22/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 22/10/2021 às 00h01min

Crianças expostas ao estresse intenso e duradouro podem desenvolver doenças a longo prazo

Entenda a importância de observar os sinais e quando procurar tratamento médico

Ludmilla Dias - Editado por Júlio Sousa
O estresse tóxico na infância pode resultar em uma geração de adultos doentes. Reprodução: NDmais

Ao longo da vida as pessoas são expostas a diferentes situações que despertam sentimentos como felicidade, tristeza, raiva, frustração e decepção, que podem resultar no estresse. O estresse é quando essa exposição a uma situação de tensão ativa o sistema neuroendócrino, liberando adrenalina e cortisol, elevando a frequência cardíaca, a pressão, dentre outros sistemas do corpo, explica a pediatra, Patrícia Consorte. Com as crianças não é diferente, elas também lidam com todas as sensações citadas acima e, caso sejam expostas ao estresse prolongado e intenso sem acompanhamento médico adequado, podem tornar-se adultos doentes. 

 

Na infância, os três tipos de estresse mais comuns são: de grau leve, tolerável e tóxico. O primeiro, que também é conhecido como estresse positivo, tem duração mais curta e é possível ser controlado pelas próprias crianças. No segundo caso, os sintomas são mais intensos e duram mais tempo, podendo impactar o sistema neuroendócrino, responsável pela produção e liberação dos hormônios que mantém o equilíbrio do corpo, mas pode ser lidado com a ajuda dos pais. O último é considerado o mais grave de todos, pois as crianças perdem a capacidade de se autorregular e com a alta liberação de cortisol - hormônio que ajuda a controlar o estresse, reduzir inflamações e  manter os níveis de açúcar no sangue, assim como a pressão arterial -, ficam com o desenvolvimento neurocelular comprometido, o que pode resultar em doenças como obesidade, diabetes, depressão e ansiedade. 

 

Consorte escreveu um artigo sobre o estresse tóxico, onde explica que ele pode ter origem por diversos motivos, os mais comuns são a violência doméstica, abuso na infância, negligência, exposição à extrema pobreza, estupro, criações inflexíveis e, até mesmo, a sobrecarga de atividades, sem que tenham tempo para brincar.
 

"As crianças já podem ser expostas a ele, inclusive  no ambiente intra-uterino, quando, na gravidez, as mães vivenciam os mesmos problemas ou similares, como violência doméstica ou excesso de trabalho. Como resultado, os sintomas mais presentes nas crianças submetidas a um contínuo estresse tóxico são choro intenso e irritabilidade em bebês pequenos, maior agressividade nas suas ações ou palavras, dificuldades no aprendizado, introspecção e piora na qualidade do sono. São muitas possibilidades e, nos últimos anos, vêm aumentando o número de jovens com tais problemas", diz.


Já o estresse positivo tem causas em momentos cotidianos e que são rapidamente esquecidos, como um joelho ralado ou perder um brinquedo querido. E o tolerável em situações mais duradouras, como a doença de um parente próximo. 

 

Segundo uma pesquisa do projeto Fique Bem realizada ano passado, quase 60% das crianças demonstraram um nível alto de estresse após o início da pandemia de covid-19. A necessidade do cumprimento de medidas sanitárias para evitar a disseminação do vírus e reduzir o número de contaminados e mortos obrigou a adoção do uso de máscara, distanciamento e isolamento social. Com escolas e parquinhos fechados, além da ausência dos colegas e amigos, as crianças deixaram de ver familiares. E com o registro de 600 mil mortes no Brasil, muitos deles podem ter vivenciado o luto. Após um ano e meio, a vacinação já contemplou, em alguns estados, como São Paulo, Fortaleza e o Distrito Federal, jovens a partir dos 12 anos. As atividades estão voltando de forma gradual, os espaços reabertos e as aulas presenciais já foram retomadas. Porém, os danos causados pelo período poderão ser desenvolvidos ao longo dos próximos anos.          

 

Apenas com acompanhamento médico é possível conseguir tratamento apropriado. A presença do pediatra é fundamental e deve ser constante, pois a função dele é entender a rotina da criança, conversar com os pais e dar instruções sobre os principais cuidados com o filho. Além disso, ele também deve analisar a mãe para entender se ela enfrentou depressão pós-parto, excesso de trabalho ou sofreu violência de qualquer tipo no período da gestação, por exemplo. Outros familiares que vivem com o jovem diariamente, como pai, irmãos, avós ou tios também passam por avaliação, se for necessário. Toda mudança abrupta no comportamento do paciente deve ser informada e contar com orientação complementar de um psicólogo especializado para toda família. 

 

Para prevenir, os familiares devem ficar atentos ao ambiente no qual a criança está inserida, com quem ela se relaciona, desde parentes até vizinhos, e quais atividades ela está desenvolvendo.
 

Prevenir é obrigação de toda a sociedade, e seremos um país mais próspero quando todos enxergarem que temos que começar pela infância. Temos que melhorar a saúde básica, garantir moradia adequada, acesso à boa educação, alimentação de qualidade, realizar uma suplementação nutricional de qualidade, reduzir os índices de violência doméstica, permitir que as crianças brinquem e sejam crianças, tenham contato com a natureza, sintam-se seguras”, afirma Consorte.


Ouvir o que os jovens têm a dizer também é importante, pois eles podem expressar o que estão sentindo e como estão lidando ou não com isso. 

    

 


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