06/03/2021 às 17h17min - Atualizada em 06/03/2021 às 15h09min

Nossos amigos fictícios: interação e relacionamentos parassociais no mundo cinematográfico

Personagens de TV são ficcionais, mas o impacto deles na vida do público pode ser maior do que uma mera observação distanciada. Ao assistir séries e filmes criamos inconsciente uma relação próxima com a pessoa da mídia, os chamados relacionamentos parassociais

Beatriz Costa Rodriguez - Editado por Larissa Nunes

Relacionamentos parassociais são desenvolvidos com figuras da mídia com quem não temos interações diretas e pessoais. São personagens fictícios, celebridades, apresentadores de rádio ou tv, com os quais nos envolvemos, pois a partir de uma observação distanciada surge a admiração. A identificação com o personagem cria uma conexão unilateral por parte do telespectador.
 

O termo foi originalmente definido pelos psicólogos Donald Horton e Richard Wohl em 1956, para descrever a maneira que os usuários da mídia agiam como se estivessem em uma relação social típica com uma figura da mídia. É como se fossem amigos de uma rádio, personalidades ou personagens de TV.
 

Os responsáveis pelo termo escreveram no jornal Psychiatry que isso é uma das características mais marcantes dos novos meios de comunicação de massa (rádio, televisão e cinema), que eles dão uma ilusão de relações face a face com o artista.
 

O relacionamento parassocial pode assumir vários níveis de intimidade e a interação pode ser uma coisa única e isolada. Mesmo alguém que não seja um fã obstinado de Harry Potter, por exemplo, ainda pode gritar para Harry se virar quando vir Voldemort se esgueirando por trás dele na tela. Porém, com o tempo, a divisão entre ator e observador é apagada e passa ser construída uma conexão com um protagonista.



 

Conforme a pesquisa publicada em 2004 no Journal of Social and Personal Relationships, a sensação de perder um personagem favorito em um programa é semelhante a de perder alguém do círculo social da vida real. Logo, isso explica os vínculos que criamos, como sentir amigo dos personagens de Friends ou até sofrer e chorar com mortes em Grey 's Anatomy.

 

Na criação conteúdos de entretenimento para o audiovisual, existem estratégias que fazem com que a gente sinta mais próximo das pessoas que estão do outro lado. Uma delas, a quebra da quarta parede, que originalmente veio do teatro e ocorre quando o ator se dirige à plateia. Já nos filmes e séries, o formato é utilizado para criar mais intimidade entre os personagens e os espectadores. O personagem olha para a câmera ou conversa diretamente com o público, revelando pensamentos íntimos sem precisar se expor para os outros personagens em cena. Inclusive, existe um campo da neurociência onde afirma que o cérebro está programado para interpretar um olhar direto nos olhos como um sinal de que uma pessoa está prestando atenção.
 

Esse recurso cinematográfico consegue ser adaptado para as mais diversas narrativas como em The Office, pois quando acontecia algo muito tosco e engraçado, os personagens olhavam para a câmera do mesmo jeito que um melhor amigo olha para o outro ao dar risada por uma piada interna. Segundo uma pesquisa realizada em 1989, isso acontece pois as pessoas usam as mesmas funções cognitivas tanto no relacionamento interpessoal, quanto na comunicação mediada. Por isso, o espectador sente como se estivesse no escritório de Dunder-Mifflin junto com elenco de The office.
 

 

Fleabag a protagonista interrompe as conversas da trama para fazer comentários ou explicações, transformando o espectador em um personagem, cúmplice e consolo dos seus pensamentos.

As produções infantis também usam e abusam do recurso. Como no filme A Nova Onda do Imperador, de 2001, Kuzco conversa o tempo todo com o espectador. Dora Aventureira vai até mais longe e pede que o público a ajude em suas missões.
 

A construção de cada personagem para tornar um ser fictício em um ser pseudo-real é de extrema relevância. De maneira indireta e às vezes direta, os personagens conversam com quem está do outro lado, contam seus maiores problemas, medos, mostram defeitos, fracassos e realizações. É como se sua história fosse tão real e palpável que automaticamente gera uma ligação e apego.

Isso aconteceu com as pessoas que assistiram a série Euphoria, pois elas se sentiram amigas das protagonistas Rue e Jules. Tanto que as maquiagens típicas da série têm sido reproduzido à exaustão, se tornando uma tendência até mesmo no New York Fashion Week. Isso ocorre porque as pessoas tendem a responder socialmente de forma intuitiva a representações de outras pessoas da mídia.

 

Logo com certo tom de cumplicidade, aos poucos e sutilmente criasse essa ideia de que a audiência não é uma mera observadora, e sim uma participante. E é isso que a gente chama de interação parassocial. O processo de identificação entre a personagem e quem está observando é pensado no momento de criação da personalidade da mesma, pois, para que a trama seja envolvente e apaixonante, é necessário colocar características humanas em seres fictícios, que, com passar do tempo e ao consumir o conteúdo, o espectador cria um relacionamento parassocial com uma figura da mídia.


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