12/02/2021 às 23h59min - Atualizada em 12/02/2021 às 23h22min

O romance "Americanah" e a questão racista no Enem 2020

Gabarito divulgado sugeria que a personagem de Chimamanda Ngozi Adichie recusa alisar o cabelo por 'imaturidade'

Larissa Gomes - Editado por Andrieli Torres
Fonte/Reprodução: Companhia das Letras

Em um salão nos Estados Unidos, a cabeleireira Aisha insiste que Ifemelu alise o cabelo crespo. Recebe uma resposta negativa, já que a cliente gosta do cabelo natural feito por Deus, como ressalta. A cabeleireira não entende o porquê escolher “sofrer” ao pentear o cabelo natural, sendo que há a opção de simplesmente fazer um relaxamento.



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Essa cena resume o trecho retirado da obra Americanah da aclamada nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que esteve presente em uma das questões de Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias do Enem 2020. O que de início parecia mais um passo na luta antirracismo, o debate de um assunto tão importante e delicado na vida de uma mulher preta, mostrou-se uma polêmica que gerou revolta na internet.

A surpresa veio com a divulgação do gabarito oficial da prova que afirmava que o comportamento de Ifemelu era imaturo. Diante desse gabarito, a indignação foi: imatura por quê? Por ir contra práticas de embranquecimento e preconceito racial?

Os internautas não se calaram e foram às redes sociais cobrar uma resposta do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) em relação à alternativa indicada como correta. Contestavam o teor racista não só dessa questão, mas também de uma outra que dizia haver um aumento em anúncios para a checagem de antecedentes criminais ao pesquisar nomes predominantemente de pessoas negras nos Estados Unidos.



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Sobre a questão com a passagem do livro de Chimamanda, o presidente do INEP Alexandre Lopes, afirmou ao G1 que houve um caso de “remissão errada”. Como foi corrigido mais tarde, o trecho claramente demonstrava que Ifemelu teve uma postura de resistência, empoderando-se cultural e racialmente, o que também é visto durante toda a narrativa com a personagem de origem nigeriana passando por várias situações preconceituosas nos 15 anos vividos nos Estados Unidos.

Em um dos maiores momentos de força dos movimentos antirracistas, principalmente difundidos com o #BlackLivesMatter, não é de se surpreender que os usuários presentes nas redes se posicionem tão firmemente contra práticas racistas. O coletivo das vozes tem falado cada vez mais alto e a resistência vem conquistando cada vez o reconhecimento do negro.
 

Chimamanda: um dos principais nomes da literatura contemporânea mundial
 
Em setembro de 1977, poucos anos após o final da Guerra Civil Nigeriana, nascia no município de Enugu, Chimamanda Ngozi Adichie. Muito semelhante a alguns de seus personagens, a nigeriana enxergou nos Estados Unidos a oportunidade de dar continuidade aos estudos e lá se graduou em comunicação e ciências políticas e, posteriormente, fez mestrado em escrita criativa.

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Atualmente, Adichie é um símbolo da força feminista e um grande nome da literatura contemporânea africana com reconhecimento mundial. Em suas obras, a escritora nos apresenta cidades, nomes, grupos étnicos e detalhes de uma Nigéria não tão conhecida por todos. A partir da perspectiva de mulheres negras, nos deparamos com conflitos religiosos, imigrações, preconceito racial ou relações familiares, e, em cada texto, encontramos uma narrativa provocativa e fluida com uma abordagem real do tema.

As obras retratam em vários momentos situações com preconceito racial tanto dentro da Nigéria, onde, em alguns dos seus contos, as jovens com a pele clara eram mais populares e vistas como mais bonitas quanto fora dela, como em um outro trecho de Americanah quando o sobrinho de Ifemelu passa a estudar em uma escola só com pessoas brancas e onde é visto como um garoto agressivo.

Além de seu trabalho como escritora, Adichie leva muito de seu conhecimento às suas palestras. Uma das mais famosas O perigo da história única, traz uma reflexão sobre como múltiplas histórias perdem-se quando uma única é contada e propagada como certa.

Quando você termina de assistir essa palestra, ainda fica pensando nas inteligentes falas da nigeriana. Adichie compara a visão preconceituosa de muitos países estrangeiros que imaginam a África como um “país” pobre, miserável e cheio de doenças venéreas à visão que ela própria teve do México, enquanto morava nos Estados Unidos, com base no que lhe foi contado. Exalta a importância de haver sempre vários lados de uma mesma história, pois a pluralidade não pode ser resumida em um só relato, um só ponto de vista. Vemos isso também no conto Jumping Monkey Hill do livro No Seu Pescoço, no qual o instrutor do workshop de escrita criativa diz a um grupo de africanos que seus textos não representavam a África real, já que iam contra os estereótipos do continente.

Os conhecimentos de Adichie, tanto em livros quanto em entrevistas e palestras, mostram-se extremamente essenciais na luta antirracismo. A escritora consegue se comunicar com pessoas de todas as idades e lhes passar mensagens de reflexão e empoderamento. Chimamanda é resistência.



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