02/04/2021 às 11h53min - Atualizada em 02/04/2021 às 11h43min

A farsa do Grindr

“Eu vi uma conversa no celular dele sobre compra de diploma, questionei e ele disse que era algo referente a processo de algum cliente”, lembra Marcos Luiz

Ana Paula Jaume - Editor: Ronerson Pinheiro
Foto/Reprodução: Unsplash/Freepik

“Eu o conheci no Grindr no final de 2019, nós nos relacionamos por pouco mais de 1 ano, terminamos no final do mês passado [fevereiro]. Só agora eu vejo que estava cego. Ele se apresentou como advogado, dizia que estava fazendo mestrado em ciências penais. Na delegacia, descobri que ele tem passagem por estelionato, identidade falsa e algo relacionado à mãe dele.” O dono desse relato é o estudante Marcos Luiz*, que mora em Itaboraí, no estado do Rio de Janeiro. O jovem foi mais uma vítima de golpes em plataformas de relacionamento. Nesse caso, o mediador foi o aplicativo de relacionamentos Grindr.
 
“Ele sempre foi muito gentil, educado, atencioso, prestativo”

Pouco depois de começar a conversar com seu futuro namorado (hoje ex), ele pensou em aproveitar as férias para ganhar dinheiro. Comentou sobre isso, então, com seu parceiro virtual, que, prontamente, pensou em uma forma de ajudá-lo. “Ele disse que o escritório onde trabalhava iria contratar temporários, perguntou se eu queria e falou pra eu enviar o currículo”, conta Marcos Luiz*, que chegou a receber um e-mail, com um contrato, de um suposto funcionário do local. Por conta da pandemia, ele poderia atuar remotamente.

Marcos Luiz* assinou, e seu pretendente se dispôs a entregar no escritório. “Eu não cheguei a fazer nada, semanas depois, o escritório faliu”, explica. “Segundo Roberto* descobriram que o rapaz responsável pela administração financeira estava desviando dinheiro”. O saldo da “empreitada”, na conta do estudante, foi de 250 reais. “Uma das primeiras mentiras que ele contou; ele sempre foi muito gentil, educado, atencioso, prestativo.”, conta.
 
Do Grindr para o Whatsapp, do Rio de Janeiro para Petrópolis
 
Depois do falso contrato, os rapazes saíram do aplicativo de relacionamentos Grindr e passaram a conversar via WhatsApp. Marcos Luiz* ainda não conhecia esse lado do parceiro. No dia 30 de dezembro de 2019, eles se encontraram na casa daquele que se dizia advogado.
 
Dia 7 o aniversário de Marcos Luiz* chegou. Para comemorar, um passeio para a casa do tio do menino. Petrópolis, cidade situada na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro. “Roberto* pagou tudo, um verdadeiro gentleman, super agradável. Comi coisa boa, vivi dias maravilhosos, voltamos e continuamos a conversar ainda mais próximos.” Passaram o Carnaval juntos no Rio; Roberto* arcou com todas as despesas de novo.
 
Roberto* falava, na época, que não estava trabalhando por causa da pandemia de Covid-19, iniciada em março de 2020. A família toda de Marcos Luiz* gostava do rapaz. “Passamos um final de semana em Copacabana: Eu, ele, minha mãe e uma amiga." Como Roberto* não estava conseguindo tirar dinheiro do banco, o estudante de Geografia pediu o cartão da mãe emprestado. Ele ainda ganhou uma câmera do companheiro.  
 
Chegou o Natal, seria tempo de festejar. Roberto* encomendou uma ceia de Natal maravilhosa e passou a data junto à família de Marcos Luiz*, que já estava desde novembro sem ir à casa do parceiro. Era sempre a mesma desculpa - estava sem Wi-Fi. Mas nesse dia 24 de novembro de 2020 o jantar teve um prato surpresa, não previsto no cardápio inicialmente. "Eu vi uma conversa no celular dele sobre compra de diploma, questionei e ele disse que era algo referente a processo de algum cliente”, lembra Marcos Luiz*. Os dois discutiram e o estudante de Geografia ouviu do namorado que tinha que confiar nele. “Realmente, pensei dessa forma e deixei pra lá, mas fiquei com uma pulga atrás da orelha.”, acrescenta.
 
