01/05/2020 às 16h53min - Atualizada em 01/05/2020 às 16h53min

O futuro das bancas de jornais: hora de acabar ou de reinventar?

Bancas de jornais de São Paulo diminuíram 17% em 10 anos

Guilherme Balbino
História Hoje, G1, Poder 360
Divulgação G1
As bancas de jornais chegaram no brasil no início do século XX, com o objetivo de centralizar em diversos pontos do país a venda do principal meio de comunicação na época, os jornais impressos e as revistas, que com o passar dos anos, a demanda pelas informações aumentava. Os jornais impressos eram consumidos primeiramente pela elite, e posteriormente pela restante da população que até então, não tinham acesso às informações, conforme cresciam este consumo, houve a necessidade de centralizar essas vendas, devido a isso, surgiram as bancas de jornais.
 
  Por quase um século, as bancas que eram abertas conseguiam sobreviver apenas com as vendas de seus produtos, que por sua vez, ficaram famosas com o tempo. Editoras lançavam diversas coleções e revistas sobre determinados assuntos, que eram vendidas para todos os públicos. Em alguns pontos se formavam filas para entrar no local. Mesmo com surgimento do rádio e televisão, as bancas continuavam sendo uma das principais fontes de comércio dos jornais. No início do novo século, considerado “A Era Digital” com a expansão da internet, começou a ter o declínio das principais vendas dos famosos quiosques.  Jornais impressos e revistas iniciaram a fazer parte dos conteúdos online, uma possibilidade a mais de mercado, mas ainda sim, há pessoas que optam por manter o material impresso. Porém, a circulação não é tão constante como antes e com o aumento da tecnologia as pessoas também migraram as suas buscas pela internet.
 
O novo rumo das bancas de jornais
 
 Adenilson Leite da Silva, de 60 anos, comprou uma banca de jornal do próprio irmão em 1988 no bairro da Cruz Preta, em Barueri, na grande São Paulo, e saiu do seu emprego fixo de almoxarifado. “Na época, meu irmão tinha dado meio lote na banca e depois eu dei um Opala 88 de 7 anos de uso e mais um valor em dinheiro, o ramo era muito bom”, explica. Silva já completa 32 anos nesse trabalho, fez toda a sua vida e se aposentou nessa área. “No começo era muito bom, vendia bastante jornais e revistas, no auge cheguei a vender 1000 jornais no domingo, e também orientávamos as pessoas que  precisavam de endereços de ruas e firmas, hoje é difícil alguém parar para pedir informação, tem o GPS, que leva onde eles quiserem”, conta Adenilson.
  Ele relata que as vendas de diversas revistas, como documentários começaram a cair nos últimos 5 anos, e as pessoas que compram são aqueles que conhecem a banca dele há tempos ou que ainda gostam de pegar jornal ou uma revista para ler. Com esse declínio das vendas, sua banca começou a complementar a renda vendendo acessórios, recarga de celulares, brinquedos entre outras possibilidades. “Hoje eu abriria para fazer o meu gosto, adoro estar ali conversando, brincando, o ramo é bom é que nem política, você entra e não quer mais sair, eu acho prazeroso, mas para abrir já tem que estar com a mentalidade de ter as revistas e um paralelo, acessórios de celular, guarda-chuva, bateria, tudo nessa linhagem de camelô”, explica Adenilson. Ele também conta que não abriria hoje uma banca por conta da idade, mas, aconselha aqueles que são novos, gostam do público, de conversar, que é um bom caminho abrir “pode abrir, é muito bom, é muito gostoso”.
 
