27/02/2021 às 21h36min - Atualizada em 27/02/2021 às 20h50min

Creches em São Paulo retomam atividades presenciais

Em entrevista exclusiva, a infectologista Ana Carolina afirma que crianças adquirem e transmitem o vírus em uma taxa menor que os adultos

Alexia Catherine - Editado por Ana Paula Cardoso
U.S. News & World Report
Após um ano vivenciando a pandemia do novo coronavírus, a educação brasileira retoma gradualmente as salas de aula. Fazem parte do grupo as creches de São Paulo, que envolvem crianças de 3 meses até 4 anos. De acordo com o Correio Brasiliense, no início do mês de fevereiro, o governador João Doria, o secretário de Educação Rossieli Soares, e o secretário de Desenvolvimento Regional Marco Vinholi, anunciaram que 645 municípios do estado retornariam as atividades presenciais em rede pública estadual.

“Eu precisava trabalhar e não eram todos os dias que tinha alguém disponível para cuidar dela. Além disso, o pediatra me aconselhou a criar uma rotina para incentivar a prática de atividades e diminuir a ansiedade, frequentando a creche as melhorias apareceram naturalmente.”, relembra Amanda Souza Tavares, acadêmica em administração e mãe da Ana Júlia, 3, em entrevista ao site do Lab Dicas Jornalismo.


Quando os indícios da pandemia foram anunciados, ela decidiu que sua filha ficaria em casa, algo que foi possível por conta do redirecionamento do trabalho para o modelo home office. Mesmo com os alunos em casa, as professoras encaminhavam livros de atividades mensais, com o objetivo de aperfeiçoar o desenvolvimento infantil.



“A creche é uma rotina e rotina é tudo. Temos que educar nossos filhos em casa, mas a escola amplia o universo dos pequenos. Minha filha evoluiu muito com a troca de aprendizagens”, destaca ao definir a importância das creches na vida dos pais. A ausência de vacinação e o grande volume de crianças são os fatores principais que a preocupam em relação ao retorno presencial. Os cuidados em casa vão desde álcool em gel na porta até a higienização de alimentos comprados. “Precisamos evitar falhar, pois estamos todos sujeitos a contrair a Covid- 19”, salientou. 
 
O olhar clínico sobre o momento

“As recomendações internacionais, principalmente dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças Americano (CDC), afirmam que para o retorno as aulas presenciais é necessário somar os novos casos dos últimos 14 dias, dividir pela população e multiplicar por 100.000. Se o resultado estiver abaixo de 5 casos por 100.000 habitantes, significa que o risco de transmissão é menor nas escolas.”, informa a médica Ana Carolina Gomes Pereira, infectologista pelo hospital das Clínicas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Todos esses cálculos mostram a taxa de incidência de casos na região, fator variável. Segundo Ana, as crianças pequenas transmitem menos o vírus, além de possuírem menor chance de obter a doença. “Se a vacinação fosse direcionada também aos professores, tranquilizaria muito mais os pais e mestres. Além do lado biológico, possuímos a parte social, no qual a creche auxilia no acolhimento da criança enquanto o pai precisa trabalhar, para que o mercado gire”, ressaltou.




O índice de transmissão de crianças para adultos são praticamente nulos, afinal é dentro de casa que os familiares produzem o contato com o vírus. No Brasil, não há relatos de propagação entre crianças. Observando as atitudes globais, ela aconselha ao corpo docente: “Dividam a entrada e saída em grupos, para evitar aglomeração, até mesmo de adultos. Planejem um esquema de higienização desde a porta, entrando uma criança de cada vez e troquem ou limpem os sapatinhos, além de lavar bem as mãos com água, sabão e uso do álcool em gel”.

O ideal é que a criança compareça apenas se todos a sua volta estiverem saudáveis, caso haja alguém contaminado, ela deve cumprir o isolamento. A higiene deve ser dobrada no momento de troca de fraldas e a sala de aula deve ser o mais arejada possível, evitando o excesso de objetos e brinquedos. De 3 a 4 anos, o uso de máscara é viável no trajeto da residência a escola. Para os professores, é recomendado o uso de face shield, ao invés de máscaras, para o reconhecimento das crianças, diminuindo o estranhamento após o período de um ano isoladas.

Sobre os cuidados ao chegar em casa, sugere: “Retire seus sapatos e roupas e a direcione para o banho. Os calçados podem ficar do lado de fora ou em um tapete sanitizante, já a mochila deve permanecer na entrada da casa. O básico será sempre o lavar das mãos."

A vacinação veio como um respirar para a alma de todos, porém não significa o afrouxamento dos protocolos. “Não há como comparar o status do Brasil com o de outros países, somos quase do tamanho de um continente, temos muita diferença social. As medidas de segurança precisam continuar, afinal não são para sempre, apesar de estar durando mais tempo do que todos imaginavam", destacou a infectologista.


Reabrindo as portas das creches

No início de 2020, o mundo foi pego de surpresa com o desenvolvimento de um novo vírus, que obrigou a mudanças de hábitos. No quesito educação, as universidades, colégios e escolas foram transportados para o EAD, abrindo espaço para as tecnologias. Com o fechamento obrigatório, muitas famílias estranharam o “novo normal”. “Os pais encararam a pandemia com desespero, pois a maioria precisa trabalhar e interpretam o ambiente escolar como um lugar de segurança para seus filhos, as vezes mais que sua própria casa”, conta Andreza da Silva Lopes, pedagoga e diretora do Cei Mira Orube, na região do extremo sul de São Paulo.

As reuniões da equipe de professores e gestão ocorriam por aplicativos de vídeo chamada, paralelamente o contato com os pais foi efetuado pelas redes sociais e telefone, ato que muitas vezes não aconteceu, pela ausência de acesso à internet na comunidade.“A maior preocupação dos pais não era em relação as propostas de atividades, mas sim sobre o bem estar da criança. Eles necessitavam dos auxílios que o governo disponibilizou, para alimentação própria”, informou. Pela situação de carência da população, o alcance das vídeo aulas era extremamente baixo, frustrando os professores.

Momentos em que os centros de educação infantil são interpretados como assistência, os pedagogos lutam para ensinar aos pais que não se resume a isso, mostrando o desempenho e carinho na preparação das aulas. Pensamento que desejam ser enraizado nas mentes dos responsáveis após a pandemia.

Segundo Andreza, o planejamento para reabertura iniciou com treinamentos sobre os procedimentos de higiene, acompanhamento de nutricionistas e protocolos de atendimentos à famílias, crucial para evitar aglomerações, visto que, apenas a equipe escolar pode circular pelo ambiente. Na entrada e na saída, todos são orientados a trocarem de roupas, juntamente com o aferimento da temperatura. Acessórios indispensáveis são as máscaras, luvas, aventais e álcool em gel.

Dentro da sala de aula a redução é de 25 para 8 crianças, uma por metro quadrado, medida esta adotada para distanciamento social. Caso algum funcionário ou criança apresente mal estar, é direcionado a sala de isolamento para receber os primeiros cuidados.


Sobre as dificuldades enfrentadas, ela compartilha: “Na área da educação somos muito afetuosos e como não podemos beijar e abraçar, nos sentimos distantes dos colegas de trabalho e das famílias, afinal a melhor rede social que existe é a troca de ideias presencial".

A escola segue todas as medidas de segurança impostas pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de transmitir responsabilidade para recepcionar os alunos da melhor maneira possível.

 

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