11/12/2019 às 09h40min - Atualizada em 11/12/2019 às 09h40min

Como foi o desenvolvimento da audição dos mamíferos

Cientistas identificaram etapas de transição nos restos de espécies que viveram há 125 milhões de anos no que é hoje o nordeste da China

Isabelle Miranda - Thalia Oliveira
IstoÉ
 A audição dos mamíferos modernos, que incluí os seres humanos, se deve a três pequenos ossos no ouvido médio que eram ausentes em seus ancestrais répteis. O ponto em que ocorreu essa transformação foi desvendado por cientistas chineses, que identificaram as etapas de transição nos restos de espécies descobertas recentemente que viveram há cerca de 125 milhões de anos no nordeste da China.

As descobertas dos pesquisadores foram publicadas na revista Science e Nature, sendo recebidas pela comunidade científica como um marco no campo da paleontologia. Guilherme Rougier, biólogo evolutivo da Universidade de Louisville, considerou as amostras que a equipe havia estudado, eram impressionantes. “É um conjunto de provas fantástico”. O autor principal, Jin Meng, do Museu Americano de História Natural de Nova York (MAHN), explicou que o estudo se baseou nos restos de seis animais individuais, proto-mamíferos do período Cretáceo Inferior que chamaram de “Origolestes lii”, espécie essa que vivia junto com dinossauros e eram parecidas com roedores, tanto em tamanho como em aparência.

O mamífero, denominado Jeholbaatar Kielanae, foi descoberto na formação Jiufotang, na província de Liaoning, no nordeste da China. Yuanqing Wang e Haibing Wang do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, juntamente com Jin Meng, propuseram que a evolução de seu aparelho auditivo poderia ter sido impulsionada pela especialização da alimentação. A configuração da face inferior do animal sugere que ele tinha um estilo incomum de mastigar para trás e para frente que lhe permitia moer e comer plantas. Isso poderia ter contribuído para o seu sucesso como espécie, porque outros mamíferos vivos na época só podiam comer insetos e outros vertebrados.

Diferente do sistema auditivo dos répteis - que usam suas mandíbulas para mastigar e transmitir sons externos, por meio de vibrações a seus cérebros, o dos mamíferos é mais delicado e complexo, incluindo os ossos martelo, bigorna e estribo – responsáveis por uma série de funções, desde a apreciação musical em humanos até a eco localização em golfinhos. Os cientistas levantaram a hipótese de que o chamado “desacoplamento” do sistema auditivo e mastigatório eliminou as limitações físicas que os dois processos se impunham entre si, permitindo aos mamíferos diversificar sua dieta e melhorar sua audição.

Com o auxílio da tecnologia, a equipe liderada por chineses descreveu os espécimes com detalhes, incluindo as estruturas de seus ossos de audição e cartilagem. “Agora proporcionamos a evidência fóssil no tempo evolutivo que faz eco da hipótese”, disse Meng. Os indícios fósseis mostram que os ossos pós-dentários foram incorporados na cavidade pós-dentária no lado medial do dentário (osso que integra a mandíbula dos vertebrados) ou conectados ao dentário por meio de uma cartilagem ossificada de Meckel nos primeiros mamíferos, antes de sua migração para o crânio, como se observa nos mamíferos atuais. O descolamento dos ossos do ouvido médio dos mamíferos em relação ao dentário ocorreu independentemente pelo menos três vezes. Mas como e por que esse processo ocorreu em diferentes grupos de mamíferos permanece incerto.“Nossas descobertas sugerem que a co evolução das articulações da mandíbula primária e secundária em aloteristas (ramo extinto de mamíferos, que inclui os Multituberculata) foi uma adaptação evolutiva que permite alimentar com mastigação palinal única (longitudinal e para trás)”, afirmaram os autores do estudo. “Assim, a evolução do aparelho auditivo alotérico provavelmente foi desencadeada pelos requisitos funcionais do aparelho de alimentação.” A procura agora é para saber se o processo ocorreu de uma vez ou em grupos e momentos diferentes.
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