21/11/2021 às 20h09min - Atualizada em 21/11/2021 às 18h36min

O desemprego que assola o país atinge, em especial, os mais jovens

Jovens entre os 14 aos 24 anos têm dificuldades em ingressar no mercado de trabalho por exigências excessivas e falta de oportunidades

Bianca Lourenço - Editado por Ynara Mattos
REPRODUÇÃO/FREEPIK/yanalya
Torna-se cada vez mais evidente que a taxa de desemprego que assola nosso país atinge a todos, não importando a cor, gênero ou idade. Esse é um assunto que abrange desde aos que estão desempregados até mesmo aos que ainda não tiveram oportunidades de ingressar no mercado de trabalho.

Em uma pesquisa publicada em 27/5/21 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) os índices mostram que, dos grupos de pessoas entre 25 e 39 anos obteve um percentual de 34,6%. Já os mais jovens, dos 18 aos 24 anos, o percentual foi de 29,0%, apresentando-se superior ao que era esperado nesses grupos etários.

Mesmo o número sendo alto, o IBGE ainda apontou que houve uma queda de -0,5 ponto percentual comparando-se ao trimestre anterior. Além disso, também foi mostrada uma queda de -5,1 pontos percentuais em comparação ao primeiro trimestre de 2020, período em foi declarada a pandemia de COVID-19 no Brasil.

Voltando em 2021, a análise ainda mostra que, no primeiro trimestre, 11,1% eram jovens de 18 a 24 anos. Já os mais novos -entre 14 e 17 anos- a taxa foi de 1,2%. Entretanto, essas taxas já foram maiores nos anos anteriores. Por exemplo, a taxa já chegou aos 3,0% em 2012, mas foi abaixando gradativamente conforme o passar dos anos, mas ainda assim, podemos considerar um índice alto. Em 2020, o percentual de jovens entre os 18 a 24 anos foi de 12,0%.

Felipe Calbucci, Diretor de Vendas do Indeed no Brasil, há alguns pontos a serem observados sobre esse tema. Fiz algumas perguntas e ele nos trouxe suas colocações:

Quais as principais características entre os jovens que os mantém fora do mercado de trabalho?

Felipe Calbucci:  O mercado de trabalho hoje é extremamente competitivo e temos que pensar que os jovens de 16 a 25 geralmente estão se formando e prestes a entrar no mercado pela primeira vez. Como estamos passando por um momento delicado da economia também, eles já entram competindo com muitas outras pessoas que provavelmente já têm alguma experiência e também estão desempregadas. Mas, além disso, principalmente os jovens da Geração Z podem ter algumas características que não necessariamente são o motivo deles estarem fora do mercado, mas que podem influenciar e às vezes fazem com que eles não queiram, por exemplo, o modelo tradicional de trabalho ao qual estamos mais acostumados.  

Em geral, jovens da Geração Z tendem a ser menos tolerantes com ambientes autoritários e valorizam a flexibilidade. Além disso, como nativos digitais, eles são preparados para aproveitar esse conhecimento para criar oportunidades para si próprios, tendendo a partir para o empreendedorismo.

O que os fazem sentir receios quanto ao mercado?

F.C.: Atualmente, os desafios são múltiplos. Estamos em uma situação difícil devido à pandemia e a tudo o que ela trouxe consigo. Os jovens estão enfrentando um mercado de trabalho em recuperação e em lenta retomada. É verdade que muitas empresas desapareceram e muitas outras tiveram que reduzir a equipe ou seus salários, deixando muitos desempregados ou com renda mais baixa. Levando isto em conta e que a educação online continua, isso significa que os recém-formados e os jovens continuam a se juntar àqueles que já estão procurando emprego, enquanto a oferta de empregos em alguns setores não aumentam. Os jovens também enfrentam o desafio de adaptar-se à adversidade e ganhar experiência mesmo durante a pandemia, o que às vezes pode desencorajá-los em sua busca de emprego; mas, por outro lado, é claro que as empresas devem prestar mais atenção ao papel essencial dos jovens no mercado de trabalho, assim como melhorar as condições de trabalho.

No caso dos que ainda não trabalham, o que pode ajudar para poderem ingressar no mercado de trabalho?

F.C: O mais importante é estar preparado e atualizado. Nunca se sabe quando uma vaga pode surgir, mesmo que não se esteja procurando ativamente por ela. Para aqueles que estão procurando ativamente uma primeira oportunidade, certifique-se de estar buscando nos lugares certos, descubra o que você gosta de fazer, qual pode ser o cargo certo para você, e tenha um bom currículo que reforce suas qualidades e habilidades mais fortes. Se a pessoa está se candidatando a empregos muito diferentes, também é bom criar várias versões do currículo para destacar as habilidades mais relevantes para cada vaga. E mesmo que não haja experiência prévia, isso não é motivo para desanimar. Muitas empresas apostam em pessoas que não têm tanta experiência precisamente para treiná-las. O que também ajuda é tentar transmitir uma imagem confiante e descontraída durante a entrevista. 

O que pode servir de incentivo para os que já trabalharam voltar ao mercado?

F.C: Os jovens e recém-formados que tiveram que deixar o mercado de trabalho por alguma razão e agora estão tentando retornar devem, se possível, continuar sua formação acadêmica de acordo com suas aspirações e as novas realidades do mercado, e identificar o que os recrutadores estão procurando. A dica é explorar seus interesses, além da carreira que acabaram de terminar, para combiná-los e oferecer habilidades únicas aos recrutadores. Reiniciar a vida profissional no meio da pandemia é definitivamente um desafio e alguns recém-formados ficaram sem a oportunidade de exercer sua profissão enquanto seu setor se recupera. Por outro lado, vários setores estão exigindo mais profissionais, mas eles têm que permanecer ativos e inovadores com os conhecimentos adquiridos e os novos conhecimentos que estão por vir.

Além de estarem preparados, devem existir mais programas para os jovens que os ajudam no ingresso no mercado de trabalho. Um ponto observado e vejo bastante, trata-se da questão de experiências: muitas empresas solicitam que jovens de apenas 20 anos já tenham X experiências em um setor Y, questão vista até mesmo em vagas de estágios e “júnior”.

Em uma conversa com Gabriella Oliveira, de 24 anos, a jovem estudante do terceiro período de Jornalismo conta estar em busca do primeiro estágio na área, mas que, por diversas razões, não  se encontra qualificada “o suficiente” para as vagas, da forma como as empresas pedem. Ela diz que tem a sensação de que querem uma pessoa com anos de experiência no corpo de uma pessoa jovem.

Por mais que seja difícil, é esperado que a partir de agora, com o esquema de vacinação contra a COVID-19 avançando pelo país e já garantindo segurança para a população, o mercado de trabalho possa melhorar e trazer mais oportunidades a todos, em especial para os mais jovens que não puderam ter nenhuma experiência até o momento.

Esperamos que os índices melhorem, que as oportunidades cresçam e que os empregadores possam colocar-se no lugar dos jovens que buscam o primeiro emprego, dando oportunidades aos que não possuem nenhuma experiência, mas que desejam adquiri-la.

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »