23/01/2020 às 21h32min - Atualizada em 23/01/2020 às 21h32min

Netflix no Oscar 2020

A revolução dos filmes de streaming na premiação mais importante do cinema

Larissa Alves - Editado por Bárbara Miranda

Este é o ano em que a Netflix atinge o recorde de indicações ao Oscar com suas produções. Com oito filmes concorrendo, com um total de 24 nomeações, ela sai na frente de empresas que são conhecidas por terem o maior número de indicações, como a Disney, que esse ano possui 23 indicações. A renomada empresa do streaming também chega para concorrer à principal categoria, Melhor Filme do Ano, com dois filmes originais. São eles A História de um Casamento, dirigido por Noah Baumbach, e O Irlandês, dirigido por Martin Scorsese.
 
É uma grande conquista para a Netflix, visto que somente no ano passado, 2019, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (organização responsável por eleger os ganhadores do Oscar) reconheceu seus filmes em categorias principais. Roma, indicado a dez categorias, arrecadou três prêmios, incluindo Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro. Na época, havia a expectativa entre o público de que o longa do diretor Alfonso Cuarón ganhasse a categoria mais prestigiada, a de Melhor Filme, mas os membros da Academia acabaram por premiar o filme Green Book.

Entretanto, desde 2015 a Netflix busca investir em filmes de grande qualidade. Beasts of No Nation, do diretor Cary Fukunaga, foi o primeiro  longa original da plataforma, e o primeiro a impressionar as grandes premiações, sendo indicado ao BAFTA, Globo de Ouro e ao Screen Actors Guild Awards (o prêmio do Sindicato dos Atores). Mesmo assim, o filme sequer foi mencionado na premiação do Oscar.

A Academia também é conhecida pela falta de diversidade entre seus membros, fator relacionado ao seu caráter conservador. Em 2012, o jornal americano Los Angeles Times publicou um artigo polêmico. Eles afirmam que tiveram acesso à lista confidencial de membros da Academia, e que os eleitores do Oscar são quase 94% caucasianos e 77% masculinos. Os negros são cerca de 2% da academia e os latinos são inferiores a 2%. “Eles têm uma idade média de 62 anos, mostrou o estudo. Pessoas com menos de 50 anos representam apenas 14% dos membros”, afirma o The Times.

O conservadorismo também está presente no discurso de alguns membros da Academia. “Não vejo nenhuma razão pela qual a academia deva representar toda a população americana. É para isso que serve o People's Choice Awards ”, disse Frank Pierson ao Los Angeles Times, que na época em que o artigo foi publicado, atuava no conselho de governadores. "Representamos os cineastas profissionais e, se isso não refletir a população em geral, que seja" declarou Pierson.

Primeira reunião da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em 1927 - FONTE: Hulton Archive /Getty Images / Reprodução: Los Angeles Times.
 

Outro fator que está ligado à resistência da Academia, são as regras impostas para que os filmes participem da premiação. Algumas delas chegam a ser restritivas, como a que diz que o filme precisa ser exibido em um cinema de Los Angeles, por pelo menos sete dias e para expectadores pagantes, o que atinge diretamente as empresas de streaming, e também os filmes que estão fora do circuito comercial de Los Angeles. É algo que limita a nomeação de filmes não americanos à categoria Melhor Filme Internacional (que até o ano passado, 2019, se chamava Melhor Filme Estrangeiro).

Steven Spielberg, diretor consagrado por grandes obras como E.T: O Extraterrestre e Tubarão, também já opinou sobre o assunto. Em entrevista ao ITV News, Spielberg diz que filmes da Netflix não deveriam concorrer ao Oscar, mas sim ao Emmy (premiação voltada para programas de televisão). “A Netflix simboliza um claro e presente perigo para filmgoers (expressão usada para definir aqueles que prezam por assistir filmes em grandes telas)”, afirma o diretor durante a entrevista.

Uma situação que comprova que a indústria cinematográfica já não é mais a mesma, é que o próprio Scorsese recorreu à Netflix para a produção de O Irlandês, depois de décadas tentando e os  estúdios tradicionais dizerem não poder financiar seu projeto. "Nós precisávamos fazer ume filme caro. A indústria do cinema está mudando a cada hora, e não necessariamente para melhor, muitos dos lugares que eu costumava ir para financiamento não são mais viáveis. Então começamos a falar com a Netflix" explica Scorsese durante entrevista realizada na estreia de O Irlandês, no New York Film Festival.

A 92ª edição do Oscar acontece no dia 9 de fevereiro de 2020.


REFERÊNCIAS

HORN, John; SPERLING, Nicole; SMITH, Doug. From the Archives: Unmasking Oscar: Academy voters are overwhelmingly white and male. Los Angeles Times. Disponível em: <https://www.latimes.com/entertainment/la-et-unmasking-oscar-academy-project-20120219-story.html>. Acesso em: 23/01/2020.

ITV News. Steven Spielberg on the threat of Netflix, computer games and new film Ready Player One. 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_hTTvO50QTs&feature=emb_logo>.Acesso em: 23/01/2020.

MOREIRA, Carol. OSCAR | COMO FUNCIONA?. 2018. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=hsl97NKEJe4&t=50s>.Acesso em: 23/01/2020.

BRIDI, Natália. Por que o Oscar tem medo da Netflix?. Omelete. Disponível em: <https://www.omelete.com.br/oscar/por-que-o-oscar-tem-medo-da-netflix> .Acesso em: 23/01/2020.

DE SOUZA, Ramon. Filmes lançados na Netflix não deviam concorrer ao Oscar, diz Steven Spielberg. Canaltech. Disponível em: <https://canaltech.com.br/cinema/filmes-lancados-na-netflix-nao-deviam-concorrer-ao-oscar-diz-steven-spielberg-110478/>.Acesso em: 23/01/2020.

ELLIS, Nick. O Irlandês: entrevista com Scorsese, De Niro, Pacino e Pesci. Meio Bit. Disponível em: https://meiobit.com/412353/o-irlandes-martin-scorsese-robert-deniro-al-pacino-entrevista/>.Acesso em: 23/01/2020.

Oscar 2020: confira lista completa de indicados. Veja. 2020. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/entretenimento/oscar-2020-confira-lista-completa-de-indicados/> .Acesso em: 23/01/2020.

 

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