  O dono da banca também fala que há 10 anos tinha poucos pontos como tem hoje, houve um aumento no decorrer do tempo. Ele tinha clientes de outras cidades que trabalhavam na região e iam adquirir os jornais na sua banca, pela pouca quantidade que havia. Em relação ao futuro das bancas, com toda a sua experiência, ele concorda que não é hora delas acabarem, “você vai em outros países de primeiro mundo e lá tem banca, acho que deva reduzir um pouco, mas quem gosta do ramo continua. A banca deve dar uma diversificada, com outras possibilidades para atrair cliente, mas acabar agora não”.  No início da jornada, Adenilson ajudou um de seus amigos que trabalhou com ele na firma a abrir a própria banca no ano de 1992. Milton Oliveira, de 62 anos, tem seu quiosque localizado na divisa entra Osasco e Carapicuíba, mais conhecido como “21”, por estar ao lado da Rodoanel Mário Covas no Km 21.
 
  Milton relata que foi gratificante a experiência em trabalhar em uma banca, tinha muita vontade de ter e com a ajuda do amigo conseguiu conquistar seu sonho, mesmo pelas dificuldades, de ficar “preso” no tempo, ele sempre fez o que gosta até o momento. Hoje ele relata que no começo da carreira era uma época que ainda dava lucro, mas com o avanço da tecnologia, agora as vendas são só suficientes para sobreviver. “Por volta de 2010, tive que dar uma diversificada, vendendo balas, sorvetes, outras variedades de coisas para complementar o que a gente vendia antes”. Ele ainda afirma que as vendas de jornais caíram em média de 95%. Já para Milton, abrir uma banca de jornal nesses novos tempos não é mais um bom negócio. “Sinceramente, se alguém perguntar para mim, eu falaria que não, que não é nada viável, se a pessoa puder procurar outro meio de sobrevivência é melhor”, diz Oliveira. Mas concorda que para sobreviver uma banca é preciso “alternar” os produtos. “Senão diversificar, se ficar esperando só pela venda de jornal e revista, a banca praticamente não faz sentido, então tem que inventar mil coisas para poder vender, se a pessoa quiser continuar nesse ramo tem que diversificar bastante.”, analisa.
 
Uma nova estratégia
 
  Mariana Bastos trabalha no ramo editorial há mais de 10 anos e tem sua própria Editora Casalua e Livraria do Vale desde de 2015. Ela afirma que a editora independente vem crescendo com o tempo, mesmo não atingindo grandes catálogos, tem uma quantidade menor, mas direcionado para seu nicho. “Depende da estratégia de cada editora, da localização, hoje às dinâmicas das livrarias itinerantes, que são as antigas bancas, ela ao invés de estar em lugar fixo, ela está rodando, a gente está indo atrás do público, não público atrás da gente, e isso tem dado certo”, explica Mariana.  Ela ainda afirma que tanto o material impresso como o digital o importante é ter o conteúdo. “Independentemente de você estar lendo uma plataforma digital ou ir até a banca e ler um jornal, o conteúdo não vai morrer, a gente pode daqui alguns anos deixar de imprimir, mas o conteúdo que está ali é o que importa” relata.
  Segundo informações apuradas pelo G1, a Prefeitura de São Paulo tinha, em 2009, o número de estabelecimentos cadastrados como “bancas de jornais” de 3178, no ano de 2019 há em torno de 2630 bancas. Em uma década houve uma queda de 17%, só na cidade de São Paulo.
Em uma matéria publicada pelo Poder 360, buscou averiguar 10 jornais diários mais relevantes e nos dados encontrados houve uma queda de 51,7% de tiragens. Em dezembro de 2014, tinham uma tiragem somada de 1,2 milhão de exemplares impressos. Em outubro de 2019, o número foi de 588,6 mil. Enquanto as assinaturas digitais só tem aumentado e em alguns casos dobrado, como a Folha de São Paulo, em 2014 tinha cerca de 159 mil assinaturas, em 2019 ultrapassa 240 mil, com um aumento de 52%. Esses números impactam diretamente nas tradicionais bancas de jornais em todo lugar. Atualmente, as leis orgânicas de cada município permitem que as tradicionais bancas vendam pelo menos 70% de jornais e revistas e 30% de variedades para complementar a renda, variando de cidade para cidade.
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