 2km, 9 estão no celular (...) eles acham que dirigindo pode adiantar alguma coisa, mas só atrasam e, às vezes, acabam com a própria vida ou a dos outros.” destaca o motorista Daniel Saiol. 

 

Ou seja, o excesso de velocidade, o não conhecimento das leis de trânsito e o uso de celular são causas mais frequentes da imprudência viária, segundo dados do ONSV. Porém, outro fator responsável por muitos acidentes também é o uso de bebidas alcoólicas, que está aumentando cada vez mais entre os jovens, principalmente. Segundo o médico psiquiatra Ronaldo Laranjeiras, ao ingerir bebidas alcoólicas, inicialmente sentimos o efeito relaxante, que desaparece com o aumento do consumo. De acordo com a química cerebral de cada um, o álcool pode causar sonolência ou bastante agressividade.

 

Além disso, vale lembrar que tais ocorrências quando não ocasionam a morte, acarretam consequências graves. Como é o caso de Jamília Lopes, a jovem relata ter sofrido um acidente em 2009 que deixou sequelas mas que também impactou em sua percepção sobre a conduta no trânsito. 

 

Estava de moto com mais uma pessoa; a moto atropelou um cavalo, que morreu no local. O homem que estava conduzindo o animal quase não se machucou e, tempos depois, ouvi dizer que ele estava alterado devido ao uso de drogas/álcool. Já o motorista da moto teve a face quebrada (testa, maxilar e nariz) e eu caí uma distância de 6m - me contaram isso, eu não me lembro de nada. Fiquei em coma por 8 dias e a minha sequela foi Lesão de Plexo Braquial e TCE (Traumatismo Crânio Encefálico) que também deixou sequela permanente no meu membro superior esquerdo. Eu não dirijo, mas tenho consciência que direção você tem que estar atento por dois: pela sua direção e pensando na do outro também.” relata a jovem sobre seu acidente. 


ACONTECEU O ACIDENTE: saiba como agir

É natural que não saibam bem como agir durante um acidente, porém a advogada Daniela Beck Penna dá algumas orientações sobre o que fazer nesses casos. Na ausência de vítimas é recomendável que faça o boletim de ocorrência pela internet, já em casos de lesões o indicado é que se chame a autoridade policial, além de ter fotos do local, dos veículos e das vítimas. Em seguida, avisar a companhia seguradora caso o culpado tenha seguro para danos contra terceiros e, após isso, providenciar os devidos orçamentos. 

 

“É direito de toda a vítima de acidente ser ressarcido de todos os danos que lhe forem causados, como por exemplo, pagamento do conserto de veículo, ressarcimento de danos em objetos pessoais, lucros cessantes, pensão em caso de incapacidade, danos morais e estéticos, entre outros.” explica a advogada Daniela. 

 

CAMPANHAS DE CONSCIENTIZAÇÃO: será que tem efeito? 

Muito se questiona sobre campanhas de conscientização para problemáticas como essa, porém, é uma das formas mais práticas e de maior alcance. Tendo em vista que trata-se de um conjunto de ações com objetivo de promover a vida, despertando a consciência da sociedade. O gerente da Transportadora Brasimil, Marcello Torrão, comenta que, na empresa, adesivaram o parabrisa dos caminhões com o objetivo de conscientizar não somente os motoristas, mas também todos aqueles que verem os caminhões nas ruas. 

 

“De vez em quando, o SEST e SENAT vem dar algumas palestras sobre o assunto para os motoristas, mas é difícil conseguir reunir todo mundo. Fora isso, temos o curso de direção defensiva a cada dois anos, atualizando o ensino tanto para os carros de passeio quanto os de caminhão; e temos que fazer no domingo para que o pessoal consiga participar. (...) Mas acredito que os motoristas daqui são bem conscientes sim.” comenta Marcello.

 

Por isso, é perceptível que as campanhas de conscientização tem sim um efeito positivo considerável, e que a dificuldade está em ter a participação daqueles que precisam. Fica evidente também a importância de se debater o assunto para que tenhamos motoristas mais conscientes e preocupados com a sua segurança e a dos demais. Pois, como afirma o motorista André Luiz: “se todos conhecessem melhor as leis de trânsito, e fizessem a sua parte, com certeza teríamos um trânsito muito mais seguro”.

 

REFERÊNCIAS

“Maio Amarelo tem ações de conscientização para reduzir acidentes de trânsito”. Governo Federal, 2022. Disponível em: <https://www.gov.br/pt-br/noticias/justica-e-seguranca/2022/05/maio-amarelo-tem-acoes-de-conscientizacao-para-reduzir-acidentes-de-transito>

 

“Acidentes no trânsito: o Brasil é o 4º país no mundo com mais mortes”. Record News, 2022. Disponível em:Acidentes no trânsito: Brasil é o 4º país no mundo com mais mortes

 

“Acidentes de trânsito no Brasil, um problema de saúde pública”. Jornal da USP, 2019. Disponível em: <https://jornal.usp.br/atualidades/acidentes-de-transito-no-brasil-um-problema-de-saude-publica/>

“Acidentes de trânsito: saiba quais são os mais frequentes e como evitá-los”. Rodobens. Disponível em: <https://blog.rodobens.com.br/acidentes-de-transito>

MOLETA, Paulo. “As principais causas de acidentes no trânsito”. Jusbrasil, 2016. Disponível em: <https://paulocwb.jusbrasil.com.br/artigos/346024662/as-principais-causas-de-acidentes-de-transito


“ONU define Segunda Década para Segurança no Trânsito”. Portal do Trânsito e Mobilidade, 2021. Disponível em: <https://www.portaldotransito.com.br/noticias/onu-define-segunda-decada-para-seguranca-no-transito/>

RIZZON, Bruno. “Mortes na pandemia, mortes no trânsito: por que a Covid-19 reforça a urgência da segurança viária”. WRI BRASIL, 2020. Disponível em: <https://wribrasil.org.br/pt/blog/2020/05/mortes-na-pandemia-mortes-no-transito-covid-19-reforca-urgencia-da-seguranca-viaria>

 

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