31/05/2022 às 22h51min - Atualizada em 30/05/2022 às 21h15min

De proteção a escudo: uso da máscara e sua relação com a autoestima

Como um objeto de proteção tornou-se um acessório “escudo” para esconder “imperfeições” e evitar julgamentos alheios, devido a baixa autoestima

Débora Noême - editado por Letícia Renata Leite
(Foto: Reprodução/Pixabay)

Durante a pandemia da COVID-19 tornou-se necessário (e obrigatório) o uso de máscaras de proteção para diminuir as transmissões de contágio. Não demorou para que as máscaras se tornassem uma parte do visual do nosso dia a dia, principalmente no guarda roupa feminino, surgindo no mercado nas mais diversas cores e tecidos. Entretanto, para algumas pessoas as máscaras adquiriram uma nova função, indo além de um acessório e se sobressaindo à finalidade de proteção: esconder o rosto. Mas por que isso acontece?

 

Segundo a psicóloga Daniele de Sousa Pereira, os estudos acerca do uso de máscara com outra finalidade que não seja a de proteção contra a Covid-19 ainda são muito recentes, não tendo sido ainda publicados. No entanto, na perspectiva da psicologia, é possível descrever e compreender muitos aspectos comportamentais ligados a esta temática.

 

Daniele cita os principais motivos para esta ação:

 
  • Conversar realizando menos expressões faciais, ou seja, conversas mais curtas e sem necessidade de serem expressivas. Geralmente se dão devido ao afastamento social e de certa forma uma “preguiça” de manter um diálogo;
  • A busca pela aceitação do outro ou até mesmo de um grupo, muitas vezes só usam por influência de outras pessoas, geralmente aqueles que são um referencial, seja ele próximo ou até mesmo um famoso;
  • O envolvimento por um sentimento de humanidade, sentindo que está fazendo parte de algo maior, usam assim a máscara porque é o melhor e o que podem fazer para contribuir com a sociedade; 
  • A necessidade de esconder emoções, como cansaço, estresse, tristeza, entre outras que não são bem vistas socialmente;
  • A insatisfação com sua aparência, sendo tomada principalmente por sentimentos como insegurança, medo e baixa autoestima.

 

Mesmo após a liberação do uso das máscaras, algumas pessoas ainda optam por permanecer com o uso. “Dentre os motivos já citados para que esse comportamento ainda exista, podemos destacar a insegurança com a autoimagem, usando de fato como um escudo social e se escondendo por trás dessa máscara, como uma forma de se proteger de possíveis "ataques" que em sua visão possa vir a sofrer e possam estar ligados a sua aparência", explica Daniele.
 

Os memes sobre o uso da máscara circulam com facilidade pelas redes sociais, sinal de grande identificação por parte das pessoas. Entretanto, essas “brincadeiras” não ajudam, pelo contrário, reforçam o medo de julgamento para quem já sofre com a questão.

 

“É importante pontuar que o uso da máscara com outra finalidade que não seja aquela à qual é destinada, a torna um acessório que remete um comportamento disfuncional do sujeito e pode estar encobrindo questões bem mais íntimas e profundas do mesmo.” Se esse for o caso, a psicóloga aconselha a busca por um profissional qualificado. “São questões que podem ser tratadas em terapia. De início não parece ser nada demais, mas a partir do momento em que isso começa a interferir na sua vida social, devem ser tomadas medidas para que sua saúde mental e emocional seja preservada. Nesses casos a aceitação e o amor próprio não são fáceis de serem alcançados, mas com intervenção profissional e uma boa rede de apoio, são totalmente possíveis”, afima a psicológa.

 

Além da preocupante questão estética, é preciso atentar-se ao fato de que o uso da máscara interfere também nas relações sociais, uma vez que não enxergar o rosto completo de alguém torna difícil decifrar suas emoções e, consequentemente, estabelecer um sentimento de empatia. “O uso da máscara impossibilita uma visão clara das expressões faciais em uma conversa, inviabilizando muitas vezes uma interpretação mais pura do que realmente está sendo dito, e isto interfere  em nossa comunicação e remete a  relações sociais mais "pobres" de conteúdo e interação genuína com o outro", continua Daniele.
 

"Sob o olhar da psicologia comportamental a pandemia trouxe com ela não somente sintomas biológicos para aqueles que foram afetados, mas também sintomas psicológicos para todos, isto devido ao isolamento, o medo, a incerteza, e as novas formas de convívio e interação social. Uma mudança tão grande gerou grandes alterações comportamentais. Na mídia ouvimos com frequência sobre o novo normal e este 'novo' causou e ainda causa inseguranças para a maioria da população.Toda essa situação nos forçou a um afastamento das interações sociais por um longo período de tempo, e mesmo em contato com outras pessoas o afastamento social ainda está evidente", finaliza a psicológa.

Depois de 2 anos de pandemia é compreensível que estejamos acostumados com as máscaras, e até mesmo que o medo permaneça, afinal, o vírus ainda está circulando, mas vale a reflexão: você usa máscara para sua segurança ou para se esconder?


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