25/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 25/10/2021 às 00h01min

Um parto humanizado requer uma sociedade humana

Esse conceito é novo para você? Saiba que o debate vai além da comparação entre parto normal e cesárea. Na verdade, até mesmo superou essa interpretação binária

Bruna Villela - Editado por Júlio Sousa
Banco de Imagens/Unsplash: @itfeelslikefilm

Recentemente, a busca por um estilo de vida mais saudável e integrado tem atraído muitas pessoas. Esse movimento também pode ser percebido quando pensamos nas formas de se vir ao mundo, ou melhor, de uma mulher dar à luz. Estudos científicos já indicam os benefícios que nascer em um ambiente acolhedor e na hora certa - sinalizada pelo início do trabalho de parto - promovem nos seres humanos. 

Com essa definição, descarta-se a ideia de que um tipo específico deveria ser adotado ao invés de outro. Assim, entendemos que um parto humanizado não precisa ser necessariamente normal, da mesma forma que um parto normal não é sem dúvidas humanizado. Afinal, o que caracteriza a classificação é a segurança e saúde de todos os envolvidos, priorizando a mãe e o bebê. 

A noção receptiva que o termo humanizado traz é capaz de impactar a família durante a preparação e recuperação do parto, incluindo até mesmo a equipe de profissionais comprometidos. Em meio a mitos e verdades, veículos de informação e o Ministério da Saúde se manifestam a respeito. Porém, ouvir de quem vivencia na pele as inquietações compreendendo o nascimento humano - seja enquanto protagonista ou nos bastidores - permite, ainda mais, enxergar além do senso comum. 

Bastidores

    A médica ginecologista e obstetra Fernanda Barão Vaz percebe o parto humanizado enquanto “busca por adequar o ambiente hospitalar para um olhar mais natural ao processo do nascimento”, levando em conta o contexto social, as expectativas e os desejos da família. Ela afirma que toda mulher merece um parto humanizado, “já que humanização nada mais é do que atualização técnica para decisão da via de parto adequada a cada caso e também em respeito ao indivíduo como ser integral.” 

"Viver é um risco, não é mesmo? Precisamos estar sempre ponderando qual o melhor caminho para cada caso”

    Fernanda defende a prioridade do parto natural baseada em evidências científicas, que garantem segurança aos pacientes e também funcionam como “guia para a tomada de decisões em realizar ou não algum procedimento/intervenção no ciclo gravídico-puerperal”. Em quase 10 anos de atuação na área, ela conta que antes mesmo de participar de eventos sobre a temática e de trabalhar em rede com profissionais que compartilham da mesma filosofia de atendimento, acredita que já aplicava a abordagem humanizada.

Com a democratização do acesso ao conhecimento, a procura pelo parto humanizado tem aumentado, fato que ela indica ser uma preocupação: “acabamos caindo em uma lógica de mercado pura e simples e perdemos, novamente, a essência do modelo humanizado de atendimento que é a autonomia da mulher e esta como o centro da assistência”. Além de comentar que, mesmo com a maior exposição do tema nos últimos anos - como a criação da Rede Cegonha -, não há difusão expressiva dessas informações a todas as mulheres. 

“No Brasil, hoje, pratica-se um parto violento a fim de vender a cesariana como a salvação. E essa está longe de ser a verdade para a maioria dos casos”

Pensando nos desafios para a implementação integral do parto humanizado no país, a obstetra cita a desinformação - que imagina poder ser superada a partir de uma mudança cultural ao longo do tempo - mas que já começou: “esse é um movimento das mulheres que têm exigido a mudança do sistema, por perceberem que gestar e parir é um processo natural, benéfico e seguro para mãe e bebê”. E complementa: “Os profissionais que estão com a agenda organizada para a realização das cesarianas desnecessárias e recebendo por elas não fazem questão dessa mudança”. 

Protagonismo feminino 

A arquiteta e urbanista Mayara Carrasco está nos últimos meses de gestação e conta que não teve dúvidas ao planejar um parto humanizado: "Nunca pensei em outra possibilidade, é essa relação que eu quero com minha filha Olívia: humanizada, de afeto, respeito e carinho” e afirma que a humanização do parto é praticamente um direito da mulher e deveria ser um processo respeitoso e seguro às pessoas envolvidas.  

Mesmo antes de pensar em ser mãe, ela diz que sempre teve curiosidade de entender o conceito -  pensando em questões de equidade de gênero e feminismo - e, após um contato com Doulas de sua região, foram as redes sociais que facilitaram o acesso à informações sobre o assunto. Após saber da gravidez, já tinha consciência que queria um parto humanizado e normal, então, queria encontrar uma equipe médica que compactuasse com suas escolhas. 
 

“Muitas mulheres são enganadas no processo de gestação por não ter conhecimento e confiar cegamente em profissionais voltados a procedimentos cirúrgicos cesaristas sem necessidade. A gente sabe que a cesárea é muito importante e salva vida, mas precisa ser corretamente indicada”

  Somado a ter o conhecimento necessário, contar com apoio e compreensão das pessoas próximas é fundamental nesse momento de anseios e incertezas. A relação com seu marido, Vinicius Proto, foi muito positiva nesse aspecto: “Quando fiquei grávida ele buscou entender melhor o que o conceito significa, seja por meio de vídeos e documentários”, além de conversas que o casal teve ao longo da gestação para compreender os melhores, mais seguros e humanos caminhos que poderiam traçar na gestação e nascimento, compartilha Mayara. 