Copacabana, a viagem de cruzeiro e o passeio em Gramado
 
Conversas intermináveis, Copacabana, Natal. Tudo parecia caminhar de um jeito maravilhoso. Só parecia. Surpresa! Roberto* tinha comprado uma viagem de cruzeiro para eles, que nunca se tornaria realidade. “A MSC cancelou tudo, com certeza, era mais uma mentira”, lamenta Marcos Luiz*. Mas Roberto* queria viajar, mesmo com esse contratempo. Janeiro chegou com a vontade de compensar a viagem cancelada.

Próxima parada: Gramado, Rio Grande do Sul. “Comprei a passagem, fiz a hospedagem no meu cartão, porque ele estava com problema para sacar dinheiro, mas como ele pagava sempre, não vi problema”, observa. “A gente namorava, tinha uma relação que eu não imaginava que fosse acabar tão cedo.”, lembra.
 
Um dia antes da viagem, o namorado cavalheiro disse que havia depositado no banco o dinheiro que gastariam na viagem. “Levei o meu cartão e um da minha mãe pra usar em caso de emergência; esse dinheiro que ele disse que depositou não caiu coisa nenhuma”, relata o jovem de 22 anos. 
 
Quando chegaram à cidade, ainda na rodoviária, conheceram Laila*, uma advogada de São Paulo. “Eu tinha chamado Uber e falei com ela: ‘A gente está indo almoçar, se quiser ir com a gente’”. Ela aceitou o convite, o que faria surgir uma amizade a partir disso. “Ficamos juntos durante todo o tempo (ela chegou dia 7 e foi embora dia 12), e Roberto* sem dinheiro; estávamos usando o meu cartão e o da minha mãe”, conta Marcos Luiz*. 
 
Até que o assunto compra do diploma da graduação ressurgiu. “Tive a ideia de consultar o nome dele no site da OAB, não apareceu, eu mostrei pra ele e, mesmo assim, [ele] dizia que era advogado”, expõe. “Veio com aquela coisa de que eu tinha que confiar de novo.” Um morador de Itaboraí pesquisou o nome de Laila* e o de uma prima, e ambos apareceram. Com isso, ele começou a fazer algumas conexões. “Ele não tinha fotos da faculdade, amigos da faculdade, não tinha foto de formatura, nunca tinha visto diploma dele.”, explica Marcos.
 
O estudante comenta outra situação. No aplicativo de carona logado no seu celular, havia notificações de corridas em horários suspeitos. “Minha irmã me mostrou as últimas corridas dela e realmente não tinha sido ela”, explica. Roberto* tinha a senha de acesso ao aparelho celular da mãe de Marcos Luiz*. “Acusei ele de ter usado o cartão, ele disse que era um absurdo, que se tivesse usado falaria, que eu estava maluco”, conta. “Mandou áudio pra minha mãe chorando, falando que eu estava surtando e acusando ele de usar o cartão dela, ele não queria me mostrar o aplicativo Uber”, conclui Marcos Luiz*
 
Cada vez mais real do que virtual, o conto de fadas ganharia mais um capítulo. Roberto*, que deve muito dinheiro ao hoje ex-namorado, resolveu chamar o companheiro para morar junto com ele. Marcos Luiz* aceitou. Não demorou muito para as coisas começarem a clarear. A vítima do Grindr comunicou-lhe que iria passar o final de semana na casa dos pais, dando a entender que iria sozinho. Julgou melhor recuar da ideia de morar com o namorado. “Ele começou a surtar, a falar que eu não podia deixar ele sozinho, que a gente morava junto agora”, revela. “A máscara dele já tinha caído, falei que não estava pronto para morar junto”, lembra.
 
