03/09/2020 às 17h31min - Atualizada em 03/09/2020 às 16h58min

Chadwick Boseman : um herói dentro e fora das telas

Nos últimos quatro anos,lutou contra o câncer enquanto gravava nove filmes

Júlia Victória - Editado por Bárbara Miranda
O ano de 2018 foi marcado por uma mudança de perspectiva no cenário dos filmes de super-heróis, no dia 15 de fevereiro, mais especificamente, quando Pantera Negra estreou nos cinemas. Chadwick Boseman interpretava o Rei T’Challa, que já havia sido apresentado em “Capitão América: Guerra Civil”, mas que agora desfrutava de seu próprio filme.
 
Ele foi o primeiro ator negro a atuar como protagonista em um longa solo na Marvel. Mas Wakanda, que era protegida e liderada pelo Pantera Negra, perdeu seu guardião. Na última sexta-feira, Chadwick Boseman morreu devido a um câncer de colón, tinha 43 anos e lutava contra a doença desde 2016. Nos últimos quatro anos, participou de nove filmes e realizava o tratamento nos intervalos entre eles.
 
Chadwick nasceu na Carolina do Sul, em 1977. O mais novo entre três irmãos, estudou atuação na Howard University e cursou teatro na Universidade de Oxford, em Londres. Quando voltou aos Estados Unidos, começou a dar aulas de interpretação no Harlem e no Brooklyn. Fez participação em séries televisivas como “Law & Order” e “CSI New York”, mas foi de 2013 em diante que o seu nome começou a ecoar em Hollywood.
 
Estrelou “42” onde interpretava o jogador de beisebol Jackie Robinson. Jackie foi o primeiro jogador afro-americano da MLB, a Major League Baseball, e é considerado um dos melhores de todos os tempos. Após isso, Boseman foi escolhido para atuar na cinebiografia de James Brown, em “Get On Up”. Três anos depois, fez o papel de Thurgood Marshall, o primeiro juiz afrodescendente da Corte Suprema Americana, em “Marshall”.
Sua história com a Marvel começou em 2016, quando T’Challa estreou em Guerra Civil. E foi a partir desse momento, que Chadwick ajudou a dar início a um movimento importante nos filmes de super-heróis. O estúdio ainda não possuía uma produção protagonizada por um ator negro, mas em 2018 esse caminho mudou.
 
Pantera Negra não trouxe apenas uma narrativa do bem contra o mal, mas verdadeiras lições sobre representatividade e empoderamento. Apresentou uma sociedade extremamente evoluída e tecnologicamente avançada, com um território rico do metal mais forte do mundo. Desmistificando a ideia preconceituosa com relação ao continente africano. Exemplo disso , é o diálogo do Agente da CIA, Everett Ross com T’Challa:
 
“Você está me dizendo que o rei de um país de terceiro mundo anda por aí com uma roupa de gato a prova de balas?”
 
Chadwick deu a oportunidade a crianças e jovens de se identificarem verdadeiramente com um herói. Além da influência no público, ajudou o longa a chegar em um patamar ainda mais alto.As premiações do cinema americano são majoritariamente brancas, mas Pantera Negra fez com que as cerimônias de 2019 fossem diferentes. No Oscar, foi indicado sete vezes, incluindo como Melhor Filme, a primeira vez que uma produção baseada em histórias em quadrinhos concorreu nessa categoria. Saiu vencedor de três estatuetas: Melhor Figurino, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora Original.No prêmio do Sindicato dos Atores, Pantera Negra levou o prêmio de Melhor Elenco, no agradecimento Chadwick fez um discurso poderoso e disse como é difícil conseguir um papel:

 
“[...] penso em duas perguntas que todos nós recebemos durante o curso de várias coletivas e entrevistas promovendo o filme.Uma delas era: “Sabíamos que esse filme receberia esse tipo de resposta?” Ou seja, se ele faria um bilhão de dólares e ainda estaria por aí durante a temporada de premiações? E a segunda questão é: “Esse filme mudou a indústria para sempre?” Mudou realmente a maneira como esta indústria funciona, como nos vê?E minha resposta é ser jovem, talentoso e negro. Porque todos nós aqui em cima, e Andy [Serkis], incluímos você também (risos). Para ser jovem, talentoso e negro, todos nós sabemos como é ser dito que não há lugar para você ser protagonista mesmo sendo jovem, talentoso e negro.
Sabemos como é ser informado de que não há uma tela para você aparecer, um palco para você brilhar. Nós sabemos o que é estar embaixo, nunca em cima.”
 
A morte repentina de Chadwick comoveu seus companheiros de tela.Letitia Wright, que interpretou Shuri em Pantera Negra, fez uma poesia em homenagem ao ator, que foi seu irmão no filme:
 
“Palavras não podem descrever como sinto – como todos nos sentimos – que perder você nos forçou a aceitar isso como uma nova realidade. Eu gostaria de poder dizer adeus”
 
Michael B. Jordan também se pronunciou:
 
“Eu tenho tentado encontrar as palavras, mas nada chega perto de como eu me sinto. Eu tenho refletido sobre cada momento, cada conversa, cada risada, cada discordância, cada abraço… mudou. Eu queria que nós tivéssemos tido mais tempo.”
 
E Danai Gurira, a Okoye, deixou sua mensagem:
 
“Como você honra um rei? Me recuperando da perda do meu colega, meu amigo, meu irmão. Lutando para encontrar palavras. Nada parece adequado. Eu sempre fiquei maravilhada com o quão especial o Chadwick era. Um cara com o coração tão puro, profundamente generoso, régio, divertido. Meu trabalho todo como Okoye era respeitar e proteger um rei. Honrar a sua liderança. Chadwick fez esse trabalho ser profundamente fácil. [...] Uma pessoa verdadeiramente cheia de classe. E tão perfeitamente equipado para assumir a responsabilidade de liderar a franquia que mudou tudo para a representação Negra."
 
Aqui no Brasil, recebeu homenagens das jornalistas Maju Coutinho e Flávia Oliveira.
 
Partiu, coincidentemente, no Jackie Robinson Day, data onde a Major League Baseball homenageia o atleta e quando todos os jogadores vestem a camisa 42. Deixa um legado e uma legião de fãs. No cinema, ajudou a interpretar figuras importantes e viveu papeis que cultivam a representatividade. Parafraseando uma das frases do Rei T’Challa:  que a morte de Chadwick Boseman não seja o fim, mas que a sua história seja um ponto de partida para uma mudança.
 
 
REFERÊNCIAS

 
MERTEN, Luiz Carlos. Chadwick Boseman: a morte do guerreiro num momento crucial da luta antirracista. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,chadwick-boseman-a-morte-do-guerreiro-num-momento-crucial-da-luta-antirracista,70003417938. Acesso em 03 de setembro de 2020.
 
UOL. Ator Chadwick Boseman, o Pantera Negra, morre após batalha contra câncer. Disponível em: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/08/28/chadwick-boseman-de-pantera-negra-morre-apos-batalha-contra-cancer.htm.Acesso em 03 de setembro de 2020.
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