28/08/2020 às 14h28min - Atualizada em 28/08/2020 às 14h18min

Ataques de Bolsonaro à imprensa tornam-se uma triste rotina para jornalistas

Segundo a Fenaj, Bolsonaro fez quase dez ataques por semana contra a imprensa no primeiro semestre de 2020

Larissa Campos - labdicasjornalismo.com
Presidente Jair Bolsonaro - Foto por: Carolina Antunes/PR
No último dia 23, o presidente Jair Bolsonaro ameaçou um repórter ao ser perguntado sobre os cheques no valor total de R$ 89 mil que teriam sido depositados entre 2011 e 2016 pelo ex-assessor Fabrício Queiroz e pela esposa dele, Márcia Aguiar, na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. A resposta do presidente à pergunta foi: “Minha vontade é encher tua boca na porrada".

Um dia depois do episódio, durante discurso no Palácio do Planalto, Bolsonaro voltou a atacar jornalistas dizendo que se um “bundão” da imprensa contrair o novo coronavírus, a chance de sobreviver é “bem menor”.

Entretanto, não é a primeira vez Bolsonaro se volta contra a imprensa. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o presidente terminou 2019 com 116 ataques à imprensa e, apenas no primeiro semestre de 2020, a federação chegou a contabilizar 245 ocorrências. Relembre alguns dos maiores casos:

“Cara de homossexual terrível”: Em dezembro de 2019, o presidente reagiu de forma agressiva ao ser que questionado pelos jornalistas sobre as investigações que atingem seu filho, o senador Flávio Bolsonaro quando era deputado estadual. “Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual” afirmou Bolsonaro.

O mesmo jornalista que o questionou anteriormente também perguntou sobre um cheque de R$ 24 mil reais pago por Queiroz à primeira-dama Michelle Bolsonaro. “oh rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai, tá certo?" respondeu o presidente.

“Ela queria dar o furo a qualquer preço”: Em fevereiro deste ano, em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro fez um comentário de cunho sexual referente a repórter Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo. “Ela [Patrícia] queria um furo. Ela queria dar um furo a qualquer preço contra mim" ironizou.

O episódio aconteceu após um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp dizer, sem apresentar provas, que a jornalista teria se insinuado sexualmente em troca de informações sobre a suposta rede de fake news que atuou em prol de Bolsonaro durante as eleições de 2018.

“Cala a boca, não perguntei nada”: Em maio, quando questionado sobre a sua influência na mudança de liderança da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Bolsonaro disse aos gritos: “Cala a boca, não perguntei nada”

Onda de ataques à jornalistas em redes sociais

A última fala de Jair Bolsonaro trouxe indignação de instituições e artistas, que repudiaram o comportamento por meio de críticas, manifestações via internet e notas de repúdio. No entanto, a atitude do presidente também gerou uma onda de ataques e ameaças de apoiadores contra jornalistas nas redes sociais.

Muitos apoiadores revelaram partilharem da vontade do presidente de agredir jornalistas, havendo até mesmo um comentário dizendo que os profissionais mereceriam “algo pior”.

O que dizem os jornalistas?

O jornalista Junio Silva comenta que essa “tática” de ataque do Bolsonaro contra jornalistas já vem de desde antes do seu mandato e acarreta na propagação de desinformação, além de enfraquecer o jornalismo aos olhos da população.

“O que eles não conseguem entender é que nós, enquanto jornalistas, somos como qualquer outro trabalhador, mas a diferença da nossa profissão para outras é o poder e o dever que temos em ser um retrato do que está acontecendo no país”

Fiamma Lira afirma ainda que as atitudes de Bolsonaro são replicadas por seus apoiadores, que se veem incentivados a também cometerem ataques contra a imprensa. “É muito assustador ver tudo isso. O jornalismo está passando por um momento difícil, e nesse governo o cenário só piora” completa a jornalista.

Lucas Matheus, estudante de jornalismo, frisa que os jornalistas se encontram em um momento complicado, “a um passo da censura”, mas não pensa em desistir da profissão.

“Eles estão a todo momento tentando calar a boca da imprensa e isso me assusta um pouco, mas nós temos uma galera jovem que está se formando, com uma visão diferente de jornalismo. Nós estamos com a faca e o queijo na mão para fazer um jornalismo limpo, correto e honesto” afirma.

Já para Anna Voloch, também estudante de jornalismo, os ataques de Bolsonaro e seus apoiadores são desencorajadores. “A gente tá só exercendo a nossa profissão e apanha na rua a troco de nada. Então, para trabalhar com o jornalismo no Brasil, eu me sinto desanimada. Pretendo sair do país, trabalhar fora daqui, em algum outro lugar onde me respeitem” declara.

A estudante ainda destaca que os jornalistas brasileiros necessitam recuperar a credibilidade, já que muitos cidadãos deixaram de acreditar nas informações passadas pela imprensa.

Os profissionais e estudantes entram em consenso que a melhor maneira de agir contra as atitudes de Jair Bolsonaro é continuar fazendo um jornalismo sério e verdadeiro. “A gente não pode ter medo de fazer o nosso trabalho” completou Lucas.
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