22/08/2020 às 17h47min - Atualizada em 04/09/2020 às 13h23min

Enem 2020: Tá... Mas e o de 2021?

Por uma questão de mercado, o acesso às universidades pode ficar ainda mais difícil no novo normal de 2021

Isabella Ferreira - labdicasjornalismo.com
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“Devido à incompatibilidade de calendários, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), neste ano, não será aceito para ingresso na Unicamp”, afirmou a Universidade Estadual de Campinas no dia 22 de julho deste ano. E para não abandonar o lado inclusivo, anunciou que “as 639 vagas oferecidas pelo edital Enem-Unicamp, serão ofertadas no vestibular tradicional, incluindo as vagas oferecidas para alunos de escolas pública e autodeclarados pretos e pardos”. Decisões como esta podem se tornar bastante comuns no próximo ano letivo.
Mas por que voltar a forma tradicional de vestibular se em tempos de pandemia, a inclusão se torna cada vez mais necessária? O vestibular tradicional pode proporcionar essa ajuda?

Voltar ao tradicional ou usar o Enem: eis a questão.
"A nossa geração talvez não lembre muito disso, mas nos anos anteriores a entrada a universidade era muito mais difícil do que hoje ainda é", afirma a ex-diretora do setor de Movimentos Sociais da UNE, Vitória Genuíno. Ela fala que "uma pauta antiga do movimento estudantil à época, era o fim dos vestibulares, porque justamente esse processo de entrada abarcava apenas quem tinha possibilidade de poder se dedicar como hoje é o processo dos concursos públicos".
A volta dos vestibulares tradicionais em peso como processo único de seleção de várias universidades pode não ser um pesadelo tão distante assim. Esse assunto já estava em discussão antes mesmo do Sars-cov-2 sofrer a mutação que iria estagnar uma parte da produção das universidades. 
Em outubro de 2019, no 65º Fórum Nacional de Reitores da Abruem, realizado no Maranhão, o então presidente da Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), Rangel Júnior, afirmou que havia “uma forte tendência de diminuição de vagas, no Sisu, das universidades estaduais”. Segundo Pedro Falcão, atual reitor da UPE, na época 3 motivos estavam fazendo as universidades olharem com preocupação para o exame: aumento da evasão de alunos, insegurança em relação ao Enem e o não repasse de verbas. 
O repasse de verbas para o auxílio na permanência do estudante dentro da universidade, não era feito desde 2014, segundo o reitor. Vitória fala que com "todo o desmonte que as universidades públicas vem sofrendo como  retirada de investimento e bolsas de assistência estudantil para os alunos - porque entrar é uma batalha e permanecer é outra - mas também a falta de incentivo para as pós graduações, que é exatamente esse espaço da pesquisa, o governo quer retirar. Não só o governo atual, governos com ideologias claramente neo liberais".

É um rombo nos cofres universitários.
Esses motivos apontados pelo reitor, pioraram com a pandemia. Em um estudo conduzido pela Fundação Roberto Marinho, de 30 mil estudantes entrevistados com idades entre 15 e 18 anos, 52% afirmaram que não iriam fazer o Enem. A evasão é de fato algo custoso para a universidade, de acordo com o coordenador do setor de permanência e egresso da UFPE. 
Ele fala que “a produtividade da universidade, é o titulado. Isso quase ninguém sabe. Esse valor de titulado é através do qual o governo dá como sucesso, como cumprimento da função”. O diploma então se tornou o certificado que possibilita tanto para o  estudante quanto para a universidade o recebimento de seus salários. Mas, seguindo essa lógica, esse pagamento tem sido cada vez mais reduzido. 
De 8 milhões de estudantes matriculados em uma instituição de ensino superior, mais de 5 milhões procuravam o bacharelado. No final das contas, mesmo juntando a taxa de sucesso das instituições públicas e privadas, não chegou a 2 milhões de alunos com diploma. A desigualdade é maior quando o resultado é analisado de forma separada: dentre os 1 milhão e duzentos  de estudantes que graduaram em 2018, cerca de 200 mil, que corresponde ao percentual de 24%, conseguiram bacharelado em uma instituição estatal e 75% em uma universidade privada. 

Foi nesse momento que a mão do mercado começou a coçar.
"Existia uma indústria do vestibular. E nessa indústria do vestibular, pra você ter uma chance maior, era necessário que você tivesse uma preparação mesmo, que você fosse treinado para uma prova do vestibular", afirma o professor da rede pública estadual de Pernambuco e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas, Eduardo Nunes. Essa oferta e demanda dava resultados positivos para todo o mercado voltado para esse nicho.
E, de acordo com Alberto, "quando ampliou o número de vagas nas universidades, os resultados não estavam sendo satisfatórios” ao serem postos em comparação com os dos vestibulares tradicionais. "nos últimos 8 anos e meio só saem 51% na UFPE por exemplo. Tem sido 51% de taxa de sucesso".
Ele complementa com o fato de que "às vezes não é nem um debate ideológico, é simplesmente financeiro. Se eu tiver menos estudantes, menos professores, tenho menos gastos, mais sucesso e também o grupo fica mais seleto e mais seletivo, o nível de sucesso é maior e estamos todos felizes. Tem muitos professores e inclusive estudantes que gostariam de voltar a esse sistema antigo, acham que não tem muito sentido essa realidade atual de que não vale a pena gastar nisso, deveria reduzir o número de estudantes".

E o estado empurra ainda mais para essa divergência.
A intriga entre as universidades e o Enem só piora quando vem à tona as reformas no ensino médio, aprovada no governo de Michel Temer, em 2017. "Por conta dessas mudanças que estão acontecendo no exame, as universidades realmente podem se afastar, vendo que ele pode deixar de ser tão eficiente no que ele se propõe", afirma o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Nilson José. 
Nílson fez parte da equipe que formulou a primeira diretriz de conteúdo do exame em 1997, e comenta que ao se se aproximar mais do padrão conteudista que são os vestibulares, como o da USP, ele perdeu a sua caracterização voltada para a avaliação do ensino básico. Transformando-o em uma espécie de avaliador quem nem satisfaz o ensino básico, nem às universidades. E com as novas mudanças na base curricular do ensino médio, o Enem terá que se tornar uma prova ainda mais distante do que as universidades tomam como ideal, já que terá que avaliar um público voltado para o mercado de trabalho, e não para o ingresso ao ensino superior.

Então só terá resultado negativo?
Um contraponto apresentado pelo professor Eduardo seria o de: ao acontecer "uma substituição para aquele antigo modelo da universidade, essas instituições vão colocar cotas sociais, mas elas vão ser utilizadas de que maneira? Até que ponto esse processo de cota ele se sustenta nessa perspectiva de mercado? Vai ser por meros aspectos fisionômicos? Só o estado pode garantir essa inclusão. Se você colocar a mão do mercado, ele vai prever o lucro". Porém, como disse Alberto: "Você só vai sentir qualquer ação que você fizer, em 4 ou 5 anos. Por quê? É o tempo que uma pessoa demora em se graduar. Então você só verá esses dados, só em 4 ou 5 anos".
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