26/05/2019 às 20h14min - Atualizada em 26/05/2019 às 20h14min

Prefiro o inútil

Socorro Moura | Editado por Delane Barros
Beleza em meio ao concreto. Você enxergaria? Imagem: Pinterest

Lembro de uma vez, na volta de uma consulta médica logo pela manhã, e à época, ao utilizar transporte público, tinha a mania de fazer estratégias, daquelas que usuários de longas datas já manjam, como por exemplo, em qual lado da avenida irá pegar o ônibus mais rápido. Assim, ao adentrar no coletivo, dei de cara com o cobrador, relaxado, de olhos fechados e curtindo a música que tocava. Ele realmente estava envolvido. Parecia que aquela música de certa maneira mexia muito com ele. Não ousei interrompê-lo. Se há alguma coisa cômica nisso? Só o fato dele, quando despertou do devaneio, me olhar com a expressão impaciente de quem diz “em que posso ajudar?”. Humildemente, mas me achando inconveniente (risos) – afinal, momentos como esse não devem ser interrompidos – lhe entreguei o valor da passagem e segui sem ação, porém pensativa com o que tinha acontecido.

Não atrevi achá-lo patético ou algo similar. Só pensei em como aquela entrega parecia fazer bem a ele. Afinal, como já dizia Rubem Alves: “A vida não se justifica pela utilidade. Ela se justifica pelo prazer e pela alegria”. Isso ele conta poeticamente em uma prosa que vai ao encontro do que colocamos no cerne de nossas vidas e que de repente já não estaria na hora de nos questionar: o que valoramos de fato nos dá significados? O autor provoca inquietações ao propor que as ferramentas do nosso dia a dia -- como vassouras ou papel higiênico -– possuem sua utilidade, mas a música de Tom Jobim e poesia de Cecília Meireles não servem pra nada. Não é mesmo? Acho que o meu amigo cobrador diria que não.

A rotina e suas ferramentas dão o tom utilitário ao dia a dia. Mas quem não sucumbiu a isso, levante a mão. Quem não recorreu àquela playlist ou contemplou o pôr do sol de sua cidade, dê um passo pra trás. Se não o fez ou procurou outras “inutilidades”, às vezes, é pela falta de hábito. Lembro-me de uma vez, em um trabalho externo, na companhia de uma colega, a qual apontou para um ipê de flores roxas e externou o quanto aquilo era lindo para ela. E eu? Apática, falei o quanto não via nada demais, pois estava preocupada com a execução da atividade. Ela insinuou um pouco ácida, porém lúcida, que eu precisava me apaixonar. Aquilo não me saiu da cabeça.

Não sei o sentido que ela empregou – ou até sei – mas sabia desde aquele momento da necessidade de olhar para a vida com mais afeto, com mais paixão! Fazer uso das inutilidades, sabe? Não deixo de associar, em uma analogia mais ousada e contextualizada, da desqualificação de assuntos que envolvam, por exemplo, a filosofia ou sociologia. Ciências –  olha só –  que auxiliam a humanidade através dos tempos a questionar onde está, o que é ou para onde vai. Enfim, por tratarem de subjetividades, estão relegadas a um patamar de inferioridade. Para muitos, possuem uma roupagem de inutilidade. Concorda?

Continuo errante, observadora, sonhando, lendo muita filosofia e sociologia e, principalmente, fazendo leitura de mundo. Daquelas que envolvem colegas de trabalho e cobradores de ônibus, sabe? E que entregam um mundo inútil de prazeres e de alegrias.


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