06/04/2021 às 11h51min - Atualizada em 06/04/2021 às 11h37min

Ciência, um substantivo feminino

Apesar do aumento de mulheres cientistas, elas ainda são poucas em posição de destaque e liderança

Letícia Gouveia - Editado por Letícia Agata
Thaís Schmidt, pós-doutorada na área de física. Foto: Arquivo pessoal.

Em 2020, três mulheres ganharam o Prêmio Nobel nas áreas de Física e Química. O que devia ser apenas comemorado, é visto como uma conquista também, pois há uma luta pela igualdade de gêneros na área. Em 120 anos do prêmio, com mais de 600 laureados em ciência, apenas 22 eram mulheres, representando menos de 4%, segundo balanço do jornal Estadão. A questão do Nobel representa a situação das mulheres cientistas do Brasil: um apagamento de suas trajetórias. 

Para Mariana Sombrio, professora da Universidade Federal do ABC e doutora em políticas científicas e tecnológicas especializada na história das ciências, o acesso da mulher à ciência se comparada à trajetória dos homens, é recente:
 

“Tem mais cientistas homens na história, porque as mulheres sofreram restrições sociais para poderem trabalhar fora de casa e estudar, mas mesmo as que existem acabam ficando invisíveis na história da ciência, porque falta colocá-las nos livros, falar sobre elas, olhar para espaços onde as mulheres estão presentes. Existe uma invisibilidade muito grande”. 

Representatividade e estereótipos sociais

“Não tive ninguém para me espelhar, muito menos mulheres cientistas”, conta a pós-doutorada, Thaís Schmidt, coordenadora da regional do ABCD da ONG 500 Mulheres Cientistas e professora de física. Sendo sua área muito masculinizada, Thaís sofreu diversos casos de machismo e assédio moral por ser mulher na ciência, que aconteciam tanto de homens quanto de superiores mulheres. “É quase que diário”, relata. 

A física conta que uma das primeiras barreiras é a aparência feminina:
 

“O fato de você ser mulher já é um agravante, porque você não pode ter uma aparência agradável. E com esse fato de você ser minimamente assediada, já é um pressuposto para as pessoas questionarem a sua inteligência”. 

Os estereótipos presentes no imaginário social, que associam, por exemplo, áreas de cuidado e ensino com um perfil mais feminino enquanto áreas analíticas à um perfil masculino, é outro aspecto que impede que muitas mulheres sigam a área das ciências por não verem muita representação feminina. 

Segundo o Censo da Educação Superior de 2016, as mulheres representam 57,2% dos estudantes matriculados em cursos de graduação no país. Ainda assim, este aumento não acompanhou a proporção entre homens e mulheres nas ciências exatas. Nos cursos de engenharia mecânica, elétrica e civil, por exemplo, são apenas 10,2%, 13,1% e 30,3%, respectivamente.

“A representatividade de líderes é maior de homens em qualquer grande cargo. Tem pouca representação de mulheres para se inspirar”, explica Mariana. Ela associa isso à uma desvalorização da fala e da pesquisa feminina:
 

“Existe um questionamento muito grande em relação a liderança de mulheres. A capacidade de ser coordenadora de um projeto, de ser reitora de uma universidade, de ser chefe de um departamento, na hora de acessar esses cargos elas ainda sofrem muito preconceito.”

Outro aspecto que atrapalha a ascensão de mulheres cientistas é que à elas são atribuídos os papéis de cuidar da casa e dos filhos, causando uma sobrecarga na vida da mulher:
 

“Eu conheci professores que não orientavam mulheres por causa disso, que se a mulher engravidar ela vai parar a produção, a pesquisa no meio. Mesma coisa não contratar mulheres, a maternidade também é um problema para a sociedade”, conta Thaís. 

Interseccionalidade de raça, classe e sexualidade

“A gente não pode pensar nas diferenças entre homens e mulheres sem considerar também as diferenças entre raça e classe, marcadores das diferenças que contribuem mais ainda que estas pessoas sejam excluídas desse sistema”, explica Mariana. 

Thaís conta que para as mulheres periféricas, negras, transsexuais e outros grupos marginalizados, é muito mais difícil ocupar estes espaços, pois elas têm de se provar muito mais, e, caso não aguentem a pressão da sociedade e desistam, ainda irão ouvir que sabiam que elas não eram capazes.

Uma pesquisa sobre estatísticas e gênero do Índice Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018 mostrou que apenas 10,4% das mulheres negras concluem o ensino superior, contra 23,5% de mulheres brancas. Já o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) aponta que o percentual de mulheres negras (pretas e pardas) doutoras de programa de pós graduação é inferior a 3%.

“Na ciência, assim como qualquer outra profissão, é muito importante ser aceito pelo grupo, ter contatos, ter pessoas com quem publicar junto, com quem fazer pesquisa junto. Então, enquanto esses preconceitos permanecem, as pessoas ficam excluídas de sociabilidades que são muito importantes para o trabalho. É uma ilusão a ideia de um cientista sozinho, trancado em um laboratório. Ciência é coletiva. Se não te aceitam, cria dificuldades em seu trabalho”, relata Mariana. 

Caminhos a se percorrer

Para que as mulheres conquistem cada vez mais destaque na ciência, é importante que este assunto seja debatido e que ouçam cada vez mais especialistas mulheres. Para Thaís, que coordena a regional do ABCD da ONG 500 Mulheres Cientistas, o assunto deve ser discutido principalmente com os adolescentes para mudar a mentalidade dos meninos e inspirar as meninas. Trazer referências de cientistas mulheres desde os ensinos fundamental e médio e divulgar a ciência acessível, são ações que a ONG executa. 

Mariana ressalta a importância das políticas públicas específicas para as mulheres:
 

“A gente sabe que pode fazer o curso que quiser, trabalhar com o que quiser, mas a gente consegue? Faz quantos anos que isso está liberado e a gente não está chegando lá? Então precisa de política pública, precisa de incentivo, precisa de trabalho educacional em cima disso.”


A representatividade também é essencial para que as meninas se enxerguem ocupando espaços ditos masculinos e de liderança.


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