08/10/2019 às 15h09min - Atualizada em 08/10/2019 às 15h09min

Estudo aponta elo entre neurônios periféricos e autismo

Cientistas observam que mutações de neurônios somatossensoriais podem ocasionar sintomas típicos do autismo

Isabelle Miranda - Editado por Thalia Oliveira
Divulgação
Em experimentos com ratos, os cientistas observaram que, quando presentes em neurônios somatossensoriais periféricos, localizados fora da medula, mutações relacionadas ao autismo geram comportamentos característicos do transtorno. Ao eliminar as falhas genéticas nas cobaias, esses sintomas desapareceram. As descobertas deram ao grupo de pesquisadores, o grande prêmio The 2019 Eppendorf & Science Prize for Neurobiology, conferido pela revista americana Science. 

Dado que os comportamentos relacionados ao autismo são muito variados e complexos, encontrar um vínculo consistente entre todos esses componentes é um desafio. Até o momento, a grande variedade de sintomas tem sido atribuída à atividade neuronal disfuncional, mas segundo os cientistas, essa visão é incompleta. Na avaliação da reatividade excessiva ao toque, a equipe partiu da informação de que os primeiros passos na percepção do toque ocorrem nos neurônios somatossensoriais periféricos, que recebem informações de todo o corpo. Dessa forma, a equipe começou a explorar a função neurossensorial desses elementos.

Para isso, provocou em neurônios somatossensoriais periféricos de camundongos três mutações relacionadas ao autismo — Mecp2, Gabrb3 e Shank3. Surgiram, então, sintomas do transtorno nas cobaias, como prejuízos sociais e comportamentos semelhantes à ansiedade.

Após retirar as mutações com intervenções genéticas, os cientistas detectaram que os sintomas sumiram. “A importância dos neurônios periféricos para o processamento do toque é algo interessante, mas o comportamento geral dos ratos com as mutações condicionais foi algo mais notável, junto com as alterações vistas na ausência das mutações”, complementa Lauren Orefice.

Segundo a pesquisadora, não existe uma explicação que esclareça completamente a relação dos neurônios relacionados ao toque com o autismo, mas ela ressalta que muitas pesquisas indicam que os estímulos sensoriais orientam o desenvolvimento e o comportamento do cérebro. Portanto, melhorar a função dos neurônios periféricos para reduzir a sensibilidade ao toque também pode ajudar a aliviar outros sintomas relacionados ao transtorno. “Esse trabalho abre as portas para possíveis intervenções médicas que atinjam o sistema periférico e provoquem melhoras mais significativas em relação aos sintomas do autismo”, reforça.

Segundo Lauren, para se chegar a uma nova classe de compostos capazes de atuar seletivamente nos neurônios somatossensoriais periféricos, é preciso definir qual perfil de paciente será beneficiado. “Precisamos determinar quais pessoas com autismo apresentam reatividade excessiva aos estímulos ao toque leve e, portanto, quem se beneficiaria com esse tipo de tratamento”, explica. Os pesquisadores pretendem dar continuidade ao estudo e investigar a atividade dos neurônios somatossensoriais em outras áreas do corpo, como o trato gastrointestinal, além de avaliar como esses fenômenos podem influenciar no autismo.

Thaís Augusta Martins, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), acredita que a pesquisa traz dados que estão em concordância com observações clínicas. “A questão da sensibilidade ao toque é algo que já sabemos em relação ao autismo. É de se imaginar que ela poderia estar relacionada a esse distúrbio, sendo assim um bom foco de análise escolhido pelos cientistas”, avalia.  A médica também acredita que os dados podem contribuir para novos tratamentos, pois são informações importantes que podem mudar o alvo do tratamento, produzindo novos remédios que poderão ser direcionados a essa área periférica e render resultados positivos ligados à  diminuição dos sintomas do autismo.

Para a neurologista, muito ainda precisa ser estudado até que novas drogas cheguem aos consultórios. “Esse é mais um passo da ciência para entender essa doença, e que pode render mais descobertas. É um tema complicado e que pode ter outros fatores com funções importantes, como a microbiota. Por isso, é necessário se aprofundar”, afirma Thaís Augusta Martins.
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