25/10/2022 às 15h04min - Atualizada em 25/10/2022 às 14h05min

Resenha | Blonde e a hipersexualização de Marilyn Monroe sessenta anos após a sua morte

Filme aborda um lado sombrio da carreira da atriz, mesclando verdade com ficção e reforçando a sua objetificação.

Giuliane Fagundes - Revisado por Flavia Sousa
A caracterização da atriz Ana de Armas surpreendeu o público. (Foto: Reprodução/Netflix)

Baseado no livro de Joyce Carol Oates e protagonizado pela atriz Ana de Armas, Blonde foi lançado em setembro deste ano na Netflix. Inspirado na vida e carreira de uma das maiores estrelas de Hollywood, Marilyn Monroe, o filme, através de uma nova perspectiva, retrata a vida da artista além do glamour, fama e seus relacionamentos. No entanto, sessenta anos após a sua morte, ela continua sendo hipersexualizada e objetificada pela indústria cinematográfica. 

Dirigido por Andrew Dominik, a produção era aguardada há alguns anos por admiradores e curiosos que buscavam através da ficção entender a vida de um dos  maiores ícones das telas, em que ela ficou conhecida mundialmente pela cena do filme ‘O pecado mora ao lado’, onde seu vestido é levantado por um duto de ar. A partir desta imagem, Marilyn se tornou um símbolo sexual mundial e sua imagem é atrelada desta forma até hoje.
 

A infância de Norma Jeane, que no futuro adotaria o nome artístico de Marilyn Monroe, é demonstrada em cenas perturbadoras com a mãe, que sofre com a instabilidade mental, porém, a forma como a relação é retratada se torna chocante demais, sendo estas as primeiras cenas do filme. Um dos exemplos de crueldade está na cena em que afoga Marilyn na banheira, ou seja, as ações são apenas presumidas, o que já dita o tom depressivo e melancólico da obra desde o seu início. Na vida real, Gladys sofria de esquizofrenia e assim como no filme fora internada em uma clínica, fazendo com que a filha fosse para um orfanato, mas não há como dizer que a relação entre mãe e filha fora da forma triste e insensível como foi retratada na história. 
 


A adolescência e o sonho de Marilyn em atuar são completamente ignorados e o foco se torna em como os homens a viam como um objeto. Acreditando ser uma audiência para interpretar um papel em um filme de maior destaque, ela é enganada e estuprada pelo diretor que a esperava em um hotel. Novamente, a obra tenta presumir e demonstrar ao telespectador que o sucesso de Marilyn se deu apenas pelo abuso e o desejo de seu corpo, deixando de lado qualquer hipótese de que o seu talento e dedicação a tenham levado ao estrelato, inventando uma história em que sequer há o conhecimento de sua veracidade, apelando para um tom imaginativo de quem a escreveu.

As inúmeras cenas de sexo e estupro são extremamente detelhadas e causam naúseas, principalmente em relação ao presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, uma relação a qual nunca foi comprovada, se tratando de um boato, tornando-se mais um assunto presumido no filme. A artista é violentada de todas as formas nesta história, com a ausência de um relacionamento ou quaisquer momentos felizes. Na maioria das cenas, é mostrada a nudez de Ana de Armas, em que não apenas Marilyn, mas a atriz que a interpreta também é objetificada.  

 

Marilyn sofria um intenso assédio por interpretar papéis considerados mais ousados para a época, principalmente do público masculino, que atrelava a imagem das telas à mulher da vida real. Na obra, são retratados diversos relacionamentos abusivos e a sua inocência é extremamente forçada, muitas vezes tornando-se incômoda para o telespectador, em uma tentativa de fazer o público que assiste entender a ausência de atitudes mais incisivas contra todos os ataques que sofreu. O único ponto possível de entender são os motivos da personagem em se calar diante dos abusos, já que ela vivia em uma época em que o estupro e assédio eram ignorados por uma sociedade machista. 

 

Ficção versus realidade 

 

A melancolia da história não permite que Marilyn ou o telespectador tenha momentos de alívio durante a carga emocional de tantas cenas de abusos físicos e psicológicos. Em nenhum instante a artista sente felicidade em atuar e encenar se converte uma obrigação, em que ela se torna uma personagem criada por Norma Jeane, na qual não consegue mais escapar. 
 

Trailer oficial de 'Blonde'. (Reprodução: YouTube)
 


Leia mais em: Netflix aposta em filme biográfico sobre a vida da atriz Marilyn Monroe

 

Marilyn Monroe tinha uma história conturbada desde a sua infância, com a especulação de diversos relacionamentos amorosos, a sexualização excessiva da mídia e do público sobre si até os seus últimos dias de vida. Ela era e ainda é vista como um dos maiores símbolos sexuais do cinema, rodeada de sucesso e dinheiro, conhecida como um produto e não como o ser humano que tinha seus problemas. O filme deseja mostrar um lado além do glamour e da fama, mas ao tentar desmistificar Marilyn e a abordar como pessoa e não como artista, a história adota um tom extremamente negativo e pessimista, em que não há a existência de qualquer felicidade em sua vida.

 

O diretor de Blonde afirma que a obra não se trata de uma cinebiografia, mas mescla a vida da atriz com a ficção, no entanto, mesmo que o filme não seja fiel à história real, termina por intensificar uma imagem sexualizada e negativa. Não houve tentativas de dissociar a imagem dela com a objetificação sofrida durante anos, mas um reforço destes preconceitos. 

 

Repercussão negativa

 

O filme, esperado pelo público há alguns anos, recebeu comentários extremamente negativos por parte dos críticos e telespectadores. O Rotten Tomatoes, principal plataforma de avaliação do público e especialistas, tem apenas 42% de aprovação entre os críticos e 32% dos telespectadores. 

 

A hipersexualização, as diversas formas de abuso e a maneira como Marilyn foi retratada deixou um gosto amargo a quem assistiu, que esperava uma história mais fiel aos fatos, misturando o lado negativo e positivo de sua vida. Um dos únicos pontos positivos está na caracterização impecável de Ana de Armas e sua atuação, que apesar dos caminhos da história, soube interpretar o papel com intensidade  dentro do que lhe foi proposto. 

 

 

Trailer oficial do documentário “O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas”. (Reprodução: YouTube)


 


Blonde não é recomendado para quem quer entender ou ter mais conhecimento da vida da estrela. Os telespectadores que desejarem fugir de percepções equivocadas e reforço de preconceitos, podem assistir o documentário disponível na Netflix, “O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas”, em que através de arquivos, agrupamento de informações e entrevistas de amigos, deixando as suposições de lado, aborda a vida, carreira e morte prematura da artista. 


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