09/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 09/07/2021 às 00h01min

SUÉLLEN FALA, MAS ESTÁ QUIETA

Emanuele Almeida - Editado por Júlio Sousa
Primeira semana de junho. Por volta das 19 horas eu a vejo na Avenida Gustavo Maciel, em Bauru. Sentada em um banco. Pequena. Em silêncio. Ela me olhou de forma tímida enquanto eu apontava meus olhos míopes extremamente abertos para verificar se era ela mesmo.
 

Naquele momento me veio uma frase que ouvi muito enquanto era menor: “os mais quietinhos são os que fazem o maior barulho”. 

 

Foi um choque ver a quietude de Suéllen Rosim comparando com a jornalista que acompanhava no noticiário local - muitos dizem que sua eleição foi, em grande parte, baseada em sua carreira como profissional da mídia.

 

“Uma jornalista como prefeita”, analisei quando assisti a sua posse. E “como ela é frágil” pensei quando a vi na rua. Vulnerável, assim como qualquer mulher em uma avenida ao anoitecer. Frágil. Mulher. Jornalista. 

 

“Quantas peças de Suéllen se encaixam com as minhas e de outras mulheres?", questionei finalmente. A resposta veio em seguida, sem rodeios: “Muitas, se não fosse o resto”.

 

O resto

 

Bauru vive tempos difíceis, politica e sanitariamente falando. Então, ver a prefeita sentada, sozinha em um banco de uma avenida movimentada é tentador. Quis me aproximar, conversar e entender como é ser a primeira gestora negra de uma cidade de aproximadamente 400 mil habitantes em meio a uma pandemia, mas não o fiz. Todo mundo merece um tempo sozinho. 

 

Voltei para a casa pensativa. Contei para todos que encontrei na rua Suéllen Rosim! Mas frente a tudo o que acontece na cidade, não me parecia um acontecimento bom. 

 

Nos seis meses da nova gestão, Bauru perdeu mais de 1000 habitantes. Não há leitos o suficiente. Não há restrições o suficiente. Os bares são fechados, mas igrejas lotadas continuam abertas. O povo pede ajuda, mas Suéllen parece não escutar. 

 

A prefeita, temente a Deus, glorifica-o com sua voz. Mas canta tão alto em cultos dentro de templos cheios, que não ouve o povo bauruense clamando por ajuda e cuidado no combate à pandemia. 

 

Se não fosse o resto, Suéllen, nossas peças se encaixariam. 

 

A oposição

 

Para aqueles contrários ao seu governo, Suéllen pode ser considerada um “efeito onda” na eleição. Sua aparição e ascensão na cidade pelo PATRIOTA se deve em grande parte pelo seu jogo político de outsider - a prefeita não é residente de Bauru e sim de Birigui, também no estado de São Paulo - e por ser uma escolha “calma” dentro da polarização política entre os outros dois candidatos. 

 

E a frase que ouvi mais nova se confirma. Suéllen, embora quietinha, fez barulho após a eleição quando sua associação ao presidente Jair Bolsonaro e à outras popularidades de direita - vide Luciano Hang, Major Olimpio e o ex-Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles - demonstraram a sua inclinação conservadora e combate às medidas de restrição impostas pelo governo de São Paulo. 

 

A partir disso, a prefeita se tornou palanque para escândalos e manifestações juntamente com a comunidade empresarial e religiosa de Bauru que visa a abertura total do comércio e das igrejas, um confronto direto com a política do governador do estado, João Dória (PSDB).

 

A blogueirinha 

 

“A chamamos de blog-girl”, diz a vereadora Estela Almagro - um apelido comum no meio legislativo bauruense. E, de fato, é mais fácil notar a presença de Suéllen nas redes sociais do que em sessões na Câmara Municipal.

 

O legislativo bauruense pede atenção à gestão da pandemia, em que escolas continuam abertas mesmo com suspeitas de professores contaminados sem nenhuma política de contenção nas instituições. 

 

Os pedidos de verbas para a aquisição de leitos aumentam, mas as restrições para evitar o contágio diminuem. “É o mesmo que comprar cadeiras de rodas em um surto de poliomielite", analisa a vereadora. 

 

A Câmara também solicita atenção aos meios de transporte público lotados e empresas de call center funcionando normalmente com uma média de 3 mil funcionários circulando pela cidade de Bauru. 

 

Mas, frente a isso, Suéllen decidiu gravar um vídeo para o Facebook. 

 

Os apoiadores

 

A prefeita se tornou temida na política bauruense. Apesar de inexperiente, tem uma boa base dentro da Câmara que se submete às suas vontades e não critica as suas constantes faltas às audiências públicas. 

 

Mas assim como ela, a sua base é quieta, serena e calma. Sem muitas manifestações públicas a favor ou contra sua gestão. De certa forma, eles a deixam brilhar enquanto a brasa do seu governo ainda não se apaga. 

 

Porém, há burburinhos de que as ações de Suéllen estão diminuindo seu número de apoiadores. Afinal, quando Bauru se torna um centro de contágio dentro do estado de São Paulo, espera-se atitudes concretas do executivo. Mas, pelo visto, a serenidade da prefeita frente a isso é inquietante e revoltante até mesmo para a sua base. 

 

De jornalista para jornalista

 

“Ela não merecia aquele tempo sozinha”, pensei. 

 

Neste período em que vivemos, é essencial que autoridades públicas não fiquem paradas, quietas e serenas. Bauru vive um momento extremamente difícil e, frente a isso, a ineficiência de uma gestão tem gravíssimas consequências. 

 

Por isso pessoas saem pelas ruas pedindo a saída de Suéllen: sindicatos, uniões estudantis, indígenas, servidores públicos unem suas vozes para pedir socorro e marcham pelas ruas para chamar a sua atenção, mas ela se nega a ouvir. 

Manifestação em Bauru dia 03.07 - IMAGEM: Emanuele Almeida

 

De certa forma, é possível ver que só aquele que carrega a faixa presidencial consegue garantir o interesse da prefeita.

 

Agora, quando passo em frente àquele mesmo ponto na Gustavo Maciel , desejo que ela esteja lá novamente. Quieta e serena. Eu não só a encararia como sentaria ao seu lado e faria perguntas que, analisando sua atual situação, não teria certeza que acharia as respostas, mas, como é meu dever, teria que perguntar.

 

Porém, me encontro assim como Suéllen: quieta. E, analisando friamente, concluo que uma de nossas peças se encaixaram, finalmente. 


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