“Fiquei com medo todos esses dias, ele tinha uma arma em casa, dizia porque era advogado criminal”, denuncia. “Ele também estava dormindo com uma chave philips do lado da cama, dizia que era pra consertar o roteador, mas ficou lá a semana inteira”, complementa Marcos Luiz*. Então, ele arrumou seus pertences, chamou um Uber, pegou a chave do portão e foi esperar o carro chegar do lado de fora, com medo de ser trancado pelo namorado. “Ele ficou insistindo para que eu entrasse, a gente conversasse, chorando, perguntando por que eu estava agindo como se ele fosse maluco.”, conta.
 
O Uber chegou
 
“Ele pegou a minha mala, saiu correndo para dentro de casa e começou a gritar falando que ia comigo. Consegui entrar, estava na parte de trás, e as janelas fechadas, só a da frente que estava aberta. Ele tentou abrir a porta de trás pela janela da frente e se pendurou no carro. O motorista do Uber até gritou com ele, falando que se ele continuasse chamaria a polícia. Eu ia para casa, mas estava com tanto medo. Decidi ir para a delegacia. Não queria ir para casa dos meus pais, porque sabia que ele viria para cá.”
 
Na delegacia
 
Marcos Luiz* chegou na delegacia desesperado e, quando se deu conta já estava fazendo o BO. Nesse meio tempo, seu pai ligou para perguntar o que estava acontecendo. Em seguida, Roberto*, que estava na casa de Marcos Luiz* (como ele havia previsto), assumiu o telefone e agiu normalmente, como se nada tivesse ocorrido, falando que o rapaz tinha sumido do nada. “Gritei tanto na delegacia, fiquei apavorado, morrendo de medo dele fazer algo com meu pai. Meu pai falou para ele ir embora, e ele foi. Na delegacia, descobri que ele tem passagem por estelionato, identidade falsa e algo relacionado à mãe dele”, lembra Marcos Luiz*, estarrecido.

Mais revelações
 
“Acho que ele estava sentindo que eu estava estranho, veio com um papo de querer ser sincero”, lembra. O estudante relata, dentre os absurdos testemunhados por ele, que Roberto* chegou a falar que não gostava da mãe pelo fato de ela ser negra e que já tinha batido nela. Um filho disse já ter batido na própria mãe. 
 
No dia em que Marcos Luiz* conversou com a reportagem, ele comenta ter ido à casa de Roberto* buscar suas coisas esquecidas lá. Ele mandou uma mensagem para Roberto*, que disse que poderia pegar com a empregada. De imediato, um estranhamento, já que, segundo Marcos Luiz*, o rapaz nunca teve empregada. “Realmente, uma mulher me atendeu, perguntei há quanto tempo ela trabalha pra ele”, conta. Fazia somente uma semana. “Falei para ela tomar cuidado, que ele deve mais de 4 mil a mim e à minha mãe. É um mentiroso, fiquei imaginando a mulher trabalhar para ele e chegar no final e [ele] não pagar.”, conta.
 
Desfecho
 
“Ele adorava Agatha Christie. Dizia que estava escrevendo um livro, nunca cheguei a ler.  [Ele] está vivendo normalmente. Eu abri o BO, representei criminalmente contra ele, estou para voltar na delegacia para conversar com o responsável pelo meu caso. Um absurdo. No começo eu estava com medo, não queria falar com as pessoas. Agora, me sinto mais seguro falando. As pessoas têm que saber o que ele é.”, explica.
 
Depois do susto, Marcos Luiz* e sua família permanecem traumatizados com tudo o que passaram. O rapaz de 22 anos passou a ter mais cuidado ao usar aplicativos de namoro, como o Grindr, para se relacionar. “Continuo usando, mas, com tudo que aconteceu, não pretendo trazer gente para casa tão cedo”, garante, também preocupado com a questão da pandemia. 
 
“Minha família sempre foi muito aberta a conhecer as pessoas com quem eu me relacionava, hoje eles mesmos falam que não querem mais ninguém aqui.”, lembra. Atualmente, Marcos Luiz* faz do seu caso um alerta: “Usei o app até pra falar com pessoas daqui de Itaboraí sobre Roberto*”, conta.
 
 
Editora-chefe: Lavínia Carvalho
 
*Nome fictício para fins de segurança

 


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