 

O suporte que a arquiteta está recebendo também vem com a equipe médica, a recomendação foi de realizar um processo humanizado, “em que a Olívia saberia a hora dela de nascer e eu estaria preparada para um parto mais natural possível”, diz. Outra informação importante foi passada aos futuros pais: as intervenções, conforme vão acontecendo, dificultam cada vez mais a concepção natural. O ideal é que a gestante fique em casa - um lugar seguro e tranquilo - até que o trabalho de parto esteja evoluindo o suficiente para que possa ir ao hospital, no momento certo.

 Além da presença de uma doula e uma obstetra em casa, Mayara afirma que no hospital tem um ambiente seguro e confortável garantido, diferente de um centro cirúrgico: “um quarto, com poucas pessoas circulando no local, luzes mais baixas para ajudar a entrar no clima, apenas pessoas de confiança ao redor, músicas, massagem, palavras de acolhimento”. E complementa: "não significa que não vai doer, mas que não vai ter sofrimento, com muito amor envolvido, acolhimento e entrega”. 

“Minha grande preocupação era ter uma equipe que realmente apoiasse o parto normal e que fosse humanizada. Não queria ser surpreendida ao final da gestação com pressão ou desinformação que me levasse a tomar a decisão incorreta de uma cesárea” 

A respeito do estigma que o termo apresenta, ela percebe a confusão ao conversar com as pessoas ao seu redor: “Tento sempre orientar, na medida do possível. Não estou aqui para educar ninguém, mas compartilho as informações que tive o privilégio de acessar!”. Um exemplo que ela traz é a intervenção pela aplicação de analgesia ou injeção de ocitocina que acaba desacelerando o processo de parto; ou seja, tudo fica mais longo e cansativo e, em razão da dor e da pressa, a mulher desiste. 

Sobre essa questão, Mayara sinaliza a perda da potência e autoconfiança feminina: “entendo hoje que a mulher ainda toma essa decisão pautada em informações erradas, mitos e, especialmente, no medo de não conseguir. Paramos de acreditar que somos capazes e feitas para isso”. Ela ainda cita o exemplo da geração de avós, em que a maioria dos partos foram normais e domiciliares, e mesmo sem toda a assistência e tecnologia atual, acontecia como tinha de ser. 

“Tenho percebido e refletido cada vez mais que quem deve tomar essa decisão de como deve proceder um parto é a mulher, porque ela é a protagonista nesse momento e deve ser respeitada independente da escolha. Essa mulher foi uma guerreira de qualquer forma e pensou o melhor para seu filho”

    Por fim, ela aponta a importância de escolher, embasada em conhecimentos corretos e concretos, para que seja uma decisão consciente, sabendo quais são os benefícios e os malefícios de uma cesárea, bem como do parto normal. A conveniência e praticidade do parto cirúrgico se restringe ao médico e algumas vezes para a mãe, mas não para o bebê que “não escolhe sua hora de nascer e não passa pelo canal vaginal que traz todos os benefícios que a gente já conhece", finaliza.

Questionamentos 

Pós-graduada em Gestão de Qualidade, a especialista em Renascimento e Pré-Escola Uterina Marinélia Leal declara que a cesariana é o melhor tipo de parto que existe: “Isto dito por uma pessoa que trabalha com renascimento, parto humanizado, com uma chegada na vida harmoniosa de um bebê, deve te surpreender”. Após duas décadas atuando como profissional na área, ela diz que passou a considerar outras perspectivas e sua visão se ampliou. 

“Hoje eu reconheço que com a chegada do bebê, a vida é um fato a se comemorar e, a honrar esse ser que chega para entrar na vida e viver toda a sua jornada. Também devemos honrar a mãe que sai do parto saudável e inteira, pronta para acolher quem tanto precisa dela” 

No início do seu trabalho, acreditava que o único parto considerado bom era aquele que acontecia na água, com o tempo passou a repensar se a forma como uma criança chega à vida é relevante e se está diretamente relacionada com os tipos de mães em uma sociedade. Ela ainda acrescenta que o sucesso acontece quando “Uma mulher disposta a trazer um ser à luz consegue completar essa jornada saudável e pronta para cuidar do seu filho”. 

    Marinéia sugere a reflexão sobre o apoio e acolhimento humanos que os pais precisam receber antes, durante e depois do parto: “Quando você refletir sobre parto humanizado, pense primeiro em uma sociedade humanizada, porque quando a sociedade estiver equilibrada e saudável, os partos serão todos humanizados”. E opina que, enquanto a sociedade não viver essa realidade, não adianta discutir sobre qual seria o melhor ou pior modelo de concepção. 

“Somente quando tivermos essa humanidade, todos os profissionais envolvidos serão humanizados: o obstetra, a enfermeira, a doula, a parteira, o anestesista, a mãe, o pai, até o processo de dor será humanizado. Aí sim esse será um parto humanizado”. 

 
 

 

 

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