31/01/2022 às 15h29min - Atualizada em 31/01/2022 às 15h25min

O atraso no ensino da rede pública durante a pandemia e seus efeitos colaterais

Como o déficit afetou os estudantes de escolas públicas durante a pandemia do covid-19, as consequências para as suas vidas e as expectativas dos docentes

Samara Letícia - Ana Lívia Gonçalves e Laura Kirschnick
Samara Letícia
 
   Durante o período de quarentena, decorrente da covid-19, as redes pública e privada tiveram de se adaptar ao novo formato de educação a distância. Entretanto, o ensino coletivo precisou enfrentar maiores desafios de acesso às plataformas, apostilas e materiais, por seus alunos, além da reformulação de calendários. Dessa forma, os estudantes apresentaram déficit quanto ao conteúdo ensinado nos respectivos anos escolares, unido ao grande desestímulo pautado nos obstáculos que a distância provocou.

    De acordo com a pesquisa realizada pela Unesco, a maior parte das escolas públicas abriram as portas para os alunos de modo parcial ou total no segundo ano pandêmico, contudo, o aprendizado não pôde voltar intacto. A pandemia ocorrida nos anos de 2020 e 2021 provocou mudanças intensas na rotina de toda a população mundial, que precisou se adaptar à nova realidade e transformá-la para o formato “à distância”.

   A educação pública brasileira, de mesmo modo, precisou adequar-se, porém, ao contrário da rede privada de ensino, a possibilidade de iniciar o ensino remoto tardou demasiadamente, potencializando a disparidade dos calendários para com o ensino particular. Unido a isto, o acesso ao material didático e a plataforma de aprendizagem também divergiam muito, aumentando assim a discrepância entre as redes de ensino-aprendizagem. Neste momento, as salas de aulas se esvaziaram e o corpo docente assim como os alunos precisaram iniciar viver o processo do ensino em suas próprias casas.

 

   Os relatos dos alunos que vivenciaram esta realidade denunciam a sensação de prejuízo e desequilíbrio com as expectativas de vestibulares. Segundo o aluno da escola estadual, Igor Nunes, de 21 anos e que cursa o segundo ano do ensino médio, a falta de acesso aos aparelhos eletrônicos dificultou completamente o contato com as aulas. Para ele, mesmo com a tentativa de utilizar o que estava ao seu alcance para assistir aos conteúdos não foi o suficiente, além disto, não recebeu apoio financeiro para modificar a situação.

   Ainda na rede estadual, o aluno Yuri Medina, de 18 anos e que cursa o último ano do colegial, mesmo que ele tivesse os aparelhos, o conteúdo não lhe permitiu preparo para o Enem. Em suas palavras: “Na maioria das vezes, a gente só tinha atividade para entregar e pelo menos eu não consegui aprender assim”. O rapaz também afirma que sentia o esforço de seus professores, mas que não era totalmente efetivo sem um apoio sistemático.  Este relato é apoiado pelas vivências de Kelvin Luiz, de 20 anos e que cursa o segundo ano do colegial. Ele afirma que não recebeu contato da rede de ensino sobre os procedimentos que seriam tomados no ensino remoto e que sua responsável teve de buscar as respostas por si.

   Em todas as afirmações, os estudantes de escola pública encontram-se no mesmo ponto de interseção, o não preparo e a distância com o aprendizado. Em suas experiências, falaram sobre não ter absorvido propriamente o conteúdo dos últimos dois anos e que sabiam como iriam lhes afetar. Para Yuri Medina e Igor Nunes, há necessidade de reforço externo para cumprir o conteúdo do Enem e dos vestibulares que gostariam de prestar. Já para Kelvin Luiz, seria um ano a mais para que ele não conseguisse entrar no mercado de trabalho.

   Os atrasos do calendário e o déficit de aprendizado também foram observados pelos professores, que acompanhavam de perto a nova realidade de seus alunos. Segundo uma coordenadora da rede estadual de ensino, que preferiu não ser identificada, mesmo que o governo estadual tenha contornado o calendário em tempo hábil para o encerramento das aulas, ainda sim houve prejuízo. Segundo a mesma, foi difícil para os docentes se adaptarem e proverem educação para seus alunos, mas que ainda assim, houve demasiado esforço da equipe para cumprir o melhor trabalho possível. Afirma também, que foi feito o possível com os recursos que cada sede teve para desenvolver o ensino.

   Para outra professora do ensino estadual, que também preferiu não ser identificada, a maior falta ocorrida no ensino foi a falta de recursos tecnológicos disponibilizados e que afetou diretamente os estudantes. O acesso aos aparelhos, que iriam possibilitar o ensino remoto, teria sido fundamental para que não aumentasse a discrepância para com a rede particular.

   Para a coordenadora do Colégio Santanna (educação particular), Giselda Maria, foi necessária uma completa adaptação para o ensino remoto. Salas com tablets adaptados, Wi-Fi com grande potência, uso de plataformas online para se comunicar com os alunos e realizar as provas, capacitação para aulas remotas e assistência T.I. (técnica informática).

   Os ambientes de convivência tinham capacidade de acomodar a quantidade correta de alunos, estabelecendo o distanciamento social. Assim como na rede pública, foi preciso esforço e busca de novos conhecimentos pelos docentes da rede particular, mas o grande diferencial foi o acesso às tecnologias, que permitiu resultados ainda producentes.

   Na opinião da psicopedagoga Aryane Coelho, no ensino público a maior das defasagens seria a dificuldade em recuperar o tempo de ensino para com os alunos e que o ensino regular somente não daria conta da demanda. Dessa forma, seriam necessárias políticas públicas voltadas para reforço no ensino, especialmente para com os alunos que têm idade superior à série que cursa. Neste momento em que a pandemia maximizou a desigualdade de ensino já existente, todo suporte tecnológico e corporativo será necessário.

   A pandemia dobrou as dificuldades no ensino-aprendizagem, uma vez que sem a troca entre o aluno e o professor, a comunicação, tão importante no processo do ensino, é cortada. Portanto, segundo a psicopedagoga, com experiência em ensino público e particular, será necessário um olhar coletivo e individualizado, compreendendo as necessidades de cada turma como um todo e de cada aluno como em sua particularidade. Por isso, a flexibilidade de ensino será agora cada vez mais importante, para que os professores e alunos, possam estabelecer o processo de ensino-aprendizagem.

   Com isto, é possível perceber que a pandemia potencializou a disparidade de aprendizagem já existente entre as escolas públicas e particulares, e como esse processo afeta os alunos prejudicados. Agora, a expectativa é que a volta do ensino presencial possa estimular novamente os estudantes e que o sistema governamental de ensino possa prover melhores condições de acesso à educação.

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