04/04/2021 às 02h25min - Atualizada em 04/04/2021 às 02h14min

Teatro híbrido: a arte em videoconferência

Na pandemia, o formato ganha público e provoca debates sobre sua permanência.

Gabrielly Ferreira - Revisado por Mário Cypriano
Bate-papo ao fim da peça "Encardidos" - Imagem: Reprodução / Naiane Gonçalves

Depois do último ato, os atores vem à frente do palco e em um movimento sincronizado agradecem, ao mesmo tempo em que as palmas ecoam, preenchendo o espaço geográfico. As luzes que dançavam junto aos movimentos dos personagens durante a apresentação se apagam, as cortinas e as portas do teatro se fecham. Esse era o dia a dia do teatro antes da pandemia.

 

É importante lembrar que esse segmento da cultura depende da aglomeração para se manter, pois há uma cadeia produtiva que gera milhares de trabalhadores diretos e indiretos pelo Brasil. Após a quarentena ser decretada em 2020, as apresentações pararam no meio, sem perspectiva de quando tudo voltaria ao normal. 

 

“Estávamos programados para fazer temporada, nos apresentamos  em Tangará da Serra, que foi abertura e não apresentamos mais. Fiquei um tempo sem trabalhar com o teatro. Peça como esta, que já estava montada, não conseguimos adequá-la para apresentações online, então ela parou. “ comenta Naiane Gonçalves, figurinista da peça "Domingo ele vem nos visitar", dirigida por Luiz Marchetti.

No início de 2020, em uma parceria do coletivo Coma a Fronteira, "Vida Provisória", uma peça composta por relatos pesoais de Edilaine Duarte, a própria atriz que a encena, ganhou um incentivo de residência artística para a execução do projeto, que teve de ser engavetado devido às incertezas daquele momento.
 

“ É complicado porque a gente já estava ali no movimento e teve que parar tudo, do nada. Foi uma coisa que na época eu senti um pouco de incerteza e ao mesmo tempo um certo alívio porque eu não estava confortável com o que a gente tava fazendo, mas deu uma certa angústia do tipo: e agora? Foi uma quebra de expectativa”, lembra Edilaine. 

Depois do choque, chegou o momento de pensar em outras possibilidades para que o show continuasse. Daí, surgiram as adequações que vão se encaixando dentro do possível para cada isolamento. Diretores utilizaram recursos como o Zoom, aplicativo de videoconferência, para criar uma experiência sensorial com o público. É o caso da peça exibida no Festival de Teatro Independente, “Convite Para Minha Festa de Aniversário”, dirigida por Kiko Marques, onde as atrizes são as aniversariantes e os espectadores são os convidados que interagem a todo momento, produzindo uma grande festa colaborativa com convidados de diferentes partes do Brasil.

 

Mas, como nem tudo são flores, pensar em uma forma de atrair a atenção do público é desafiador. Naiane, que também é cenógrafa, fala sobre as dúvidas e questionamentos que teve ao produzir uma peça digital: "Repensar essa nova forma é um desafio. Como que a gente vai sentir o teatro? Como eu posso sentir um cenário, um figurino que cause impacto no digital? Como que o que eu estou trampando vai gerar um impacto?  Isso é muito desafiador, pensar em diversas formas, textura, luz e como isso vai chegar na pessoa.” 

  


"Peguei cenas da peça e resolvi com artifícios do audiovisual, uma cena que mostra só os pés da Edilaine. A voz dela é colocada em off gravado em estúdio. Criamos várias cenas poéticas e mudamos algumas cenas que não fazem sentido em vídeo", diz Caio Ribeiro, diretor e dramaturgo de "Vida Provisória", que voltou este ano. A peçavídeo, como ele a chama, é uma forma híbrida que mistura o teatro com recursos do audiovisual. Pensar nesses novos formatos, abre um leque de opções para o fazer artístico das próximas produções, possivelmente mais acessíveis para todos.

As peças online chegaram a pessoas que não tinham contato com o teatro e que agora tem a oportunidade de experimentar um gostinho do que é essa arte. “ Eu nunca fui ao teatro físico, vamos dizer assim, mas depois que veio a quarentena eu tive a oportunidade de ver uma peça online e agora eu procuro ver uma peça ou outra quando dá porque eu gostei da experiência.” comenta Marcos Antônio, 23 anos. Apesar da pequena democratização do conteúdo, é necessário descatar que nem todos tem essa possibilidade, pois a falta de acesso à internet é uma realidade para  muitas pessoas no país.

 

O pensamento de que as adaptações contemporâneas serão o futuro do teatro gera divergência, mas é fato que este novo modo de fazer teatral é uma realidade e será mais uma forma de levar a arte até as pessoas.

 

“Considero o teatro tecnológico, não no sentido de equipamentos, mas é uma coisa que começou no consenso histórico na Grécia e está aqui até hoje, buscando os seus inúmeros tipos de possibilidades e vertentes. Tem  teatro tradicional, teatro comercial e tem o teatro do oprimido. Hoje, a gente tem a performance, temos a intervenção urbana, temos imagens em movimento, então não me assusta o futuro do teatro porque eu sinto que a gente já passou por tantas transformações que foram tão boas. Eu teria muito mais medo da gente perder o público pela falta de incentivo dos governantes“, afirma Caio.

Este modo de fazer arte serve de acalento para milhares de brasileiros que seguem em isolamento. Um formato que traz muitas possibilidades para criar e reinventar o fazer teatral. Mas, assim como o Marcos, que anseia o fim da pandemia para ir ao teatro ver uma peça de forma presencial, muitos profissionais esperam voltar aos palcos para ter esse contato direto com os espectadores, sem a interferência da tela do computador.


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